Caro
Leitor,
Eu estava
vendo shorts no YouTube. Um atrás do outro. Aquela coisa de scroll infinito que
você começa sem intenção e acorda meia hora depois sem saber como chegou ali.
Tinha de
tudo: pessoas em situação de extrema vulnerabilidade fazendo lives de
desespero, blogueiros milionários mostrando o avesso de vidas impossíveis, casarões alugados, cabines de avião para foto, corpos editados, e, no meio
disso tudo, há aqueles que parecem verdadeiramente ricos de berço, flertando
com a riqueza como quem respira.
Eu senti
várias coisas simultaneamente.
Primeiro,
uma rejeição visceral. Aquilo era bizarro, sádico até. Ver pessoas em
vulnerabilidade existencial se expondo, enquanto uma multidão observava daquele
lado da tela, não para ajudar, não para testemunhar com responsabilidade, mas
para ver. Para consumir a miséria como quem assiste a um reality show.
Mas depois
veio a admiração. Porque tem coragem nisso. Coragem de se expor quando
está caindo. Criatividade de quem precisa inventar formas de sobreviver.
Aquelas pessoas não estavam apenas se degradando; estavam sendo criativas
com a fragilidade. E isso mexeu comigo.
Então veio
o julgamento moral. Olhei para as pessoas nos comentários — algumas
incentivando, outras sendo hostis, algumas ignorando (ou fingindo ignorar) que
aquela pessoa estava em situação precária. E me julgava por estar ali. Me
julgava por ter parado alguns instantes. Por ter sentido aquilo.
Saí da
plataforma. Mas a sensação ficou.
O ESPELHO E O CRISTAL
Depois
comecei a notar um padrão que não consigo mais deixar de ver.
Toda vez
que abro redes sociais, YouTube, TikTok, Instagram, estou simultânea e
contraditoriamente vendo duas realidades.
Uma
realidade de vulnerabilidade exposta: pessoas pobres, fazendo lives em ambientes precários. Um colchão no chão. Uma parede
mofada. Um sorriso que custa caro. Elas estão ali porque precisam fazer
dinheiro. E o algoritmo as mostra porque aquilo vende. Curiosidade.
Piedade. Morbidez.
E uma
realidade de riqueza curada: blogueiros que vivem em penthouses, que
viajam constantemente, cujos corpos são esculpidos. Mas — e aqui está o ponto
que ninguém fala, muitos desses "ricos" são ricos de aluguel.
Alugam casas de luxo por um dia, alugam cabines de avião para tirar selfie,
usam Photoshop. São atores de suas próprias vidas impossíveis.
E eu —, scroll compulsivo — consumo ambas como se fossem igualmente
reais.
A Navalha
corta aqui: Entre a democracia das redes sociais (onde
qualquer um pode se mostrar) e a oligarquia do algoritmo (que decide quem vê
quem), existe um vazio. E naquele vazio, eu fico.
Vejo aquele
streamer em situação precária e sinto culpa de não ajudar. Vejo aquele
influencer rico e sinto inveja de não ser. Vejo minha própria vida — real,
desordenada, frágil — e sinto vontade de sair dela.
Aí eu
descubro a Lei da Atração.
QUANDO A BÍBLIA VIRA AUTOENGANO
Em casa
leio: "Pedir como se já tivesse recebido".
É um
versículo famoso. Marcos 11:24. "Portanto, vos digo que tudo quanto
orardes pedindo, crede que já o recebestes, e o tereis."
Sinto um
alívio estranho ao ler isso.
Porque
agora tenho permissão. Permissão teológica de visualizar como se já
fosse rica. De imaginar a vida impossível como se fosse minha. De acreditar
que já a possuo, no plano mental, no plano energético, no plano de Deus.
Mas aqui
está o que me perturbou depois que comecei a estudar isso: A Bíblia dizia
aquilo dentro de uma comunidade. Dentro de um sacrifício. Dentro de um testemunho
coletivo. Você pedia como se já tivesse recebido, e a comunidade
confirmava. "Sim, você recebeu. Cremos com você."
Agora eu
peço sozinha no meu quarto, em frente à tela.
E a única
coisa que confirma minha crença é... mais tela. Mais algoritmo. Mais influencer
dizendo "Você merece!" Mais Lei da Atração me dando a receita:
visualize, sinta, acredite, e o universo, que é você, por sinal — vai
manifestar.
Eis o
perverso: A estrutura é idêntica. "Acredite antes
de ter." Mas o contexto é radicalmente diferente.
Antes, você
acreditava em algo maior que você. Em Deus. Em comunidade. Em sacrifício, porque fé bíblica incluía morte de si para ressurreição.
Agora, você
acredita em si mesmo. E "acreditar em si mesmo" enquanto você fica
deitada na cama visualizando riqueza é exatamente a inação perfeita. É a prisão
perfeita. Porque você se sente como se estivesse fazendo algo.
Você está
rezando, não? Está visualizando, não? Está "manifestando", não?
Não. Você
está adormecendo.
A HERESIA CONFORTÁVEL
Comecei a
notar algo perturbador em mim: eu não sentia culpa de estar nas redes. Pelo
contrário, sentia uma virtude estranha.
"Estou
me preparando," eu pensava. "Estou me alinhando com o universo."
"Estou gerando a vibração correta para atrair riqueza."
Mas o que
eu estava realmente fazendo era ficar confortável dentro da ilusão.
Porque tem
um nome para isso na psicologia: Delusion Amplification by Social Media.
A plataforma não cria o delírio; ela amplifica um delírio que já existe
— a aspiração legítima de melhorar de vida. Mas amplifica de tal forma que eu
deixo de dizer "quando eu tiver" e começo a dizer "eu
tenho" (mentalmente). Acredito parcialmente. Introduzo a vida impossível dentro
de mim.
E aqui é
onde entra a mitomania, não a patologia clínica, mas a mitomania induzida
por plataforma. Eu começo a acreditar na minha própria ficção. Não é
loucura. É conforto. É tão confortável acreditar que já sou rica que deixo de
agir para ser rica.
A Lei da
Atração me oferece a desculpa perfeita: "Se você ainda não tem, é porque
sua vibração não está alinhada." Não é culpa do sistema. É culpa da sua fé
fraca.
Eis a
dialética sagrado-profano aqui: O sagrado
(fé, visualização, conexão com o divino) vira profano (consumo de conteúdo,
algoritmo, engajamento). E o pior: ninguém percebe a transformação. Porque a
estrutura parece a mesma.
JOÃO GRILO E A CRIATIVIDADE DO DESESPERO
Tem um
momento em Auto da Compadecida que não consigo tirar da cabeça.
João Grilo
está sendo julgado. O diabo, a razão pura, a lógica, a justiça — quer
condená-lo. Porque João mentiu, enganou, foi criativo demais com a verdade.
Mas aí vem
Maria intercedendo. E ela não absolve João da mentira. Ela não nega que ele foi
astuto, que ele enganou. Ela diz algo mais profundo:
"As
pessoas em vulnerabilidade precisam ser criativas para sobreviver."
Aquelas
pessoas nas lives em ambientes precários? Elas estão fazendo exatamente o que
João Grilo faz. Estão sendo criativas com o desespero. Estão transformando a
fragilidade em moeda. Em contenúdo. Em visualização própria que, se funcionar a
Lei da Atração, pode mudar suas vidas.
E eu tinha
julgado elas. Tinha julgado quem as assistia.
Mas o que é
verdadeiramente criativo? É a pessoa pobre que dança em um cômodo mofado, ou é
o blogueiro que aluga um casarão para fingir que vive ali?
A resposta
é: ambos são criativos. Mas de formas radicalmente diferentes. Uma
criatividade é a de quem não tem escolha. A outra é a de quem escolhe
parecer ter.
E eu,
naquele meio, estava fazendo o quê? Estava escolhendo acreditar que já
tinha — sem a criatividade de quem luta, sem o sacrifício de quem muda, sem a
responsabilidade de quem testemunha.
Apenas...
permanecendo.
Comecei a
entender que estamos morrendo duas vezes.
Primeira
morte: Morrer para a vida real. Cada hora que passamos visualizando riqueza é uma hora que não estamos vivendo esta
vida. O trabalho real, o corpo real, o dinheiro real, o tempo real —
tudo é negligenciado em favor da vida paralela que imaginamos.
Não é
negligência inocente. É escolha estruturada. A plataforma nos oferece
conforto através da ilusão. Aceitamos. Ninguém nos força. Mas a arquitetura está
desenhada para que fiquemos.
Segunda
morte: Morrer em vida. Estar biologicamente aqui mas
existencialmente ausente. Heidegger chamaria isso de inautenticidade radical. Não estamos confrontando nossa própria morte (a finitude estruturante),
portanto não estou vivendo autenticamente. Estamos em limbo. Nem vivos, nem
mortos. Apenas... scrollando.
E o pior?
Isso é confortável.
Porque a
verdade — que se somos pobres, que se as chances são limitadas, que há injustiça
estrutural, que vamos morrer um dia — é insuportável. A ilusão é um
analgésico. Suave. Gratuito. Ritualístico.
Levinas
diria que temos responsabilidade infinita com o Outro. Mas também
conosco mesmos. E estamos falhando em ambas. Porque estamos em negação.
POR QUE NÃO CONSEGUIMOS SAIR?
A pergunta
que ninguém quer fazer.
Se é tudo
tão ruim — a ilusão, a morte-em-vida, a sedação através da Lei da Atração — por
que não saímos?
E a
resposta é: porque sair custa.
Winnicott
falava sobre objetos transicionais, aquele urso de pelúcia que o bebê cria
para lidar com ansiedade. Aquele objeto não é real, mas é psiquicamente
verdadeiro. E quando você tira o objeto transicional da criança, ela sofre.
A
visualização é nosso objeto transicional adulto. Não é real (nem todos são ricos), mas é
psiquicamente verdadeira (sinti-mo-nos ricos). E se nós largarmos isso, vamos sofrer. Vamos sentir o luto real. A raiva real. A responsabilidade real de agir — e talvez
falhar.
A sedação é
preferível à liberdade.
Porque
liberdade significa confrontar morte. Significa reconhecer que estamos presos
porque escolhemos estar. E isso é mais terrível que qualquer prisão
external, porque não podemos culpar ninguém além de nós mesmos.
Então deixo
aqui a pergunta que não me larga:
Como é
possível estar vivo mas não estar vivendo? E quem lucra com essa morte-em-vida?
Plataforma
lucra (dados, engagement, atenção). Influenciador lucra (seguidores,
credibilidade, cursos de "manifestação"). Sistema lucra (pessoa aqui
é menos perigosa, menos revolucionária, menos ativa).
Mas eu?
O que ganho?
Conforto.
Ilusão. Esperança sem esforço.
E talvez,
só talvez, o direito de chamar isso de fé.
Da Janela
do Meu Olhar, vejo duas realidades simultâneas: a vida que estou vivendo e a
vida que visualizo. A questão que fica é: qual delas é real? E será que
importa?
Até Breve...
J.L.I Soáres
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