A Imobilidade do Dogma na Era do "Eu"
"Stat Crux dum volvitur orbis"
A Cruz permanece imóvel enquanto o mundo gira.
Caro Leitor,
Esta divisa, cunhada pela Ordem dos Cartuxos (Ordo Cartusiensis), não é apenas um lema bonito; é um manifesto de sobrevivência. Fundada por São Bruno em 1084, a ordem surgiu em um cenário de caos absoluto: a Europa do século XI via um clero imerso em corrupção, simonia e disputas políticas brutais. O "mundo girava" em uma vertigem moral.
A resposta dos cartuxos não foi tentar reformar o mundo participando dele, mas criar um ponto de estabilidade radical. Eles entenderam que, para a Verdade sobreviver à liquidez do tempo, ela precisava ser "engessada", ou, melhor dizendo, ancorada. Daí o ditado histórico: "Cartusia nunquam reformata, quia nunquam deformata" (A Cartuxa nunca foi reformada, porque nunca foi deformada).
Hoje, a roda do mundo (volvitur orbis) gira ainda mais rápido, alimentada por um fenômeno psíquico: a Sombra. É a Sombra e o Conforto do Relativismo.
Sob a ótica psicanalítica, o ser humano flerta com o relativismo moral não por uma suposta "evolução", mas para dar vazão à sua sombra sem culpa. O relativismo é o habeas corpus do ego. Se os conceitos de certo e errado, construções sociais e teológicas, mudam conforme a conveniência, então a minha transgressão deixa de ser um erro e vira "estilo de vida". É confortável ajustar a régua moral para que nossos desejos caibam nela.
Esbarramos na natureza intrinsecamente rebelde do ser humano: a recusa em se ajustar. O ego detesta limites; ele não quer subir a montanha sagrada, ele quer que a montanha desça até o nível dele. A nossa Natureza Rebelde sempre buscando a "Customização" da Fé.
Podemos observar esse fenômeno comparativamente no cenário religioso atual. Em certas vertentes modernas, a dinâmica da fé muitas vezes cede a essa rebeldia. Se a pregação do pastor confronta o ego ou desagrada o ouvinte, a solução é simples: o fiel sai e funda sua própria igreja, ou procura outra que diga o que ele quer ouvir. Cria-se uma "verdade" sob medida, fragmentada e relativizada para o conforto do cliente. É a fé que gira junto com o mundo, validando a sombra em vez de iluminá-la.
É neste ponto que a estrutura da Igreja Católica, com toda a sua rigidez dogmática, se destaca não apenas teologicamente, mas esteticamente. O que torna o rito católico belo e solene é justamente a sua recusa em ser "customizável". A Igreja pode e deve adaptar sua linguagem pastoral (como fez no Concílio Vaticano II) para ser compreendida, mas ela não pode adaptar a Cruz.
A Beleza do Dogma é o Eixo do Mundo
Essa imobilidade não é um defeito; é a única âncora possível. O dogma funciona como o Axis Mundi (Eixo do Mundo), o ponto fixo que nos impede de chamar o abismo de luz.
Por fim, recorro à primeira lição fundamental do Direito: o ser humano precisa de freios.
A vida em sociedade só é possível porque existem as Leis dos Homens, que impõem limites à barbárie e contêm os impulsos destrutivos do indivíduo contra o coletivo. Sem esses freios legais, imperaria o caos. Da mesma forma, no âmbito espiritual e psíquico, o Dogma, ou a Lei de Deus, atua como o freio da alma.
Além da educação doméstica, é a estrutura da fé que oferece o limite necessário contra a nossa própria natureza rebelde. Assim como o Código Penal protege o corpo social, o mandamento protege a integridade do espírito. Em um mundo que gira vertiginosamente, tentando nos convencer de que tudo é permitido, a Cruz imóvel (Stat Crux) é o freio sagrado que nos impede de derrapar nas curvas da nossa própria sombra. Vale refletir...
Até breve...
J.L.I Soáres
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