terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A CEGUEIRA DOS "DONOS DA VERDADE"

 QUANDO O EGO CONFUNDE A JANELA COM A PAISAGEM

"A forma mais perigosa de cegueira é achar que a sua perspectiva é a única realidade." (Nietzsche). Um ensaio sobre o narcisismo intelectual e a morte da empatia.

Caro Leitor;

Friedrich Nietzsche, com seu martelo filosófico, destruiu muitas ilusões. Mas talvez nenhuma frase sua seja tão urgente para o século XXI quanto esta: 

"A forma mais perigosa de cegueira é achar que a sua perspectiva é a única realidade."

Vivemos na Era das Bolhas. O algoritmo nos alimenta apenas com o que gostamos, os amigos concordam com o que pensamos e, lentamente, construímos um Bunker de Certezas. Dentro dele, nos sentimos seguros, inteligentes e "do lado certo da história".

O problema? Do lado de fora, a realidade é vasta, caótica e contraditória. E quem se recusa a ver isso não é um "homem de convicções"; é um cego voluntário.

Existe o axioma: "O mapa não é o território". A sua percepção (o mapa) é apenas uma representação interna da realidade, filtrada por seus traumas, sua cultura, sua religião e suas neuroses. A realidade (o território) é o que existe de fato, independente do que você acha dela.

O "perigo" que Nietzsche aponta reside na confusão entre os dois. Quando acho que o meu mapa é o único território possível, torno-me incapaz de aprender. O outro deixa de ser uma fonte de conhecimento e vira uma ameaça a ser eliminada.

Sócrates dizia "só sei que nada sei". O tolo diz "eu sei de tudo". A fixação na própria perspectiva é um mecanismo de defesa do Ego. Admitir que posso estar errado, ou que a verdade do outro também é válida, exige uma humildade insuportável para o narcisista.

É mais fácil rotular o outro de "louco", "herege" ou "ignorante" do que admitir que a vida é um prisma. Eu vejo o azul. Você vê o vermelho. A realidade é violeta. Mas, se eu me recuso a validar o seu vermelho, jamais entenderei a complexidade da cor real.

É aqui que entra a proposta da minha série literária, "Da Janela do Meu Olhar". O título não é acidental. Eu reconheço que olho "da minha janela". Tenho meus vidros, minhas cortinas, meu ângulo.

A sabedoria não está em quebrar a janela dos outros, mas em convidar: "Venha ver daqui. Agora, deixe-me ver daí." A construção de uma psique saudável, o que chamo de Cartografia do Ser, depende da nossa capacidade de transitar entre perspectivas.

Quem só olha de uma janela vê uma imagem estática. Quem transita, vê um filme. Quem integra, vê um Mosaico.

Nietzsche propunha o Perspectivismo: a ideia de que não existem fatos eternos, apenas interpretações. Isso não significa que "tudo vale" (relativismo barato), mas que a verdade é multifacetada.

Para curar essa cegueira perigosa, precisamos praticar o exercício mais difícil da existência humana: a Escuta Ativa. Escutar não para responder, não para refutar, não para vencer o debate. Mas escutar para ver a realidade através dos olhos do outro.

Isso exige matar o "Pequeno Ditador" que vive em nós. Aquele que quer moldar o mundo à sua imagem e semelhança.

Se tudo o que você vê no mundo concorda com você, você não está olhando para o mundo; você está olhando para um espelho. E narciso, como sabemos, morre afogado na própria imagem.

A verdadeira lucidez dói. Ela nos obriga a conviver com o paradoxo, com a dúvida e com a complexidade. Mas é somente fora da caverna das nossas certezas que a vida acontece de verdade.

Não sejamos cego pela nossa própria luz. O mundo é muito maior do que a nossa janela permite ver!

"DA JANELA DO SEU OLHAR"


Qual foi a última vez que você mudou de opinião sobre um assunto importante apenas por escutar a perspectiva de outra pessoa?


Você convive com ideias contrárias às suas, ou cercou-se de pessoas que são apenas "ecos" da sua voz?


O que te assusta mais: descobrir que você estava errado ou descobrir que não existe uma única verdade absoluta?


Até breve...

J.L.I Soáres

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domingo, 8 de fevereiro de 2026

O DIVÃ E O ALTAR

A INFANTILIZAÇÃO DA FÉ E O ADOECIMENTO DO CLERO

Por que confundimos o Tribunal da Misericórdia com colo paterno e como o nosso narcisismo está levando sacerdotes ao burnout.

Caro Leitor;

Ao frequentarmos qualquer paróquia minimamente ativa, presenciaremos a fenomenologia da fila da confissão: dezenas de pessoas aguardando, um silêncio tenso e, lá dentro, um sacerdote que, hora após hora, absorve a miséria humana. Mas há algo de errado nessa equação. Não com a quantidade de pecados, a miséria humana é constante, mas com a natureza da demanda.


Tenho observado, tanto sob a ótica da Psique quanto da Teologia Moral, que transformamos o confessionário em um "Pronto-Socorro Emocional". O fiel moderno não entra ali apenas para acusar seus delitos contra a Lei Divina; ele entra buscando validação, alívio psíquico e, sobretudo, "colo". E é exatamente aqui que reside o perigo: ao confundir o Altar com o Divã, infantilizamos a nossa fé e adoecemos os nossos padres.

Freud explicaria esse fenômeno através do conceito de Transferência. Em uma sociedade de orfandade paterna (real ou simbólica), projetamos na figura do sacerdote a imagem do "Pai Herói" ou do "Pai Acolhedor" que nunca tivemos. O penitente infantilizado não quer um Juiz que o absolva (função ontológica do padre na Confissão); ele quer um Pai que diga: "Está tudo bem, a culpa não foi sua, o mundo é que foi mau com você". Isso não é busca por santidade; é busca por regressão uterina. Queremos voltar a ser crianças irresponsáveis no colo de alguém que representa Deus. 

Mas a Confissão é o Sacramento da maturidade. 

É o local onde você diz: "Eu fiz. Eu sabia. Eu errei. Eu assumo." Quando usamos o padre para validar nossas neuroses, estamos recusando o crescimento. O filósofo Byung-Chul Han descreve a "Sociedade do Cansaço", onde todos somos exploradores de nós mesmos. 

Mas o que dizer do clero?

O sacerdote é um homem que entregou sua vida para ser Alter Christus (Outro Cristo). Sua função primordial é salvar almas, consagrar a Eucaristia e perdoar pecados mortais. No entanto, nós o transformamos em um "terapeuta pro bono". Jogamos sobre ele fofocas paroquiais, angústias matrimoniais que deveriam ser tratadas em terapia de casal, e escrúpulos obsessivos que exigem medicação, não absolvição. O resultado? Sacerdotes exaustos, deprimidos e em burnout. Não porque "trabalham demais" para Deus, mas porque são drenados por demandas humanas que não lhes competem.

Exigimos que eles sejam psicólogos, assistentes sociais e pais substitutos, esquecendo que eles já têm o fardo mais pesado do mundo: a responsabilidade pelas nossas almas diante de Deus. Para estancar essa sangria, precisamos desenhar uma linha clara, fundamentada na Teologia e no bom senso:

Pecado (Matéria de Confissão): É uma escolha livre e consciente de romper com Deus. É um ato de vontade. Requer absolvição.

Angústia/Neurose (Matéria de Terapia): É um sentimento involuntário, um medo, uma tristeza ou uma ansiedade. Não é pecado "sentir" coisas ruins. Requer tratamento, escuta e elaboração.

Praticamos a "Fé Bumerangue" e nos tornamos "Penitentes iô-iô"

O confessionário trata a morte da alma. O consultório trata a dor da psique. Ir ao padre para curar ansiedade é como ir ao cardiologista para curar uma cárie. Você está no lugar errado, pedindo a cura errada, para o profissional errado. Em meus escritos e reflexões, muitas vezes sob a ótica da série "Da Janela do Meu Olhar", observo um subproduto tóxico dessa confusão: o vício na absolvição sem a virtude da contrição. Muitos fiéis vivem o que chamo de "Fé Bumerangue" (ou o fenômeno dos penitentes iô-iô): pecam durante a semana com a tranquilidade presunçosa de quem "zera o jogo" no domingo. Cria-se um ciclo vicioso onde o confessionário deixa de ser um local de conversão (metanoia) e vira apenas um gestor de culpa.

Existe uma armadilha piedosa usada para justificar essa falta de combate: "Eu me confesso toda semana porque sou pequeno, sou miserável e dependo totalmente de Deus." Soa bonito, soa humilde. Mas, muitas vezes, é apenas preguiça espiritual (acídia) disfarçada de piedade. Santo Agostinho, em suas Confissões, foi cirúrgico ao diagnosticar isso. Ele nos ensina que o problema do pecador não é apenas a ignorância, mas a vontade desordenada. Deus não nos dá a Graça para continuarmos rastejando na lama da "pequenez"; Ele nos dá a Graça para nos levantarmos.

A verdadeira humildade não é apenas dizer "eu não consigo"; é dizer "porque Deus está comigo, eu vou lutar para conseguir". A Teologia Clássica chama isso de Virtude da Temperança (o autodomínio).
Pecar contando com o perdão futuro não é confiança na misericórdia; é Pecado de Presunção. É tratar o Sangue de Cristo como detergente barato, ignorando o requisito básico da absolvição: o Firme Propósito de Emenda.

Enquanto usarmos o padre como muleta para nos esquivarmos do esforço real de mudança, nós não estaremos sendo "pequenos diante de Deus"; estaremos sendo infantis diante da vida. O confessionário é lugar de ressurreição, não de manutenção de cadáveres. Ser um fiel adulto significa entender que o padre não é uma muleta. Ele é um dispensador da Graça. Amar o sacerdócio não é apenas beijar a mão do padre ou dar presentes no Natal. Amar o sacerdócio hoje, neste século de narcisismo e carência, é ter a hombridade (e a feminilidade) de poupar o padre das nossas infantilidades.

A regra é simples: Se precisamos de 50 minutos para entender por que sentimos e o que sentimos: paguemos um psicólogo. Se precisamos de 3 minutos para confessar que matamos a Graça de Deus em nossa alma e queremos ressuscitá-la: busquemos um padre.

A fila da confissão diminuiria, a saúde dos padres melhoraria e, paradoxalmente, a nossa santidade aumentaria. Porque santo não é aquele que chora no colo do pai; é aquele que carrega a própria cruz logo atrás Dele. Reflitamos.

E "Da Janela do seu Olhar" , caro leitor:

Você busca a Confissão para ser perdoado (ressuscitar a alma) ou apenas para se sentir aliviado (acalmar a ansiedade)?

Você tem a coragem de assumir seus erros sem vitimismo, ou ainda procura um "pai" para validar suas desculpas?

Até Breve... 

J.L.I Soáres

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

"STAT CRUX"

 A Imobilidade do Dogma na Era do "Eu"

"Stat Crux dum volvitur orbis" 

A Cruz permanece imóvel enquanto o mundo gira.

Caro Leitor,

Esta divisa, cunhada pela Ordem dos Cartuxos (Ordo Cartusiensis), não é apenas um lema bonito; é um manifesto de sobrevivência. Fundada por São Bruno em 1084, a ordem surgiu em um cenário de caos absoluto: a Europa do século XI via um clero imerso em corrupção, simonia e disputas políticas brutais. O "mundo girava" em uma vertigem moral.

A resposta dos cartuxos não foi tentar reformar o mundo participando dele, mas criar um ponto de estabilidade radical. Eles entenderam que, para a Verdade sobreviver à liquidez do tempo, ela precisava ser "engessada", ou, melhor dizendo, ancorada. Daí o ditado histórico: "Cartusia nunquam reformata, quia nunquam deformata" (A Cartuxa nunca foi reformada, porque nunca foi deformada).

Hoje, a roda do mundo (volvitur orbis) gira ainda mais rápido, alimentada por um fenômeno psíquico: a Sombra. É a Sombra e o Conforto do Relativismo.

Sob a ótica psicanalítica, o ser humano flerta com o relativismo moral não por uma suposta "evolução", mas para dar vazão à sua sombra sem culpa. O relativismo é o habeas corpus do ego. Se os conceitos de certo e errado, construções sociais e teológicas, mudam conforme a conveniência, então a minha transgressão deixa de ser um erro e vira "estilo de vida". É confortável ajustar a régua moral para que nossos desejos caibam nela.

Esbarramos na natureza intrinsecamente rebelde do ser humano: a recusa em se ajustar. O ego detesta limites; ele não quer subir a montanha sagrada, ele quer que a montanha desça até o nível dele. A nossa Natureza Rebelde sempre buscando a "Customização" da Fé.

Podemos observar esse fenômeno comparativamente no cenário religioso atual. Em certas vertentes modernas, a dinâmica da fé muitas vezes cede a essa rebeldia. Se a pregação do pastor confronta o ego ou desagrada o ouvinte, a solução é simples: o fiel sai e funda sua própria igreja, ou procura outra que diga o que ele quer ouvir. Cria-se uma "verdade" sob medida, fragmentada e relativizada para o conforto do cliente. É a fé que gira junto com o mundo, validando a sombra em vez de iluminá-la.

É neste ponto que a estrutura da Igreja Católica, com toda a sua rigidez dogmática, se destaca não apenas teologicamente, mas esteticamente. O que torna o rito católico belo e solene é justamente a sua recusa em ser "customizável". A Igreja pode e deve adaptar sua linguagem pastoral (como fez no Concílio Vaticano II) para ser compreendida, mas ela não pode adaptar a Cruz. 

A Beleza do Dogma é o Eixo do Mundo

Essa imobilidade não é um defeito; é a única âncora possível. O dogma funciona como o Axis Mundi (Eixo do Mundo), o ponto fixo que nos impede de chamar o abismo de luz.

Por fim, recorro à primeira lição fundamental do Direito: o ser humano precisa de freios.

A vida em sociedade só é possível porque existem as Leis dos Homens, que impõem limites à barbárie e contêm os impulsos destrutivos do indivíduo contra o coletivo. Sem esses freios legais, imperaria o caos. Da mesma forma, no âmbito espiritual e psíquico, o Dogma, ou a Lei de Deus, atua como o freio da alma.

Além da educação doméstica, é a estrutura da fé que oferece o limite necessário contra a nossa própria natureza rebelde. Assim como o Código Penal protege o corpo social, o mandamento protege a integridade do espírito. Em um mundo que gira vertiginosamente, tentando nos convencer de que tudo é permitido, a Cruz imóvel (Stat Crux) é o freio sagrado que nos impede de derrapar nas curvas da nossa própria sombra. Vale refletir...

Até breve...

J.L.I Soáres

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?

Caro Leitor;

Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha memória e trouxe de volta o Praxedes.

Ele era um gatinho cinza, lindo, que apareceu no meu bairro na minha infância. Naquela época, a proteção animal não era uma pauta, não existiam as leis de hoje, e viajar com animais era quase impensável. Meus pais não deixaram levá-lo. Confiei que ele ficaria bem com a vizinhança.

Quando voltei do fim de semana, encontrei o Praxedes jogado sobre um monte de terra. Morto. O choque da visão foi terrível, mas a explicação que recebi foi o que realmente quebrou algo dentro de mim. Com uma naturalidade assustadora, me disseram: "Ah, os meninos brincaram de apedrejar."

Brincaram. A palavra "brincadeira" usada para descrever tortura e morte.

Lembro-me de pegar o corpinho dele, levá-lo para o quintal da minha casa e cavar a terra chorando. Enquanto o enterrava, eu via as marcas das pedradas no pelo cinza. Eu imaginava o terror, a dor, o desamparo dele diante daqueles "humanos" em formação.

Hoje, vendo as notícias se repetirem com outros rostos e outros "meninos", a pergunta me assombra: O ser humano nasce mau ou é a sociedade que nos corrompe? Onde falhamos na educação para que a destruição do outro seja vista como entretenimento?

Ferir um animal não é um erro, é um sintoma de colapso ético. É o "gozo na crueldade". Quando não há limite interno, o sujeito precisa destruir a inocência para se sentir poderoso.

Enterrei o Praxedes naquele dia, mas a dúvida eu carrego até hoje: será que, junto com ele, não enterramos também a nossa piedade? A barbárie não começa com grandes guerras. Ela começa no quintal de casa, quando a violência é chamada de "brincadeira" e ninguém diz NÃO.

Que a dor da memória sirva, ao menos, para não deixarmos a consciência adormecer.

E nessa nostalgia, lembramos que vivemos tempos onde a pergunta de Rousseau,  "O homem nasce bom e a sociedade o corrompe?" , parece ingênua diante da brutalidade que inunda nossas telas. Talvez Hobbes estivesse mais perto da ferida quando disse que "o homem é o lobo do homem", mas hoje, tragicamente, o homem decidiu ser o lobo daqueles que não têm presas para se defender. Isso é na verdade, o Colapso da Piedade: Quando a Barbárie se Disfarça de Entretenimento.

Assistimos, estupefatos, a atos de violência contra seres indefesos, animais, crianças, idosos, praticados não por necessidade de sobrevivência, mas por um tédio sádico, por uma busca desenfreada de sentir alguma coisa em meio à anestesia moral contemporânea.

A crueldade com o animal não é um "deslize". É um sintoma de uma estrutura psíquica que não formou o limite interno. Onde deveria haver a Lei (o "não farás", a empatia, o reconhecimento do Outro), existe apenas o Gozo Bruto. O sujeito perverso olha para a vulnerabilidade alheia não com compaixão, mas com desprezo. Ele precisa destruir o frágil para sustentar a ilusão da sua própria onipotência.

E aqui entra o questionamento nevrálgico: Onde falhamos na educação? Antigamente, dizia-se que a "chinela cantava". Hoje, a pedagogia do afeto é essencial, mas parece que, em algum ponto, confundimos amor com falta de limites. Criamos uma geração de "imperadores mirins", jovens que nunca ouviram um "NÃO" dentro de casa. E a psique humana funciona de uma forma implacável: Se a Lei não vem pelo Amor (educação, família), ela virá pela Dor (sociedade, polícia, justiça).

Vemos agora o clamor por punições externas severas, cancelamentos, processos, perda de vistos internacionais. A sociedade tenta, desesperadamente, aplicar a "castração" que a família negligenciou. Os jovens que achavam que o mundo era o quintal das suas casa, onde podiam quebrar seus "brinquedos" vivos sem consequência, descobrem subitamente que o mundo tem fronteiras, leis e repúdio.

Mas a pergunta que ecoa é mais profunda: O aumento dessa visibilidade é apenas porque todos têm uma câmera na mão? Ou a nossa câmera serviu para revelar que a barbárie sempre esteve ali, à espreita, esperando o palco digital para se exibir? A tecnologia não criou o monstro, ela apenas lhe deu uma plateia. E o monstro, muitas vezes, é o vazio existencial de quem não foi ensinado a respeitar a vida em suas formas mais sagradas.

"Entre quem agride e quem protege, existe um abismo", diz a sabedoria psicanalítica. De um lado, a fraqueza travestida de violência. Do outro, a firme delicadeza de quem sabe que a verdadeira força reside em ser o guardião do inocente, e não o seu algoz.

A humanidade não se perdeu lá fora. Ela se perdeu na sala de estar, onde o silêncio dos pais consentiu com a primeira pedra atirada.

Até Breve.

J.L.I

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

DO "NÓS" AO "EU" DE NOVO:

 

A Dor de Voltar ao Sofá e a Ilusão de Quem Procura Gente Pronta

Quem não tem um móvel preferido na sua casa? Uma poltrona, uma cadeira confortável, um sofá. Aquele móvel que te acolhe durante todo o seu período de solitude, onde você aprende a ser feliz com a sua própria companhia. Mas por vezes, o silêncio desse móvel não soa como paz; soa como eco.

Dizem que projetamos no outro a salvação que não encontramos em nós mesmos. A tal da idealização. Mas, às vezes, não é sobre salvar a si mesmo. Às vezes já estávamos salvos. Já estávamos inteiros. O desejo nem sempre é de completude, mas de transbordo. Às vezes é o desejo genuíno de ter alguém ao lado para partilhar a caminhada, não para nos carregar no colo.

Entramos nos relacionamentos com a guarda baixa, despidos de armaduras, acreditando na promessa implícita da parceria. Acreditamos que, finalmente, encontramos alguém que entende que o amor é uma construção diária, um canteiro de obras onde os dois carregam tijolos.

Mas a realidade, dura e crua, é que o mundo está cheio de pessoas que querem obras prontas.

Existe uma geração de homens e mulheres que buscam o parceiro "chave na mão". Querem alguém que já venha com a estabilidade inabalável, com a alegria constante, com a perfeição estética e emocional. E, ao primeiro sinal de poeira, de vulnerabilidade ou de necessidade de ajuste, eles pulam do barco. Eles não querem construir; eles querem consumir.

E é aí que nos perdemos. Na tentativa desesperada de fazer dar certo, Nos mutilamos. Cortamos pedaços da nossa personalidade, silenciamos nossas dores, escondemos nossa intensidade, tudo para caber na caixa estreita da expectativa do outro. 

Deixamos de ser quem somos para tentar ser o que o outro "suporta".

E o resultado? O outro vai embora do mesmo jeito, porque quem não sabe lidar com a complexidade humana não fica com ninguém. E nós? Nós ficamos com o prejuízo de ter que nos remontar.

Por vezes nos vemos chorando não apenas pela perda de um "nós" que nunca existiu de fato, mas pela frustração da expectativa. Chegamos a pensar: "Dessa vez vai ser diferente. Dessa vez terei apoio. Dessa vez, não serei sozinho." A sensação é de voltar ao ponto zero. De olhar para o passado e pensar:

  "Eu estava bem sozinho, por que fui tentar?".

Mas, respirando fundo e olhando para o céu, acabamos por entender que não existe ponto zero quando há movimento de alma.

O retorno à solitude dói, mas ele é também um livramento. Deus, em sua infinita sabedoria, às vezes permite que caminhemos até a beira do abismo apenas para nos mostrar que não devemos pular. Se a mão que esperávamos segurar não permaneceu para nos apoiar, então essa mão nunca foi de uma parceria verdadeira, foi apenas de um passageiro.

Amar exige coragem. Mas exige ainda mais coragem admitir que o amor que oferecemos foi grande demais para quem tem a alma pequena.

Voltemos para o móvel preferido. Voltemos para a nossa própria companhia. Mas jamais voltemos vazios. Voltemos cheios da certeza de que nossa individualidade é sagrada e que, se for para ter alguém, que seja alguém que ame o cheiro de terra molhada da construção, ajude a consertar as janelas quebradas, e não apenas a vista da varanda pronta.

Até lá, sigamos com a nossa fé (para os que a tem). Porque se Deus tirou, é porque estava ocupando o espaço de algo verdadeiro que ainda está por vir...

E você, caro leitor,;

Olhe para quem está ao seu lado hoje: é alguém disposto a carregar tijolos e construir junto com você, ou é apenas alguém que quer visitar a obra pronta quando o sol brilha?

Até Breve

J.L.I Soáres


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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O JARDINEIRO VS. O MINERADOR:

 Por que insistimos na Falácia do Sofrimento Necessário?

Há uma frase repetida à exaustão em palestras motivacionais e posts de redes sociais: “O carvão só vira diamante porque suporta a pressão”. É a imagem perfeita do Minerador. Ela sugere, com uma crueldade velada, que se o indivíduo não estiver sendo esmagado pelas circunstâncias, ele não tem valor. Se não dói, não transforma.

Politicamente e socialmente, este é o discurso da “meritocracia da dor”: sofra agora, trabalhe enquanto eles dormem, abdique da vida, e um dia, talvez, você será recompensado com o brilho eterno.

Mas a natureza, em sua sabedoria silenciosa, nos mostra o contrário através do arquétipo do Jardineiro. Uma flor não precisa ser “esmagada” para florescer; ela precisa ser nutrida. O pássaro não planta a semente com esforço hercúleo; ele apenas a deixa cair, e a terra faz o resto (Wu Wei).

Muitos adoram a metáfora do diamante. Dizem que é preciso suportar pressões insuportáveis para ter valor. Mas é preciso recusar essa lógica mineradora e questionar: a vida precisa ser uma guerra constante para ser grandiosa?

Vamos olhar para a realidade nua e crua, despida dos filtros do Instagram. Pensemos no indivíduo que seguiu a cartilha do sofrimento à risca. Aquele que acordou religiosamente às 5h da manhã, que treinou seu corpo e mente até a exaustão, que abriu sua empresa e depositou nela cada gota de suor e sanidade. Ele suportou a pressão. Ele aceitou a "forja".

E, ainda assim, o negócio faliu. O projeto não vingou. As portas fecharam.

Onde está o diamante prometido? Se a pressão é a única criadora de valor, o que dizer de quem foi esmagado e sobrou apenas como pó? Existe uma crueldade imensa em dizer a essa pessoa que "faltou pressão" ou que ela "não aguentou o suficiente". Às vezes, a pressão não cria joias; ela apenas cria escombros. Que "porcaria de forja" é essa que, muitas vezes, não entrega o guerreiro prometido, mas apenas um ser humano exausto e quebrado?

É necessário questionar se esse esforço desmedido não é, muitas vezes, um desperdício de energia vital em uma direção que não pedia força, mas sim jeito, timing ou, simplesmente, um solo diferente.

Por que, então, essa narrativa cola tanto? Por que tantas pessoas compartilham frases sobre "aguentar firme" como se fossem mantras sagrados?

Aqui entra um viés psicanalítico interessante. Existe uma categoria de pessoas para quem o sofrimento não é um meio, mas um fim inconsciente. Para a psicanálise, há um gozo nesse lugar de vítima heroica. Ao repetir que "a vida é dura", "sem dor não há ganho", o sujeito se exime da responsabilidade de buscar a felicidade genuína, que muitas vezes dá mais trabalho e exige mais coragem do que a tristeza. O Sofrimento como Narcótico.

Essas frases funcionam como anestésicos. Elas validam a estagnação. Para alguns, a dor serve como impulso; mas para outros, serve como um coma induzido. É mais fácil dizer "estou sofrendo porque estou sendo forjado" do que admitir "estou sofrendo porque não sei sair desse ciclo, ou porque escolhi o caminho errado".

O discurso do diamante valida o masoquismo social. Ele permite que a pessoa se sinta nobre enquanto é triturada, evitando o confronto real com a sua própria fluidez e desejo.

Nietzsche diria que a dor nos forja, sim. Há verdade nisso. Mas Lao-Tsé, o sábio do Tao, nos lembra da água.

A floresta não cresce gritando. O diamante é lindo (e adorável), mas é, em última análise, uma pedra morta. Estática. Dura. Já a flor é frágil, não suporta pressão mecânica nenhuma, e ainda assim é viva. Ela se renova. Ela gera frutos.

Disseram-nos que “sem dor, sem ganho”. Essa é a mentira que contam para que aceitemos o insuportável em silêncio. Enquanto um Estoicismo mal compreendido (e "pop") prega aguentar a pressão de dentes cerrados, o Taoísmo ensina a ser como a água. A água não briga com a rocha; ela a contorna. E, com o tempo, é a água que molda o mundo, não a pedra.

Existe valor na resistência, claro. Mas existe um poder ainda maior na fluidez. Não queiramos ser apenas um diamante duro e inquebrável, isolado em sua perfeição fria.

Eu prefiro a correnteza: suave o suficiente para abraçar, forte o suficiente para afogar, se necessário. A fluidez não é fraqueza, é poder de adaptação.

Paremos de romantizar o peso. Aprendamos a arte do fluxo. Tenhamos a coragem de sermos férteis como a terra, onde as coisas florescem porque foram nutridas, e não porque foram esmagadas.

Que possamos olhar para o nosso esforço não como uma dívida de sangue a ser paga ao universo em troca de sucesso, mas como uma dança com a realidade. Às vezes, a melhor resposta à pressão não é endurecer, é escoar por entre as frestas e encontrar um novo caminho.

Até Breve

J.L.I Soáres


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

SE UM DIA FEZ SENTIDO COM CERTEZA FOI NORTE!

Por que desqualificamos a jornada só porque o destino mudou?

Caro leitor;   

 Existe um hábito cruel na mente humana: julgar o passado exclusivamente pelo resultado final. Se o casamento acabou em divórcio, dizemos que "fracassou". Se o curso universitário não virou carreira, dizemos que foi "tempo perdido". Se o projeto não deu lucro, chamamos de "erro". Mas, da janela do meu olhar, essa matemática é injusta e ingrata com a nossa própria biografia.

    A verdade que precisamos abraçar é: Se um dia você caminhou por aquela estrada, é porque, naquele momento exato, ela era o seu Norte.

    Imagine que você viveu cinco anos ao lado de alguém. Foram cinco anos de cafés da manhã, de viagens, de aprendizados sobre paciência, de descobertas sexuais, de apoio mútuo. Aí o relacionamento termina. A tendência imediata é pegar uma borracha preta e tentar apagar tudo, rotulando como "perda de tempo". Mas como pode ser perda se houve vida? 
    
    Desqualificar o passado porque ele não é eterno é uma forma de desonrar quem fomos. Aquela pessoa, aquele emprego ou aquele curso foram os mestres que a sua alma precisava naquela etapa. Eles cumpriram a função deles.

Tudo o que vivemos, tanto o doce quanto o amargo, compõe o mosaico de quem somos hoje.
A escolha "errada" te ensinou o que você não quer mais (e isso é valiosíssimo!).

O chefe difícil te ensinou resiliência ou te empurrou para empreender.
O amor que acabou te ensinou sobre seus limites e seus desejos.

    Precisamos ser gratos até pelos contrastes. Se hoje você tem clareza sobre o que é um amor saudável, é provável que, lá atrás, você tenha vivido o contraste de um amor que doeu. A dor foi a professora da cura. O "erro" foi o rascunho do acerto.

    A bússola da vida não aponta para um lugar fixo para sempre; ela aponta para onde precisamos ir para evoluir agora. Aceitar isso nos tira o peso do arrependimento. Você não errou o caminho. Você apenas chegou ao fim daquele trecho. E se aquele trecho te fez andar, te fez sentir e te fez amadurecer, então ele não foi um desvio. Ele foi, com toda a certeza, o Norte perfeito para a pessoa que você era. O Norte é Móvel...

Honre seus passos. Nenhum deles foi em vão.

Olhe para trás agora: o que você tem chamado de 'tempo perdido' que, na verdade, foi o alicerce invisível da pessoa forte que você se tornou hoje?


Até breve...

J.L.I Soáres


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