terça-feira, 11 de julho de 2023

8 ou 80: O EQUILÍBRIO COMO EUFEMISMO PARA O MEDO

E A Matemática da Intensidade

Dizem que o equilíbrio é a virtude suprema. Crescemos ouvindo que ser "8 ou 80" é um defeito de fábrica, um sintoma de imaturidade emocional ou de falta de temperança. "A vida acontece nos tons de cinza", repetem os moderados, "entre o 8 e o 80, existem 72 possibilidades. Por que ignorá-las?"

Eu não as ignoro. Pelo contrário. Foi justamente por analisar, vivenciar e dissecar cada uma dessas 72 possibilidades que eu decidi, conscientemente, abandoná-las.

A minha intensidade não é fruto de cegueira, mas de uma visão cristalina sobre o desperdício que é viver no morno.

Vamos olhar para anatomia da mediocridade, o que existe nesse "meio-termo" tão idolatrado pela sociedade moderna. O que reside entre o Zero (o silêncio absoluto) e o Cem (a entrega total)?

Ali moram o "talvez", o "vamos ver", o "quem sabe um dia". Ali moram os relacionamentos que não atam nem desatam, os cafés mornos que não queimam a língua mas também não acordam a alma, as paixões que pedem "tempo" porque têm medo da eternidade. As 72 possibilidades são o purgatório da existência. É a sala de espera onde a vida é colocada em suspensão. É onde as pessoas "vão levando", onde se aceita dividir a cama mas não a alma, onde se racha a conta do jantar mas não se assume a conta do destino.

Eu caminhei por esses números. Eu tentei habitar o número 40, o número 55. E o que encontrei lá foi o tédio travestido de prudência. Encontrei a covardia maquiada de "paz".

Muitas vezes, o que chamam de equilíbrio é apenas falta de coragem para sangrar. Quem vive no 80 corre o risco de quebrar a cara? Sim. A queda é alta. Quem vive no 8 corre o risco da solidão absoluta? Sim. O silêncio é vasto. Mas ambos, o 8 e o 80,  são reais. São palpáveis. Têm textura, temperatura e verdade.

O "meio-termo" é anestesia. É a tentativa infantil de viver sem pagar o preço da vida. É querer amar sem o risco da perda, querer escrever sem o risco da crítica, querer fé sem o risco da dúvida. Eu recuso essa barganha.

Quando eu digo que sou 8 ou 80, não estou dizendo que sou desequilibrada. Estou dizendo que sou seletiva. Ou a experiência é visceral o suficiente para me transformar (80), ou ela é irrelevante o suficiente para que eu a ignore completamente (8). Não tenho tempo, nem energia vital, para investir no número 36,  aquela situação que "não é ruim, mas também não é boa".

A morte é a única certeza que temos (o derradeiro número 0). E diante da finitude, gastar os meus dias negociando com a mediocridade das 72 possibilidades intermediárias me parece o verdadeiro pecado.

Não é coincidência que, até nos textos sagrados, a indecisão seja condenada com mais veemência do que o erro. "Porque não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca" (Apocalipse 3:16). O universo (ou Deus, ou a Física Quântica) respeita o movimento. Respeita a definição. A água ferve a 100 graus ou congela a 0 graus. Nos dois estados, ela é poderosa: ou gera vapor que move locomotivas, ou vira gelo que preserva a vida ou rasga o casco de navios. A água a 50 graus serve apenas para proliferar bactérias.

Portanto, não me peçam para "encontrar o meio-termo". Eu já estive lá, visitei o mapa inteiro, e não gostei da paisagem. Eu escolho a vertigem do topo ou a paz da base. Eu escolho a presença absoluta ou a ausência total. Eu escolho ser amada com fúria ou ser esquecida com respeito.

Fiquem com as suas 72 nuances de "talvez". Eu fico com a minha certeza.

E você; Caro leitor,

Se a água morna serve apenas para proliferar bactérias e o tempo não para, me diga: o que você está cultivando na sua vida hoje? Potência ou estagnação? Em qual número você estacionou a sua coragem?

Até breve.

J.L.I


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