QUANDO O EGO CONFUNDE A JANELA COM A PAISAGEM
"A forma mais perigosa de cegueira é achar que a sua perspectiva é a única realidade." (Nietzsche). Um ensaio sobre o narcisismo intelectual e a morte da empatia.
Caro Leitor;
Friedrich Nietzsche, com seu martelo filosófico, destruiu muitas ilusões. Mas talvez nenhuma frase sua seja tão urgente para o século XXI quanto esta:
"A forma mais perigosa de cegueira é achar que a sua perspectiva é a única realidade."
Vivemos na Era das Bolhas. O algoritmo nos alimenta apenas com o que gostamos, os amigos concordam com o que pensamos e, lentamente, construímos um Bunker de Certezas. Dentro dele, nos sentimos seguros, inteligentes e "do lado certo da história".
O problema? Do lado de fora, a realidade é vasta, caótica e contraditória. E quem se recusa a ver isso não é um "homem de convicções"; é um cego voluntário.
Existe o axioma: "O mapa não é o território". A sua percepção (o mapa) é apenas uma representação interna da realidade, filtrada por seus traumas, sua cultura, sua religião e suas neuroses. A realidade (o território) é o que existe de fato, independente do que você acha dela.
O "perigo" que Nietzsche aponta reside na confusão entre os dois. Quando acho que o meu mapa é o único território possível, torno-me incapaz de aprender. O outro deixa de ser uma fonte de conhecimento e vira uma ameaça a ser eliminada.
Sócrates dizia "só sei que nada sei". O tolo diz "eu sei de tudo". A fixação na própria perspectiva é um mecanismo de defesa do Ego. Admitir que posso estar errado, ou que a verdade do outro também é válida, exige uma humildade insuportável para o narcisista.
É mais fácil rotular o outro de "louco", "herege" ou "ignorante" do que admitir que a vida é um prisma. Eu vejo o azul. Você vê o vermelho. A realidade é violeta. Mas, se eu me recuso a validar o seu vermelho, jamais entenderei a complexidade da cor real.
É aqui que entra a proposta da minha série literária, "Da Janela do Meu Olhar". O título não é acidental. Eu reconheço que olho "da minha janela". Tenho meus vidros, minhas cortinas, meu ângulo.
A sabedoria não está em quebrar a janela dos outros, mas em convidar: "Venha ver daqui. Agora, deixe-me ver daí." A construção de uma psique saudável, o que chamo de Cartografia do Ser, depende da nossa capacidade de transitar entre perspectivas.
Quem só olha de uma janela vê uma imagem estática. Quem transita, vê um filme. Quem integra, vê um Mosaico.
Nietzsche propunha o Perspectivismo: a ideia de que não existem fatos eternos, apenas interpretações. Isso não significa que "tudo vale" (relativismo barato), mas que a verdade é multifacetada.
Para curar essa cegueira perigosa, precisamos praticar o exercício mais difícil da existência humana: a Escuta Ativa. Escutar não para responder, não para refutar, não para vencer o debate. Mas escutar para ver a realidade através dos olhos do outro.
Isso exige matar o "Pequeno Ditador" que vive em nós. Aquele que quer moldar o mundo à sua imagem e semelhança.
Se tudo o que você vê no mundo concorda com você, você não está olhando para o mundo; você está olhando para um espelho. E narciso, como sabemos, morre afogado na própria imagem.
A verdadeira lucidez dói. Ela nos obriga a conviver com o paradoxo, com a dúvida e com a complexidade. Mas é somente fora da caverna das nossas certezas que a vida acontece de verdade.
Não sejamos cego pela nossa própria luz. O mundo é muito maior do que a nossa janela permite ver!