Caro Leitor;
Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha memória e trouxe de volta o Praxedes.
Ele era um gatinho cinza, lindo, que apareceu no meu bairro na minha infância. Naquela época, a proteção animal não era uma pauta, não existiam as leis de hoje, e viajar com animais era quase impensável. Meus pais não deixaram levá-lo. Confiei que ele ficaria bem com a vizinhança.
Quando voltei do fim de semana, encontrei o Praxedes jogado sobre um monte de terra. Morto. O choque da visão foi terrível, mas a explicação que recebi foi o que realmente quebrou algo dentro de mim. Com uma naturalidade assustadora, me disseram: "Ah, os meninos brincaram de apedrejar."
Brincaram. A palavra "brincadeira" usada para descrever tortura e morte.
Lembro-me de pegar o corpinho dele, levá-lo para o quintal da minha casa e cavar a terra chorando. Enquanto o enterrava, eu via as marcas das pedradas no pelo cinza. Eu imaginava o terror, a dor, o desamparo dele diante daqueles "humanos" em formação.
Hoje, vendo as notícias se repetirem com outros rostos e outros "meninos", a pergunta me assombra: O ser humano nasce mau ou é a sociedade que nos corrompe? Onde falhamos na educação para que a destruição do outro seja vista como entretenimento?
Ferir um animal não é um erro, é um sintoma de colapso ético. É o "gozo na crueldade". Quando não há limite interno, o sujeito precisa destruir a inocência para se sentir poderoso.
Enterrei o Praxedes naquele dia, mas a dúvida eu carrego até hoje: será que, junto com ele, não enterramos também a nossa piedade? A barbárie não começa com grandes guerras. Ela começa no quintal de casa, quando a violência é chamada de "brincadeira" e ninguém diz NÃO.
Que a dor da memória sirva, ao menos, para não deixarmos a consciência adormecer.
E nessa nostalgia, lembramos que vivemos tempos onde a pergunta de Rousseau, "O homem nasce bom e a sociedade o corrompe?" , parece ingênua diante da brutalidade que inunda nossas telas. Talvez Hobbes estivesse mais perto da ferida quando disse que "o homem é o lobo do homem", mas hoje, tragicamente, o homem decidiu ser o lobo daqueles que não têm presas para se defender. Isso é na verdade, o Colapso da Piedade: Quando a Barbárie se Disfarça de Entretenimento.
Assistimos, estupefatos, a atos de violência contra seres indefesos, animais, crianças, idosos, praticados não por necessidade de sobrevivência, mas por um tédio sádico, por uma busca desenfreada de sentir alguma coisa em meio à anestesia moral contemporânea.
A crueldade com o animal não é um "deslize". É um sintoma de uma estrutura psíquica que não formou o limite interno. Onde deveria haver a Lei (o "não farás", a empatia, o reconhecimento do Outro), existe apenas o Gozo Bruto. O sujeito perverso olha para a vulnerabilidade alheia não com compaixão, mas com desprezo. Ele precisa destruir o frágil para sustentar a ilusão da sua própria onipotência.
E aqui entra o questionamento nevrálgico: Onde falhamos na educação? Antigamente, dizia-se que a "chinela cantava". Hoje, a pedagogia do afeto é essencial, mas parece que, em algum ponto, confundimos amor com falta de limites. Criamos uma geração de "imperadores mirins", jovens que nunca ouviram um "NÃO" dentro de casa. E a psique humana funciona de uma forma implacável: Se a Lei não vem pelo Amor (educação, família), ela virá pela Dor (sociedade, polícia, justiça).
Vemos agora o clamor por punições externas severas, cancelamentos, processos, perda de vistos internacionais. A sociedade tenta, desesperadamente, aplicar a "castração" que a família negligenciou. Os jovens que achavam que o mundo era o quintal das suas casa, onde podiam quebrar seus "brinquedos" vivos sem consequência, descobrem subitamente que o mundo tem fronteiras, leis e repúdio.
Mas a pergunta que ecoa é mais profunda: O aumento dessa visibilidade é apenas porque todos têm uma câmera na mão? Ou a nossa câmera serviu para revelar que a barbárie sempre esteve ali, à espreita, esperando o palco digital para se exibir? A tecnologia não criou o monstro, ela apenas lhe deu uma plateia. E o monstro, muitas vezes, é o vazio existencial de quem não foi ensinado a respeitar a vida em suas formas mais sagradas.
"Entre quem agride e quem protege, existe um abismo", diz a sabedoria psicanalítica. De um lado, a fraqueza travestida de violência. Do outro, a firme delicadeza de quem sabe que a verdadeira força reside em ser o guardião do inocente, e não o seu algoz.
A humanidade não se perdeu lá fora. Ela se perdeu na sala de estar, onde o silêncio dos pais consentiu com a primeira pedra atirada.
Até Breve.
J.L.I
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