quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?

Caro Leitor;

Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha memória e trouxe de volta o Praxedes.

Ele era um gatinho cinza, lindo, que apareceu no meu bairro na minha infância. Naquela época, a proteção animal não era uma pauta, não existiam as leis de hoje, e viajar com animais era quase impensável. Meus pais não deixaram levá-lo. Confiei que ele ficaria bem com a vizinhança.

Quando voltei do fim de semana, encontrei o Praxedes jogado sobre um monte de terra. Morto. O choque da visão foi terrível, mas a explicação que recebi foi o que realmente quebrou algo dentro de mim. Com uma naturalidade assustadora, me disseram: "Ah, os meninos brincaram de apedrejar."

Brincaram. A palavra "brincadeira" usada para descrever tortura e morte.

Lembro-me de pegar o corpinho dele, levá-lo para o quintal da minha casa e cavar a terra chorando. Enquanto o enterrava, eu via as marcas das pedradas no pelo cinza. Eu imaginava o terror, a dor, o desamparo dele diante daqueles "humanos" em formação.

Hoje, vendo as notícias se repetirem com outros rostos e outros "meninos", a pergunta me assombra: O ser humano nasce mau ou é a sociedade que nos corrompe? Onde falhamos na educação para que a destruição do outro seja vista como entretenimento?

Ferir um animal não é um erro, é um sintoma de colapso ético. É o "gozo na crueldade". Quando não há limite interno, o sujeito precisa destruir a inocência para se sentir poderoso.

Enterrei o Praxedes naquele dia, mas a dúvida eu carrego até hoje: será que, junto com ele, não enterramos também a nossa piedade? A barbárie não começa com grandes guerras. Ela começa no quintal de casa, quando a violência é chamada de "brincadeira" e ninguém diz NÃO.

Que a dor da memória sirva, ao menos, para não deixarmos a consciência adormecer.

E nessa nostalgia, lembramos que vivemos tempos onde a pergunta de Rousseau,  "O homem nasce bom e a sociedade o corrompe?" , parece ingênua diante da brutalidade que inunda nossas telas. Talvez Hobbes estivesse mais perto da ferida quando disse que "o homem é o lobo do homem", mas hoje, tragicamente, o homem decidiu ser o lobo daqueles que não têm presas para se defender. Isso é na verdade, o Colapso da Piedade: Quando a Barbárie se Disfarça de Entretenimento.

Assistimos, estupefatos, a atos de violência contra seres indefesos, animais, crianças, idosos, praticados não por necessidade de sobrevivência, mas por um tédio sádico, por uma busca desenfreada de sentir alguma coisa em meio à anestesia moral contemporânea.

A crueldade com o animal não é um "deslize". É um sintoma de uma estrutura psíquica que não formou o limite interno. Onde deveria haver a Lei (o "não farás", a empatia, o reconhecimento do Outro), existe apenas o Gozo Bruto. O sujeito perverso olha para a vulnerabilidade alheia não com compaixão, mas com desprezo. Ele precisa destruir o frágil para sustentar a ilusão da sua própria onipotência.

E aqui entra o questionamento nevrálgico: Onde falhamos na educação? Antigamente, dizia-se que a "chinela cantava". Hoje, a pedagogia do afeto é essencial, mas parece que, em algum ponto, confundimos amor com falta de limites. Criamos uma geração de "imperadores mirins", jovens que nunca ouviram um "NÃO" dentro de casa. E a psique humana funciona de uma forma implacável: Se a Lei não vem pelo Amor (educação, família), ela virá pela Dor (sociedade, polícia, justiça).

Vemos agora o clamor por punições externas severas, cancelamentos, processos, perda de vistos internacionais. A sociedade tenta, desesperadamente, aplicar a "castração" que a família negligenciou. Os jovens que achavam que o mundo era o quintal das suas casa, onde podiam quebrar seus "brinquedos" vivos sem consequência, descobrem subitamente que o mundo tem fronteiras, leis e repúdio.

Mas a pergunta que ecoa é mais profunda: O aumento dessa visibilidade é apenas porque todos têm uma câmera na mão? Ou a nossa câmera serviu para revelar que a barbárie sempre esteve ali, à espreita, esperando o palco digital para se exibir? A tecnologia não criou o monstro, ela apenas lhe deu uma plateia. E o monstro, muitas vezes, é o vazio existencial de quem não foi ensinado a respeitar a vida em suas formas mais sagradas.

"Entre quem agride e quem protege, existe um abismo", diz a sabedoria psicanalítica. De um lado, a fraqueza travestida de violência. Do outro, a firme delicadeza de quem sabe que a verdadeira força reside em ser o guardião do inocente, e não o seu algoz.

A humanidade não se perdeu lá fora. Ela se perdeu na sala de estar, onde o silêncio dos pais consentiu com a primeira pedra atirada.

Até Breve.

J.L.I

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

DO "NÓS" AO "EU" DE NOVO:

 

A Dor de Voltar ao Sofá e a Ilusão de Quem Procura Gente Pronta

Quem não tem um móvel preferido na sua casa? Uma poltrona, uma cadeira confortável, um sofá. Aquele móvel que te acolhe durante todo o seu período de solitude, onde você aprende a ser feliz com a sua própria companhia. Mas por vezes, o silêncio desse móvel não soa como paz; soa como eco.

Dizem que projetamos no outro a salvação que não encontramos em nós mesmos. A tal da idealização. Mas, às vezes, não é sobre salvar a si mesmo. Às vezes já estávamos salvos. Já estávamos inteiros. O desejo nem sempre é de completude, mas de transbordo. Às vezes é o desejo genuíno de ter alguém ao lado para partilhar a caminhada, não para nos carregar no colo.

Entramos nos relacionamentos com a guarda baixa, despidos de armaduras, acreditando na promessa implícita da parceria. Acreditamos que, finalmente, encontramos alguém que entende que o amor é uma construção diária, um canteiro de obras onde os dois carregam tijolos.

Mas a realidade, dura e crua, é que o mundo está cheio de pessoas que querem obras prontas.

Existe uma geração de homens e mulheres que buscam o parceiro "chave na mão". Querem alguém que já venha com a estabilidade inabalável, com a alegria constante, com a perfeição estética e emocional. E, ao primeiro sinal de poeira, de vulnerabilidade ou de necessidade de ajuste, eles pulam do barco. Eles não querem construir; eles querem consumir.

E é aí que nos perdemos. Na tentativa desesperada de fazer dar certo, Nos mutilamos. Cortamos pedaços da nossa personalidade, silenciamos nossas dores, escondemos nossa intensidade, tudo para caber na caixa estreita da expectativa do outro. 

Deixamos de ser quem somos para tentar ser o que o outro "suporta".

E o resultado? O outro vai embora do mesmo jeito, porque quem não sabe lidar com a complexidade humana não fica com ninguém. E nós? Nós ficamos com o prejuízo de ter que nos remontar.

Por vezes nos vemos chorando não apenas pela perda de um "nós" que nunca existiu de fato, mas pela frustração da expectativa. Chegamos a pensar: "Dessa vez vai ser diferente. Dessa vez terei apoio. Dessa vez, não serei sozinho." A sensação é de voltar ao ponto zero. De olhar para o passado e pensar:

  "Eu estava bem sozinho, por que fui tentar?".

Mas, respirando fundo e olhando para o céu, acabamos por entender que não existe ponto zero quando há movimento de alma.

O retorno à solitude dói, mas ele é também um livramento. Deus, em sua infinita sabedoria, às vezes permite que caminhemos até a beira do abismo apenas para nos mostrar que não devemos pular. Se a mão que esperávamos segurar não permaneceu para nos apoiar, então essa mão nunca foi de uma parceria verdadeira, foi apenas de um passageiro.

Amar exige coragem. Mas exige ainda mais coragem admitir que o amor que oferecemos foi grande demais para quem tem a alma pequena.

Voltemos para o móvel preferido. Voltemos para a nossa própria companhia. Mas jamais voltemos vazios. Voltemos cheios da certeza de que nossa individualidade é sagrada e que, se for para ter alguém, que seja alguém que ame o cheiro de terra molhada da construção, ajude a consertar as janelas quebradas, e não apenas a vista da varanda pronta.

Até lá, sigamos com a nossa fé (para os que a tem). Porque se Deus tirou, é porque estava ocupando o espaço de algo verdadeiro que ainda está por vir...

E você, caro leitor,;

Olhe para quem está ao seu lado hoje: é alguém disposto a carregar tijolos e construir junto com você, ou é apenas alguém que quer visitar a obra pronta quando o sol brilha?

Até Breve

J.L.I Soáres


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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O JARDINEIRO VS. O MINERADOR:

 Por que insistimos na Falácia do Sofrimento Necessário?

Há uma frase repetida à exaustão em palestras motivacionais e posts de redes sociais: “O carvão só vira diamante porque suporta a pressão”. É a imagem perfeita do Minerador. Ela sugere, com uma crueldade velada, que se o indivíduo não estiver sendo esmagado pelas circunstâncias, ele não tem valor. Se não dói, não transforma.

Politicamente e socialmente, este é o discurso da “meritocracia da dor”: sofra agora, trabalhe enquanto eles dormem, abdique da vida, e um dia, talvez, você será recompensado com o brilho eterno.

Mas a natureza, em sua sabedoria silenciosa, nos mostra o contrário através do arquétipo do Jardineiro. Uma flor não precisa ser “esmagada” para florescer; ela precisa ser nutrida. O pássaro não planta a semente com esforço hercúleo; ele apenas a deixa cair, e a terra faz o resto (Wu Wei).

Muitos adoram a metáfora do diamante. Dizem que é preciso suportar pressões insuportáveis para ter valor. Mas é preciso recusar essa lógica mineradora e questionar: a vida precisa ser uma guerra constante para ser grandiosa?

Vamos olhar para a realidade nua e crua, despida dos filtros do Instagram. Pensemos no indivíduo que seguiu a cartilha do sofrimento à risca. Aquele que acordou religiosamente às 5h da manhã, que treinou seu corpo e mente até a exaustão, que abriu sua empresa e depositou nela cada gota de suor e sanidade. Ele suportou a pressão. Ele aceitou a "forja".

E, ainda assim, o negócio faliu. O projeto não vingou. As portas fecharam.

Onde está o diamante prometido? Se a pressão é a única criadora de valor, o que dizer de quem foi esmagado e sobrou apenas como pó? Existe uma crueldade imensa em dizer a essa pessoa que "faltou pressão" ou que ela "não aguentou o suficiente". Às vezes, a pressão não cria joias; ela apenas cria escombros. Que "porcaria de forja" é essa que, muitas vezes, não entrega o guerreiro prometido, mas apenas um ser humano exausto e quebrado?

É necessário questionar se esse esforço desmedido não é, muitas vezes, um desperdício de energia vital em uma direção que não pedia força, mas sim jeito, timing ou, simplesmente, um solo diferente.

Por que, então, essa narrativa cola tanto? Por que tantas pessoas compartilham frases sobre "aguentar firme" como se fossem mantras sagrados?

Aqui entra um viés psicanalítico interessante. Existe uma categoria de pessoas para quem o sofrimento não é um meio, mas um fim inconsciente. Para a psicanálise, há um gozo nesse lugar de vítima heroica. Ao repetir que "a vida é dura", "sem dor não há ganho", o sujeito se exime da responsabilidade de buscar a felicidade genuína, que muitas vezes dá mais trabalho e exige mais coragem do que a tristeza. O Sofrimento como Narcótico.

Essas frases funcionam como anestésicos. Elas validam a estagnação. Para alguns, a dor serve como impulso; mas para outros, serve como um coma induzido. É mais fácil dizer "estou sofrendo porque estou sendo forjado" do que admitir "estou sofrendo porque não sei sair desse ciclo, ou porque escolhi o caminho errado".

O discurso do diamante valida o masoquismo social. Ele permite que a pessoa se sinta nobre enquanto é triturada, evitando o confronto real com a sua própria fluidez e desejo.

Nietzsche diria que a dor nos forja, sim. Há verdade nisso. Mas Lao-Tsé, o sábio do Tao, nos lembra da água.

A floresta não cresce gritando. O diamante é lindo (e adorável), mas é, em última análise, uma pedra morta. Estática. Dura. Já a flor é frágil, não suporta pressão mecânica nenhuma, e ainda assim é viva. Ela se renova. Ela gera frutos.

Disseram-nos que “sem dor, sem ganho”. Essa é a mentira que contam para que aceitemos o insuportável em silêncio. Enquanto um Estoicismo mal compreendido (e "pop") prega aguentar a pressão de dentes cerrados, o Taoísmo ensina a ser como a água. A água não briga com a rocha; ela a contorna. E, com o tempo, é a água que molda o mundo, não a pedra.

Existe valor na resistência, claro. Mas existe um poder ainda maior na fluidez. Não queiramos ser apenas um diamante duro e inquebrável, isolado em sua perfeição fria.

Eu prefiro a correnteza: suave o suficiente para abraçar, forte o suficiente para afogar, se necessário. A fluidez não é fraqueza, é poder de adaptação.

Paremos de romantizar o peso. Aprendamos a arte do fluxo. Tenhamos a coragem de sermos férteis como a terra, onde as coisas florescem porque foram nutridas, e não porque foram esmagadas.

Que possamos olhar para o nosso esforço não como uma dívida de sangue a ser paga ao universo em troca de sucesso, mas como uma dança com a realidade. Às vezes, a melhor resposta à pressão não é endurecer, é escoar por entre as frestas e encontrar um novo caminho.

Até Breve

J.L.I Soáres


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

SE UM DIA FEZ SENTIDO COM CERTEZA FOI NORTE!

Por que desqualificamos a jornada só porque o destino mudou?

Caro leitor;   

 Existe um hábito cruel na mente humana: julgar o passado exclusivamente pelo resultado final. Se o casamento acabou em divórcio, dizemos que "fracassou". Se o curso universitário não virou carreira, dizemos que foi "tempo perdido". Se o projeto não deu lucro, chamamos de "erro". Mas, da janela do meu olhar, essa matemática é injusta e ingrata com a nossa própria biografia.

    A verdade que precisamos abraçar é: Se um dia você caminhou por aquela estrada, é porque, naquele momento exato, ela era o seu Norte.

    Imagine que você viveu cinco anos ao lado de alguém. Foram cinco anos de cafés da manhã, de viagens, de aprendizados sobre paciência, de descobertas sexuais, de apoio mútuo. Aí o relacionamento termina. A tendência imediata é pegar uma borracha preta e tentar apagar tudo, rotulando como "perda de tempo". Mas como pode ser perda se houve vida? 
    
    Desqualificar o passado porque ele não é eterno é uma forma de desonrar quem fomos. Aquela pessoa, aquele emprego ou aquele curso foram os mestres que a sua alma precisava naquela etapa. Eles cumpriram a função deles.

Tudo o que vivemos, tanto o doce quanto o amargo, compõe o mosaico de quem somos hoje.
A escolha "errada" te ensinou o que você não quer mais (e isso é valiosíssimo!).

O chefe difícil te ensinou resiliência ou te empurrou para empreender.
O amor que acabou te ensinou sobre seus limites e seus desejos.

    Precisamos ser gratos até pelos contrastes. Se hoje você tem clareza sobre o que é um amor saudável, é provável que, lá atrás, você tenha vivido o contraste de um amor que doeu. A dor foi a professora da cura. O "erro" foi o rascunho do acerto.

    A bússola da vida não aponta para um lugar fixo para sempre; ela aponta para onde precisamos ir para evoluir agora. Aceitar isso nos tira o peso do arrependimento. Você não errou o caminho. Você apenas chegou ao fim daquele trecho. E se aquele trecho te fez andar, te fez sentir e te fez amadurecer, então ele não foi um desvio. Ele foi, com toda a certeza, o Norte perfeito para a pessoa que você era. O Norte é Móvel...

Honre seus passos. Nenhum deles foi em vão.

Olhe para trás agora: o que você tem chamado de 'tempo perdido' que, na verdade, foi o alicerce invisível da pessoa forte que você se tornou hoje?


Até breve...

J.L.I Soáres


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A GOTA

e Eu;   

Cá estava, em minha insignificante existência ante aos mais elevados propósitos da vida humana, numa noite linda e após um dia tenso e com o clima do "famigerado final de ano". A data onde por, questão pessoal ou cultural nos vemos nos círculos sociais e interações que nem fazemos questão ou repudiamos ao longo do calendário gregoriano. Mas que, nesta data é imperioso, aos que gostam de cumprir protocolos. 

A noite estrelada e eu, em um diálogo de fuga, através da linguagem do silêncio, nos deparamos entre o vácuo dos ruídos externos, lá estava ela, de forma intermitente, consistente, a mostrar sua existência, e porque não dizer, persistente, no seu ping ...ping...e, confesso, linda melodia! Verdade, já prestou atenção Caro Leitor? Eu até compreendo que às vezes não é tão melodiosa a música do gotejar da água, mas, já observou essa sinfonia? 

É sério, não sou a pessoa mais "zen", na realidade, não sou nada "zen".

Mas eu me permiti ouvir com atenção o grito silencioso mas não mudo daquela gota que de forma consistente, repito, ao meu lado queria de todo modo, ainda que pela insistência, causando certa irritabilidade aos menos pacientes, que

"ALGO DE ERRADO NÃO ESTÁ CERTO".

Sempre que algo não está nos "conformes", seja na casa, na vida, ou na mente, o Universo encontra uma maneira de nos avisar, ele dá seu jeito, eu, a noite estrelada (confesso, nem tanto pois choveu), mas quero florear! Estávamos ali, com uma taça de um líquido que nos remete à um momento de conquista ou finalização de uma trajetória, com vitória, o que é de praxe, e nem é o último dia do ano.

E...Ela ali...com seu ping....ping....ping...ping...ping....ping....ping...ping.... ping...

Persistente igual a postura que os gurus de autodesenvolvimento pregam nas suas palestras, mas ela, no seu ritmo persistente, não me chamou atenção pela irritabilidade costumeira que seria o trivial, mas seu propósito naquele momento, entendi eu, a me mostrar que o vaso estava cheio, cheio de cansaço, emocional, mental, social e, para alguns, físico. E quando chegamos a este ponto, algo transborda: em apatia, isolamento, raiva, irritabilidade, risos e conversas intercorrentes em busca de uma validação que, pode até preencher inicialmente, mas no final, não vale de nada pois o vazio persiste apesar do tampão inserido ainda resta espaço para ser preenchido...

A Goteira que me fazia companhia a cada bebericada introspectiva, levou-me para uma viagem interna de questionamentos e a tecer analogias. Se está pingando, precisa de conserto, é como aqueles pensamentos que de forma insistente povoam nossa cabeça quando sabemos que devemos fazer algo mas procrastinamos. Costumamos represar os sentimentos, inflamando nosso sistema interno com cada contraste que vivenciamos, até que, aos poucos, nos percebemos "vazando", para os mais contidos, ou para os mais intensos, personificando "tsunamis".   

E é justamente aí que mora a dissonância. O mundo lá fora grita por festas e produtividade, mas esse transbordar interno é, na verdade, um pedido de socorro da psique. O Ego está exausto de estar no comando. Essa letargia que sentimos e tentamos combater com espumante e fogos de artifício nada mais é do que a sabedoria do Inconsciente assumindo o controle, como um disjuntor que desarma antes do colapso.

A Gota insistente estava me dizendo exatamente isso: não pathologize seu desejo de descanso. A natureza não floresce o ano inteiro; ela respeita seus invernos. Por que nós, em nossa complexidade humana (e arrogância de acharmos que somos máquinas), deveríamos ser diferentes?

Talvez o "conserto" que a Gota sugeria não fosse uma ação externa, mas uma permissão interna: a permissão para a hibernação sagrada, para ser crisálida enquanto o mundo exige borboletas. 

Não fugindo do clichê da listinha de tarefas das ações, conquistas e derrotas ao longo do ano, nosso implacável Kronos nos chama a atenção a apenas um sinal: Fizemos dele uma boa experiência de Kairós? Quantas fissuras ainda restam em nosso Universo interior, em nossa psique que levaremos como legado do Kronos passado? Não será intempestivo se nos colocarmos a olhar para dentro, limpar e tratar as feridas do atrapalho do tempo somente cronometrado, ou queres, caríssimo leitor, iniciar uma nova contagem com "rachaduras e vazamentos" persistentes e quiçá, até mofos nas paredes da sua psique, uma hora ou outra, a depender do grau de suportabilidade individual, a gota será contínua até se transformar em "tsunami"...


Até breve...

J.L.I Soáres

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domingo, 21 de dezembro de 2025

O CRIME INVISÍVEL COMETIDO PELA LÍNGUA

Somos senhores do nosso silêncio, mas eternos escravos das nossas palavras.

Caríssimo Leitor;

Subestimamos o poder da fala. Tratamos as palavras como se fossem apenas ar vibrando nas cordas vocais, sons que se dissipam no vento sem deixar rastro. Mas, da janela do meu olhar, vejo que as palavras têm densidade, têm peso e, infelizmente, têm a capacidade letal de aniquilar.

Palavras matam. 

Elas não perfuram a carne, mas dilaceram a autoestima. Não quebram ossos, mas fraturam sonhos. Não interrompem o batimento cardíaco, mas podem paralisar a vontade de viver de alguém.


Não foi por acaso que Jesus, o maior psicólogo que já pisou na Terra, elevou a barra da moralidade no Sermão da Montanha. Ele sabia que a violência física é apenas a consequência final de uma violência verbal e mental que começou muito antes. Ele disse: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás... Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca (tolo, inútil), será réu diante do sinédrio." (Mateus 5:21-22).

Ao equiparar o insulto ao assassinato, o Mestre nos ensina uma verdade aterrorizante: quando lançamos uma palavra de ódio, desprezo ou maldição sobre alguém, estamos cometendo um homicídio na dimensão do espírito. A língua pode ser um instrumento de bênção ou uma arma de guerra; a escolha do gatilho é sempre nossa.


A filosofia antiga nos entrega uma máxima que deveria estar tatuada na consciência de todos:

  "O homem é senhor do que cala e escravo do que fala." 

Enquanto a palavra está na sua boca, você é o Rei. Você tem o controle absoluto, a soberania de decidir se ela deve ou não nascer. Mas, no exato segundo em que ela cruza a fronteira dos dentes, a hierarquia se inverte. A palavra dita ganha vida própria. Você não pode mais recolhê-la. Você se torna refém das consequências.

O silêncio é uma arquitetura de proteção. Quem domina a arte de calar no momento da fúria preserva sua liberdade. Quem solta a língua sem filtro assina, muitas vezes, a própria sentença de solidão.

O Exorcismo da Tagarela (Minha Mea Culpa)

E aqui, faço uma pausa dramática para uma autocrítica ácida, antes que pensem que escrevo do alto de um monastério de votos de silêncio. A ironia não me escapa: logo eu, que adoro uma conversa, que tenho a língua solta e o pensamento rápido, estou aqui pregando a contenção. Para mim, a escrita nada mais é do que um sofisticado exorcismo. Eu escrevo justamente para dar vazão ao excesso, para não morrer engasgada com as minhas próprias opiniões e, principalmente, para não matar ninguém com elas na vida real. Sou uma "Senhora do Silêncio" em treinamento, mas confesso que, volta e meia, acordo com a tornozeleira de escrava da própria fala. Escrevo para me curar da minha própria verborragia. Afinal, se a palavra é prata e o silêncio é ouro, eu ainda estou tentando parar de gastar toda a minha prata à toa.


Feita a confissão, volto ao alerta: precisamos fazer uma necrópsia do nosso vocabulário diário. Estamos usando nossa voz (ou nossa escrita) para dar vida ou para espalhar pequenas doses de veneno? Que tenhamos a sabedoria de entender que a boca fala do que o coração está cheio. Se as palavras matam, é porque algo já morreu dentro de quem as profere.

Lembre-se da última vez que você se arrependeu de algo que disse. O silêncio, naquele momento, teria te mantido Rei/Rainha ou você, assim como eu, às vezes, preferiu se tornar escravo do seu impulso?

Reflitamos...

Até breve...

J.L.I Soáres


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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

A ARQUITETURA DA ILUSÃO:

O crime invisível cometido pela língua Por que gritamos nossas certezas?

Caro leitor;

Friedrich Nietzsche, em sua cirúrgica obra Humano, Demasiado Humano, nos deixou um alerta que ecoa como um diagnóstico psíquico:

"A intensidade de uma crença não garante sua verdade, apenas revela a força psicológica ou afetiva de quem acredita."

Essa frase desmonta um dos maiores refúgios da humanidade: a ideia de que ter "fé inabalável" em algo torna esse algo real. Mas, se olharmos através da lente da psicanálise, descobrimos que o excesso de certeza é frequentemente um sintoma, não uma virtude.

Você já notou que as verdades mais óbvias são silenciosas? A gravidade não precisa de militância para nos manter no chão. O sol não exige devotos para nascer todas as manhãs. A realidade simplesmente é.

Apenas as mentiras confortáveis precisam de exércitos, de defesas acaloradas e de gritos para se sustentarem em pé.

Na psicologia, chamamos isso de Formação Reativa. Quando a psique não consegue lidar com a angústia da dúvida ou do vazio, ela constrói uma crença rígida e barulhenta para servir de muro de contenção. O fanático não grita para convencer o outro; ele grita para silenciar a própria dúvida que sussurra no fundo de sua mente.

A intensidade com que defendemos uma "verdade" é, muitas vezes, proporcional ao medo que temos de que ela desmorone.

Mas por que precisamos tanto dessas certezas? Porque o ser humano tem horror ao caos. Temos pânico do "não-sentido".

Para não olhar para o abismo da indiferença do universo, projetamos nossos desejos na tela da realidade. É o mecanismo da Ilusão: moldamos o mundo não como ele é, mas como precisamos que ele seja para não sofrer.

Isso é, em última instância, a recusa da Castração. É a insistência infantil em acreditar que o universo gira em torno do nosso umbigo ou das nossas dores. Chamamos isso de "Fé", "Destino" ou "Conexão", mas, muitas vezes, não passa de uma alucinação afetiva.

Estamos apenas vestindo o acaso com as roupas dos nossos desejos.

Não devemos confundir convicção com verdade. Um homem em um manicômio pode ter a certeza absoluta de que é Napoleão Bonaparte. A intensidade da crença dele é inabalável, talvez até maior do que a sua certeza sobre quem você é. Isso torna o delírio dele real? Não. Apenas torna a tragédia dele mais profunda.

A fé inquebrantável diz muito sobre a psicologia do crente e quase nada sobre a realidade dos fatos. Muitas vezes, a sua "certeza" é apenas a cicatriz de um trauma que você se recusa a curar. É a armadura que você veste para não sentir a pele exposta da incerteza.

Amadurecer é ter a coragem de separar o Fato do Afeto.

É olhar para uma situação e aceitá-la em sua crueza, despida das fantasias que nossa criança interior criou para se sentir segura. A verdade costuma ser fria, indiferente e seca. Mas ela tem uma vantagem única sobre todas as ilusões quentinhas: ela liberta.

A ilusão nos acolhe, mas nos aprisiona numa infância eterna, dependentes de mentiras que nos contam para dormir.

A pergunta que deixo para você hoje não é o que você acredita, mas por que você precisa acreditar com tanto desespero. Você prefere o conforto do sonâmbulo ou a solidão da autonomia?

A lucidez é um caminho sem volta, mas é o único caminho que leva à posse de si mesmo.

Até breve.

J.L.I Soáres

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Propósito

ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?

Caro Leitor; Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha mem...