Da janela do meu olhar
"Em sendo espíritos eternos, temos a eternidade para nos aperfeiçoarmos.”
domingo, 1 de março de 2026
A INVISIBILIDADE DO ESSENCIAL
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
CONTO
O TECELÃO E O FIO DE OURO.
No início de tudo, não houve um estalo de dedos mágico, mas sim um Grande Suspiro. Imagine um Tecelão que não tem mãos, mas tem pensamento.
Ele começou a tecer uma tapeçaria infinita chamada Realidade. O Tecelão não buscava a perfeição estática, porque a perfeição é morta; ela não se move, não muda, não cresce.
Ele buscava a Expressão.
Para que a vida existisse, Ele precisava de algo chamado “entropia”, que nós, aqui embaixo, chamamos de caos, de dívida, de dor, ou de “erro genético”. Havia uma alma, muito parecida com a sua, que estava sentada diante de um pedaço dessa tapeçaria.
Ela olhava para os fios emaranhados da sua própria vida: havia nós apertados (as dívidas que tiravam o sono), fios desbotados (a saúde que parecia falhar) e partes que pareciam simplesmente um erro de fabricação.
Essa alma olhou para cima e perguntou, com um terço de luz nas mãos: “Tecelão, por que permites o erro?
Eu realmente tenho uma origem? Sou um acidente genético? Por que minha vida parece um tecido rasgado enquanto eu tento ser fiel ao plano?”
O Tecelão, sem parar de tecer, enviou um pensamento que ecoou no peito daquela alma:
Se não houvesse o espaço entre os fios, não haveria o desenho. O que você chama de ‘erro genético’ é, na verdade, a Variabilidade.
Se todos os fios fossem iguais, a tapeçaria seria um pano de chão cinza.
Eu permiti o nó da dor para que você aprendesse a arte de desatar. Eu permiti o vazio financeiro para que você descobrisse que a sua verdadeira abundância não está no que você tem, mas na sua capacidade de Gerar. A ausência de Amor para reconhecer em você sua real capacidade de amar.
A alma retrucou: “Mas dói desatar esses nós. E para quem eu peço ajuda se Tu és o próprio autor do nó?”
E o Tecelão respondeu: “Você não pede ajuda para alguém que está fora da tapeçaria.
Você pede para a força que mantém os fios unidos.
Quando você segura esse terço, você não está pedindo para um Deus distante consertar sua vida como um mecânico conserta um carro.
Você está realinhando a sua própria frequência com a Fonte. Você está dizendo ao universo: ‘Eu reconheço que sou um fio consciente’.
Deus, não é um contador que fica anotando nossas dívidas no cheque especial. Se Deus fosse apenas lógica, seríamos robôs.
Mas Ele é Lógica + Poesia.
A saúde física é o nosso "templo" processando a experiência da Terra. A dor no corpo físico que sentimos agora não é um erro; é o nosso corpo sendo honesto com nós. Ele está dizendo:
"Pare, respire, olhe para dentro".
A doença é, muitas vezes, é o recurso que a alma usa para nos obrigar ao descanso que a nossa mente orgulhosa se recusa a aceitar.
Quando pedimos por saúde física, saúde financeira, amor, estamos pedindo para que o fluxo da vida volte a correr através de nós. Mas para o fluxo correr, a tubulação (que somos nós) precisa estar limpa, sem o medo que entope as saídas.
Não somos um erro genético. Temos uma filiação Divina. Somos uma Complexidade Necessária. Um erro não conseguiria constituir família, construir impérios, escrever livros.
Um erro definitivamente não teria a sensibilidade de segurar um terço e questionar as estrelas.
Deus é a inteligência que faz o antibiótico saber exatamente onde está a bactéria no seu corpo , sem que você precise dar o endereço. Se Ele cuida da química da sua cura no escuro das suas entranhas, por que não cuidaria da química da sua vida?
A prosperidade vem para quem se torna um canalk. E agora, de quê o seu canal precisa?
O seu "fio de ouro" hoje pode ser apenas o repouso.
Permita-se!
Até breve…
J.L.I Soáres
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ALQUIMIA: Da Individuação nas Conexões
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
ALQUIMIA E INDIVIDUAÇÃO NAS CONEXÕES
É desenhar mapas para sair dos labirintos da própria psique. No blog, propomos exatamente este exercício: transformar o silêncio confuso em consciência articulada.“Da Janela do meu Olhar’, vivemos em uma era de excesso de informação e escassez de sabedoria. É o que chamamos de Obesidade Intelectual: o ato de ingerir teorias, filosofias e versos sem jamais metabolizá-los na vida prática. Ler dezenas de livros e não permitir que nenhum deles altere sua conduta é gula, não é cultura.
Carl Jung afirmava que o encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas se transformam. Na jornada da Alquimia das Almas, o relacionamento é o athanor (o forno alquímico) onde nossos metais brutos são colocados à prova.
• Nigredo (A Escuridão): É o estágio inicial de projeção, onde nossos traumas e sombras vêm à tona no espelho do outro.
• Albedo (A Purificação): O momento em que o "fogo" do conflito nos ensina a retirar as máscaras (Persona) para revelar a integridade do Self.
As conexões não são distrações, mas o terreno onde a alma se lapida através da "solidão consciente" partilhada. A verdadeira Sophia não nos afasta da vida; ela nos faz retornar a ela com um olhar e uma presença mais conscientes. É entender que a luz e a treva não são opostas, mas faces da mesma Alquimia Existencial. O convite desta série é para que você deixe de ser um espectador da teoria e torne-se o alquimista da sua própria história. O que estudamos precisa, obrigatoriamente, virar quem somos.
Este artigo é a base teórica para o que exploraremos profundamente no meu novo livro, "Alquimia das Almas nas Conexões". Não permita que sua mente inche de conceitos enquanto sua alma atrofia por falta de vivências.
Sejamos os mapas que desenhamos.
J. L. I Soáres
Frequentemente, habitamos relacionamentos e estados emocionais sem possuir o vocabulário necessário para descrevê-los, tornando-nos reféns de sentimentos que não conseguimos nomear.
O estudo real deve ser inalienável, um santuário que nenhuma tirania confisca. No contexto das conexões humanas, isso significa que o conhecimento sobre a psique só se torna "propriedade privada" quando é digerido, quando a teoria vira conduta e o verso vira carne. Não sejamos apenas depósitos de ideias alheias; sejamos alquimistas que transformam informação em transformação pessoal.
Alcançar o Estágio Sophia, a sabedoria que poucos alcançam, dentro de um vínculo significa sustentar paradoxos sem conflito interno. É a capacidade de aceitar a própria Sombra e a do outro sem julgamento, integrando o que rejeitamos para desenvolver uma compaixão lúcida.
Da Janela do Seu Olhar
Agora, convido você a olhar através da sua própria janela e compartilhar:
Em qual estágio da sua "cartografia" você se encontra hoje: ainda mapeando os labirintos ou já metabolizando as vivências?
Você já sentiu o "efeito espelho" em suas conexões, onde o outro revelou algo da sua própria sombra que você ainda não havia integrado?
O que, do que você leu hoje, deixará de ser apenas um conceito para se tornar uma conduta na sua vida prática?
Comenta aqui embaixo. Vamos transformar esse espaço em um cadinho de trocas alquímicas.
"Para quem deseja aprofundar essa metabolização, conheça meu curso Alquimia da Alma".
Até breve…
J.L.I Soáres
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
A CEGUEIRA DOS "DONOS DA VERDADE"
QUANDO O EGO CONFUNDE A JANELA COM A PAISAGEM
"A forma mais perigosa de cegueira é achar que a sua perspectiva é a única realidade." (Nietzsche). Um ensaio sobre o narcisismo intelectual e a morte da empatia.
Caro Leitor;
Friedrich Nietzsche, com seu martelo filosófico, destruiu muitas ilusões. Mas talvez nenhuma frase sua seja tão urgente para o século XXI quanto esta:
"A forma mais perigosa de cegueira é achar que a sua perspectiva é a única realidade."
Vivemos na Era das Bolhas. O algoritmo nos alimenta apenas com o que gostamos, os amigos concordam com o que pensamos e, lentamente, construímos um Bunker de Certezas. Dentro dele, nos sentimos seguros, inteligentes e "do lado certo da história".
O problema? Do lado de fora, a realidade é vasta, caótica e contraditória. E quem se recusa a ver isso não é um "homem de convicções"; é um cego voluntário.
Existe o axioma: "O mapa não é o território". A sua percepção (o mapa) é apenas uma representação interna da realidade, filtrada por seus traumas, sua cultura, sua religião e suas neuroses. A realidade (o território) é o que existe de fato, independente do que você acha dela.
O "perigo" que Nietzsche aponta reside na confusão entre os dois. Quando acho que o meu mapa é o único território possível, torno-me incapaz de aprender. O outro deixa de ser uma fonte de conhecimento e vira uma ameaça a ser eliminada.
Sócrates dizia "só sei que nada sei". O tolo diz "eu sei de tudo". A fixação na própria perspectiva é um mecanismo de defesa do Ego. Admitir que posso estar errado, ou que a verdade do outro também é válida, exige uma humildade insuportável para o narcisista.
É mais fácil rotular o outro de "louco", "herege" ou "ignorante" do que admitir que a vida é um prisma. Eu vejo o azul. Você vê o vermelho. A realidade é violeta. Mas, se eu me recuso a validar o seu vermelho, jamais entenderei a complexidade da cor real.
É aqui que entra a proposta da minha série literária, "Da Janela do Meu Olhar". O título não é acidental. Eu reconheço que olho "da minha janela". Tenho meus vidros, minhas cortinas, meu ângulo.
A sabedoria não está em quebrar a janela dos outros, mas em convidar: "Venha ver daqui. Agora, deixe-me ver daí." A construção de uma psique saudável, o que chamo de Cartografia do Ser, depende da nossa capacidade de transitar entre perspectivas.
Quem só olha de uma janela vê uma imagem estática. Quem transita, vê um filme. Quem integra, vê um Mosaico.
Nietzsche propunha o Perspectivismo: a ideia de que não existem fatos eternos, apenas interpretações. Isso não significa que "tudo vale" (relativismo barato), mas que a verdade é multifacetada.
Para curar essa cegueira perigosa, precisamos praticar o exercício mais difícil da existência humana: a Escuta Ativa. Escutar não para responder, não para refutar, não para vencer o debate. Mas escutar para ver a realidade através dos olhos do outro.
Isso exige matar o "Pequeno Ditador" que vive em nós. Aquele que quer moldar o mundo à sua imagem e semelhança.
Se tudo o que você vê no mundo concorda com você, você não está olhando para o mundo; você está olhando para um espelho. E narciso, como sabemos, morre afogado na própria imagem.
A verdadeira lucidez dói. Ela nos obriga a conviver com o paradoxo, com a dúvida e com a complexidade. Mas é somente fora da caverna das nossas certezas que a vida acontece de verdade.
Não sejamos cego pela nossa própria luz. O mundo é muito maior do que a nossa janela permite ver!
"DA JANELA DO SEU OLHAR"
Qual foi a última vez que você mudou de opinião sobre um assunto importante apenas por escutar a perspectiva de outra pessoa?
Você convive com ideias contrárias às suas, ou cercou-se de pessoas que são apenas "ecos" da sua voz?
O que te assusta mais: descobrir que você estava errado ou descobrir que não existe uma única verdade absoluta?
domingo, 8 de fevereiro de 2026
O DIVÃ E O ALTAR
A INFANTILIZAÇÃO DA FÉ E O ADOECIMENTO DO CLERO
Por que confundimos o Tribunal da Misericórdia com colo paterno e como o nosso narcisismo está levando sacerdotes ao burnout.
Caro Leitor;
Ao frequentarmos qualquer paróquia minimamente ativa, presenciaremos a fenomenologia da fila da confissão: dezenas de pessoas aguardando, um silêncio tenso e, lá dentro, um sacerdote que, hora após hora, absorve a miséria humana. Mas há algo de errado nessa equação. Não com a quantidade de pecados, a miséria humana é constante, mas com a natureza da demanda.
Tenho observado, tanto sob a ótica da Psique quanto da Teologia Moral, que transformamos o confessionário em um "Pronto-Socorro Emocional". O fiel moderno não entra ali apenas para acusar seus delitos contra a Lei Divina; ele entra buscando validação, alívio psíquico e, sobretudo, "colo". E é exatamente aqui que reside o perigo: ao confundir o Altar com o Divã, infantilizamos a nossa fé e adoecemos os nossos padres.
Freud explicaria esse fenômeno através do conceito de Transferência. Em uma sociedade de orfandade paterna (real ou simbólica), projetamos na figura do sacerdote a imagem do "Pai Herói" ou do "Pai Acolhedor" que nunca tivemos. O penitente infantilizado não quer um Juiz que o absolva (função ontológica do padre na Confissão); ele quer um Pai que diga: "Está tudo bem, a culpa não foi sua, o mundo é que foi mau com você". Isso não é busca por santidade; é busca por regressão uterina. Queremos voltar a ser crianças irresponsáveis no colo de alguém que representa Deus.
Mas a Confissão é o Sacramento da maturidade.
É o local onde você diz: "Eu fiz. Eu sabia. Eu errei. Eu assumo." Quando usamos o padre para validar nossas neuroses, estamos recusando o crescimento. O filósofo Byung-Chul Han descreve a "Sociedade do Cansaço", onde todos somos exploradores de nós mesmos.
Mas o que dizer do clero?
O sacerdote é um homem que entregou sua vida para ser Alter Christus (Outro Cristo). Sua função primordial é salvar almas, consagrar a Eucaristia e perdoar pecados mortais. No entanto, nós o transformamos em um "terapeuta pro bono". Jogamos sobre ele fofocas paroquiais, angústias matrimoniais que deveriam ser tratadas em terapia de casal, e escrúpulos obsessivos que exigem medicação, não absolvição. O resultado? Sacerdotes exaustos, deprimidos e em burnout. Não porque "trabalham demais" para Deus, mas porque são drenados por demandas humanas que não lhes competem.
Exigimos que eles sejam psicólogos, assistentes sociais e pais substitutos, esquecendo que eles já têm o fardo mais pesado do mundo: a responsabilidade pelas nossas almas diante de Deus. Para estancar essa sangria, precisamos desenhar uma linha clara, fundamentada na Teologia e no bom senso:
Pecado (Matéria de Confissão): É uma escolha livre e consciente de romper com Deus. É um ato de vontade. Requer absolvição.
Angústia/Neurose (Matéria de Terapia): É um sentimento involuntário, um medo, uma tristeza ou uma ansiedade. Não é pecado "sentir" coisas ruins. Requer tratamento, escuta e elaboração.
Praticamos a "Fé Bumerangue" e nos tornamos "Penitentes iô-iô"
O confessionário trata a morte da alma. O consultório trata a dor da psique. Ir ao padre para curar ansiedade é como ir ao cardiologista para curar uma cárie. Você está no lugar errado, pedindo a cura errada, para o profissional errado. Em meus escritos e reflexões, muitas vezes sob a ótica da série "Da Janela do Meu Olhar", observo um subproduto tóxico dessa confusão: o vício na absolvição sem a virtude da contrição. Muitos fiéis vivem o que chamo de "Fé Bumerangue" (ou o fenômeno dos penitentes iô-iô): pecam durante a semana com a tranquilidade presunçosa de quem "zera o jogo" no domingo. Cria-se um ciclo vicioso onde o confessionário deixa de ser um local de conversão (metanoia) e vira apenas um gestor de culpa.
Existe uma armadilha piedosa usada para justificar essa falta de combate: "Eu me confesso toda semana porque sou pequeno, sou miserável e dependo totalmente de Deus." Soa bonito, soa humilde. Mas, muitas vezes, é apenas preguiça espiritual (acídia) disfarçada de piedade. Santo Agostinho, em suas Confissões, foi cirúrgico ao diagnosticar isso. Ele nos ensina que o problema do pecador não é apenas a ignorância, mas a vontade desordenada. Deus não nos dá a Graça para continuarmos rastejando na lama da "pequenez"; Ele nos dá a Graça para nos levantarmos.
A verdadeira humildade não é apenas dizer "eu não consigo"; é dizer "porque Deus está comigo, eu vou lutar para conseguir". A Teologia Clássica chama isso de Virtude da Temperança (o autodomínio).
Pecar contando com o perdão futuro não é confiança na misericórdia; é Pecado de Presunção. É tratar o Sangue de Cristo como detergente barato, ignorando o requisito básico da absolvição: o Firme Propósito de Emenda.
Enquanto usarmos o padre como muleta para nos esquivarmos do esforço real de mudança, nós não estaremos sendo "pequenos diante de Deus"; estaremos sendo infantis diante da vida. O confessionário é lugar de ressurreição, não de manutenção de cadáveres. Ser um fiel adulto significa entender que o padre não é uma muleta. Ele é um dispensador da Graça. Amar o sacerdócio não é apenas beijar a mão do padre ou dar presentes no Natal. Amar o sacerdócio hoje, neste século de narcisismo e carência, é ter a hombridade (e a feminilidade) de poupar o padre das nossas infantilidades.
A regra é simples: Se precisamos de 50 minutos para entender por que sentimos e o que sentimos: paguemos um psicólogo. Se precisamos de 3 minutos para confessar que matamos a Graça de Deus em nossa alma e queremos ressuscitá-la: busquemos um padre.
A fila da confissão diminuiria, a saúde dos padres melhoraria e, paradoxalmente, a nossa santidade aumentaria. Porque santo não é aquele que chora no colo do pai; é aquele que carrega a própria cruz logo atrás Dele. Reflitamos.
E "Da Janela do seu Olhar" , caro leitor:
Você busca a Confissão para ser perdoado (ressuscitar a alma) ou apenas para se sentir aliviado (acalmar a ansiedade)?
Você tem a coragem de assumir seus erros sem vitimismo, ou ainda procura um "pai" para validar suas desculpas?
Até Breve...
J.L.I Soáres
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
"STAT CRUX"
A Imobilidade do Dogma na Era do "Eu"
"Stat Crux dum volvitur orbis"
A Cruz permanece imóvel enquanto o mundo gira.
Caro Leitor,
Esta divisa, cunhada pela Ordem dos Cartuxos (Ordo Cartusiensis), não é apenas um lema bonito; é um manifesto de sobrevivência. Fundada por São Bruno em 1084, a ordem surgiu em um cenário de caos absoluto: a Europa do século XI via um clero imerso em corrupção, simonia e disputas políticas brutais. O "mundo girava" em uma vertigem moral.
A resposta dos cartuxos não foi tentar reformar o mundo participando dele, mas criar um ponto de estabilidade radical. Eles entenderam que, para a Verdade sobreviver à liquidez do tempo, ela precisava ser "engessada", ou, melhor dizendo, ancorada. Daí o ditado histórico: "Cartusia nunquam reformata, quia nunquam deformata" (A Cartuxa nunca foi reformada, porque nunca foi deformada).
Hoje, a roda do mundo (volvitur orbis) gira ainda mais rápido, alimentada por um fenômeno psíquico: a Sombra. É a Sombra e o Conforto do Relativismo.
Sob a ótica psicanalítica, o ser humano flerta com o relativismo moral não por uma suposta "evolução", mas para dar vazão à sua sombra sem culpa. O relativismo é o habeas corpus do ego. Se os conceitos de certo e errado, construções sociais e teológicas, mudam conforme a conveniência, então a minha transgressão deixa de ser um erro e vira "estilo de vida". É confortável ajustar a régua moral para que nossos desejos caibam nela.
Esbarramos na natureza intrinsecamente rebelde do ser humano: a recusa em se ajustar. O ego detesta limites; ele não quer subir a montanha sagrada, ele quer que a montanha desça até o nível dele. A nossa Natureza Rebelde sempre buscando a "Customização" da Fé.
Podemos observar esse fenômeno comparativamente no cenário religioso atual. Em certas vertentes modernas, a dinâmica da fé muitas vezes cede a essa rebeldia. Se a pregação do pastor confronta o ego ou desagrada o ouvinte, a solução é simples: o fiel sai e funda sua própria igreja, ou procura outra que diga o que ele quer ouvir. Cria-se uma "verdade" sob medida, fragmentada e relativizada para o conforto do cliente. É a fé que gira junto com o mundo, validando a sombra em vez de iluminá-la.
É neste ponto que a estrutura da Igreja Católica, com toda a sua rigidez dogmática, se destaca não apenas teologicamente, mas esteticamente. O que torna o rito católico belo e solene é justamente a sua recusa em ser "customizável". A Igreja pode e deve adaptar sua linguagem pastoral (como fez no Concílio Vaticano II) para ser compreendida, mas ela não pode adaptar a Cruz.
A Beleza do Dogma é o Eixo do Mundo
Essa imobilidade não é um defeito; é a única âncora possível. O dogma funciona como o Axis Mundi (Eixo do Mundo), o ponto fixo que nos impede de chamar o abismo de luz.
Por fim, recorro à primeira lição fundamental do Direito: o ser humano precisa de freios.
A vida em sociedade só é possível porque existem as Leis dos Homens, que impõem limites à barbárie e contêm os impulsos destrutivos do indivíduo contra o coletivo. Sem esses freios legais, imperaria o caos. Da mesma forma, no âmbito espiritual e psíquico, o Dogma, ou a Lei de Deus, atua como o freio da alma.
Além da educação doméstica, é a estrutura da fé que oferece o limite necessário contra a nossa própria natureza rebelde. Assim como o Código Penal protege o corpo social, o mandamento protege a integridade do espírito. Em um mundo que gira vertiginosamente, tentando nos convencer de que tudo é permitido, a Cruz imóvel (Stat Crux) é o freio sagrado que nos impede de derrapar nas curvas da nossa própria sombra. Vale refletir...
Até breve...
J.L.I Soáres
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?
Caro Leitor;
Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha memória e trouxe de volta o Praxedes.
Ele era um gatinho cinza, lindo, que apareceu no meu bairro na minha infância. Naquela época, a proteção animal não era uma pauta, não existiam as leis de hoje, e viajar com animais era quase impensável. Meus pais não deixaram levá-lo. Confiei que ele ficaria bem com a vizinhança.
Quando voltei do fim de semana, encontrei o Praxedes jogado sobre um monte de terra. Morto. O choque da visão foi terrível, mas a explicação que recebi foi o que realmente quebrou algo dentro de mim. Com uma naturalidade assustadora, me disseram: "Ah, os meninos brincaram de apedrejar."
Brincaram. A palavra "brincadeira" usada para descrever tortura e morte.
Lembro-me de pegar o corpinho dele, levá-lo para o quintal da minha casa e cavar a terra chorando. Enquanto o enterrava, eu via as marcas das pedradas no pelo cinza. Eu imaginava o terror, a dor, o desamparo dele diante daqueles "humanos" em formação.
Hoje, vendo as notícias se repetirem com outros rostos e outros "meninos", a pergunta me assombra: O ser humano nasce mau ou é a sociedade que nos corrompe? Onde falhamos na educação para que a destruição do outro seja vista como entretenimento?
Ferir um animal não é um erro, é um sintoma de colapso ético. É o "gozo na crueldade". Quando não há limite interno, o sujeito precisa destruir a inocência para se sentir poderoso.
Enterrei o Praxedes naquele dia, mas a dúvida eu carrego até hoje: será que, junto com ele, não enterramos também a nossa piedade? A barbárie não começa com grandes guerras. Ela começa no quintal de casa, quando a violência é chamada de "brincadeira" e ninguém diz NÃO.
Que a dor da memória sirva, ao menos, para não deixarmos a consciência adormecer.
E nessa nostalgia, lembramos que vivemos tempos onde a pergunta de Rousseau, "O homem nasce bom e a sociedade o corrompe?" , parece ingênua diante da brutalidade que inunda nossas telas. Talvez Hobbes estivesse mais perto da ferida quando disse que "o homem é o lobo do homem", mas hoje, tragicamente, o homem decidiu ser o lobo daqueles que não têm presas para se defender. Isso é na verdade, o Colapso da Piedade: Quando a Barbárie se Disfarça de Entretenimento.
Assistimos, estupefatos, a atos de violência contra seres indefesos, animais, crianças, idosos, praticados não por necessidade de sobrevivência, mas por um tédio sádico, por uma busca desenfreada de sentir alguma coisa em meio à anestesia moral contemporânea.
A crueldade com o animal não é um "deslize". É um sintoma de uma estrutura psíquica que não formou o limite interno. Onde deveria haver a Lei (o "não farás", a empatia, o reconhecimento do Outro), existe apenas o Gozo Bruto. O sujeito perverso olha para a vulnerabilidade alheia não com compaixão, mas com desprezo. Ele precisa destruir o frágil para sustentar a ilusão da sua própria onipotência.
E aqui entra o questionamento nevrálgico: Onde falhamos na educação? Antigamente, dizia-se que a "chinela cantava". Hoje, a pedagogia do afeto é essencial, mas parece que, em algum ponto, confundimos amor com falta de limites. Criamos uma geração de "imperadores mirins", jovens que nunca ouviram um "NÃO" dentro de casa. E a psique humana funciona de uma forma implacável: Se a Lei não vem pelo Amor (educação, família), ela virá pela Dor (sociedade, polícia, justiça).
Vemos agora o clamor por punições externas severas, cancelamentos, processos, perda de vistos internacionais. A sociedade tenta, desesperadamente, aplicar a "castração" que a família negligenciou. Os jovens que achavam que o mundo era o quintal das suas casa, onde podiam quebrar seus "brinquedos" vivos sem consequência, descobrem subitamente que o mundo tem fronteiras, leis e repúdio.
Mas a pergunta que ecoa é mais profunda: O aumento dessa visibilidade é apenas porque todos têm uma câmera na mão? Ou a nossa câmera serviu para revelar que a barbárie sempre esteve ali, à espreita, esperando o palco digital para se exibir? A tecnologia não criou o monstro, ela apenas lhe deu uma plateia. E o monstro, muitas vezes, é o vazio existencial de quem não foi ensinado a respeitar a vida em suas formas mais sagradas.
"Entre quem agride e quem protege, existe um abismo", diz a sabedoria psicanalítica. De um lado, a fraqueza travestida de violência. Do outro, a firme delicadeza de quem sabe que a verdadeira força reside em ser o guardião do inocente, e não o seu algoz.
A humanidade não se perdeu lá fora. Ela se perdeu na sala de estar, onde o silêncio dos pais consentiu com a primeira pedra atirada.
Até Breve.
J.L.I
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