Caros Leitores,
Este ensaio é parte de
uma atividade acadêmica que estou resgatando e publicando aqui no blog. Faz
parte de meus estudos em Ciências da Religião, e achei importante
compartilhá-lo porque ele toca em uma das questões mais viscerais que cada
pessoa de fé enfrenta: por que Deus permite o sofrimento?
Não é resposta. É
pensamento em movimento. Reflexão que quer ser honesta, tanto com quem
questiona quanto com quem crê. Publico aqui não como verdade última, mas como
convite à conversa.
Uma abertura necessária
existe uma verdade que precede toda a reflexão sobre Deus: a própria linguagem
já o reduz. A tradição apofática da teologia, particularmente a cabala e as
correntes contemplativas, reconhecem que falar de Deus é sempre uma corrupção
do inefável.
Aquilo que nomeia de
forma definitiva não é Deus, mas nossa incapacidade de silenciar. Se isso é
verdade, então toda a teodiceia, toda a argumentação racional, toda explicação
filosófica, este ensaio já começam vencidos, não porque sejam falsos, mas
porque tenta verbalizar o que transcende linguagem. Dito isso, é dentro dessa
incompletude necessária que precisamos pensar. Não apesar dela. Por causa dela.
O problema que não se
resolve
A questão fundamental que
estrutura a filosofia da religião permanece intocável há séculos: como é
possível um Deus simultaneamente onipotente, onisciente e benevolente numa
realidade onde o mal se manifesta de forma incontestável? Este ensaio argumenta
que as teodiceias não resolvem o problema do mal mas ao contrário funcionam
como dispositivos de autoperpetuação teológica que absorvem contradições para
justificar sua própria existência.
Epicuro já havia
formulado a questão com precisão lógica: se Deus quer prevenir o mal mas não
pode, não é onipotente; se pode, mas não quer, é malévolo; se quer e pode, por
que existe o mal? A estrutura é irrefutável. As teodiceias, explicações
racionalizadas dessa coexistência, emergiram precisamente para preencher essa
lacuna argumentativa.
Mas aqui reside o
problema crítico: elas funcionam menos como resoluções e mais como estratégias
de perpetuação. Santo Agostinho propôs que o mal é privação do bem, não
substância própria. Leibniz mais sofisticado, argumentou ser este “o melhor dos
mundos possíveis”. Alvin Plantinga ofereceu a defesa do livre-arbítrio como
justificativa suprema.
Todas essas abordagens
compartilham uma característica estrutural: diante de cada lacuna explicativa,
inserem um Deus, quando a ciência explicava X, a teologia ocupava o espaço do Y
ainda desconhecido. Isso não é coincidência é funcionamento sistêmico. A
teologia natural dependeu historicamente de ordem observável no universo para funcionar
(Paley e o relógio; o argumento cosmológico de Leibniz). A evolução deveria ter
sido mortal para esse sistema, e foi, para as suas formas literais. Mas a
teologia evolutiva não refutou a teologia natural; a reintegrou. Absorveu.
Disse: “A evolução mesma é expressão do Divino”. Salvou-se através da
integração do próprio conhecimento que deveria destrui-la.
Essa capacidade de
absorção é o que torna a teologia estruturalmente irrefutável, não por ser
verdadeira, mas por ser imune à falsificação. Toda crítica, toda lacuna, toda
contradição se tornam material para aprofundamento teológico. O “problema do
mal” transformou-se em teodiceia. A teodiceia transformou-se em filosofia da
religião. Cada etapa integrou o que poderia negá-la.
A crítica contemporânea
Dawkins, Hitchens, Russell, reconheceu isso. Não atacam a teologia por ser
demonstravelmente falsa (o que seria ingênuo), mas por ser vazia de conteúdo
verificável. A noção de “Deus das lacunas” nomeia precisamente esse mecanismo:
Deus não é proposição teórica sobre o universo, mas preenchimento perpétuo de
espaços onde conhecimento falha.
Para o sofrimento humano,
as implicações são profundas. A teodiceia do livre-arbítrio oferece conforto:
seu sofrimento resulta de escolhas livres, logo você é responsável, logo mantém
a agência. Há dignidade nisso, mas também culpa estruturada. A teodiceia irenaica
(Irineu) propõe que o sofrimento amadurece espiritualmente, reconforto que
transforma a dor em ferramenta pedagógica divina. Ambas operam não como
verdades, mas como narrativas se retornam o sofrimento inteligível sem exigir
que Deus se justifique logicamente.
Aqui, o espiritual
encontra o psicanalítico. Lakan diria que a teologia funciona como sintoma que
permite viver com a falta, não resolvendo-a, mas tornando-a suportável através
de significação. O mal permanece incompreensível, mas a teodiceia oferece um
quadro onde é parte de um “plano maior”. Psicologicamente funciona. Logicamente
não resolve nada.
Na prática religiosa
contemporânea, isso manifesta-se como esquizofrenia aceita. Pessoas de fé
sofrem, questionam Deus, recebem explicações teodiceicas, aceitam parcialmente,
mantêm fé apesar de tudo. Não porque as teodiceias provem algo, mas porque oferecem
linguagem para coabitar com o paradoxo. É funcionamento pragmático não
epistêmico.
O desenvolvimento
espiritual, nesse contexto, torna-se a aceitação da incompreensibilidade.
Mística, não teologia racional. A via contemplativa Nouwen, Tillich, reconhece
que o problema do mal não se resolve intelectualmente, apenas se transcende experiencialmente.
Essa honestidade é mais íntegra que qualquer teodisseia sofisticada.
O impasse necessário
A conclusão não é que
Deus não existe. É que o problema do mal não pode ser resolvido dentro do
paradigma teológico porque a teologia mesma é construída para perpetuar-se
absorvendo todas as contradições. Toda a solução gera nova lacuna. Toda a
lacuna reafirma a necessidade de Deus. A questão verdadeira não é “Como
conciliar Deus com o mal”? mas “Por que a teologia sobrevive mesmo sendo
logicamente indefensável”? E a resposta é que ela não sobrevive como o sistema
racional, sobrevive como dispositivo de significação que permite o humano viver
com o insuportável.
E aqui reside o paradoxo
que não se resolve: você pode desmantelar logicamente toda teodiceia, pode
apontar suas contradições, pode nomear o mecanismo de “Deus das lacunas”. Você
estará correto. Mas então onde você habita? Em que fundamento você repousa sua
vida, seu sofrimento, sua morte? A razão humana, robusta como parece, está
fadada ao abismo.
Ela explica mecanismos,
mas não oferece significado. Ela desconstrói narrativas, mas não gera sentido
para viver. Por isso o Salmista persiste: “Confia no Senhor de todo o teu
coração e não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5). Não
porque a razão seja inútil, (São Tomás de Aquino já a integrou na teologia),
mas porque há um limite epistemológico onde ela falha. E nesse limite, a fé não
é escape, é a única integridade possível. Aceitar a incompletude. Viver dentro
dela.
O ciclo que não fecha
Existe um ciclo que
permanece aberto e talvez seja virtuoso justamente por isso: a Bíblia foi
escrita por homens que dizem ter sido guiados por Deus. Se Deus existe, é Sua
palavra através de humanos. Se Deus não existe, é criação puramente humana. Mas
até mesmo essa dicotomia pode ser falsa. Porque há uma terceira possibilidade
que as teodiceias sempre souberam: que Deus não precisa provar Sua existência
para ser real.
Que a fé não é conclusão
lógica, mas disposição de habitar a incompletude. E então voltamos ao início:
falar de Deus é sempre redução. Criticar a teologia é necessário. Viver sem ela
é abismo. A única integridade é estar consciente de estar dentro do jogo, sem
pretender tê-lo vencido, sem pretender estar fora dele.
Até breve...
J.L.I Soáres
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