sexta-feira, 24 de março de 2023

QUANDO A SOLITUDE É INTERNALIZADA

 A transição do vazio assustador para a plenitude da própria companhia.

    Caro Leitor;

Existe um abismo semântico e existencial que separa a solidão da solitude. Enquanto a primeira é a dor da ausência do outro, a segunda é a glória da presença de si mesmo. No entanto, o verdadeiro marco de maturidade não ocorre quando se visita a solitude esporadicamente, mas quando ela é internalizada.

    Quando a solitude deixa de ser um estado passageiro e se torna a estrutura óssea da psique, a dinâmica da vida se altera profundamente.

    Ao internalizar a solitude, o indivíduo rompe com a dependência crônica de validação externa. O silêncio, antes temido como um eco de abandono, passa a ser percebido como um espaço fértil de criação e reequilíbrio. Nesse estágio, a busca desesperada por preencher lacunas com ruídos, relacionamentos rasos ou distrações efêmeras cessa. Descobre-se que a própria companhia não é um "plano B" para uma noite de sábado, mas a companhia mais leal e constante que se pode ter.

    O paradoxo da solitude internalizada é que ela não isola; ela qualifica. Quem aprende a ser pleno sozinho, desaprende a aceitar qualquer coisa apenas para não ficar só. As relações deixam de ser pautadas pela Necessidade ("eu preciso de você para não me sentir vazio") e passam a ser pautadas pela Escolha ("eu sou inteiro, mas escolho transbordar com você"). A porta de entrada da vida torna-se mais seletiva. O outro deixa de ser um salvador ou um tapa-buraco e assume seu real papel: um convidado ilustre na casa de alguém que já está feliz habitando a si mesmo.

    Internalizar a solitude é construir um santuário portátil. Não importa o caos externo, as oscilações do mercado ou as decepções mundanas; existe um lugar de paz inabalável para onde se pode voltar a qualquer momento. É a compreensão definitiva de que a felicidade não é algo que se importa de fora para dentro, mas uma substância que se cultiva no solo da própria alma. Quando a solitude é internalizada, o medo de perder o outro desaparece, pois se sabe que a única pessoa que não se pode perder, jamais, é a si mesmo. A Paz deve ser Inegociável

Em seus momentos de silêncio, você sente o desespero de quem foi abandonado ou a paz de quem finalmente se encontrou? A sua casa interna é um lugar onde você gosta de estar?

Até breve...

J.L.I Soáres

domingo, 5 de março de 2023

QUANDO A INTELIGÊNCIA VIRA ESCUDO:

O PERIGO DO "ESCORREGÃO ERUDITO"

Há uma ironia fina na jornada do autoconhecimento. Acreditamos que quanto mais livros lemos, mais cursos fazemos e mais conceitos espirituais dominamos, mais livres seremos. Mas, da janela do meu olhar, percebi que o excesso de conhecimento pode se tornar uma armadilha dourada.

Muitas vezes, a erudição sem honestidade radical não liberta. Ela apenas cria grilhões mais sofisticados.


Observei que o intelecto afiado é um excelente advogado de defesa para o nosso ego. Quando não queremos enfrentar uma mudança dolorosa ou assumir uma responsabilidade chata, nossa mente usa todo o seu repertório culto para construir um álibi perfeito. Em vez de admitirmos "estou com medo", dizemos que "estamos respeitando nosso tempo de maturação kármica". Em vez de dizermos "sou preguiçoso", dizemos que "estamos praticando o Wu Wei e a não-ação". É o que chamo de escorregão erudito. Usamos a verdade para mentir para nós mesmos. Construímos teses brilhantes apenas para justificar nossa estagnação.


Nesse cenário, surge o "falso profeta". Não é alguém lá fora gritando na praça, mas uma voz interna que se veste de sabedoria. Essa voz nos valida, nos conforta e nos diz que somos evoluídos demais para lidar com os problemas mundanos. A sedução dessa voz é perigosa porque ela imita a linguagem da luz, mas sua função é nos manter na sombra do conforto. Ela nos oferece respostas prontas para nos poupar da angústia da dúvida. E a verdadeira evolução, infelizmente, só acontece no desconforto da incerteza.


A grande virada acontece quando decidimos usar todo esse conhecimento acumulado como Espelho, e não como Escudo. O Escudo serve para nos defender da realidade, para rebater críticas e para nos esconder atrás de teorias. O Espelho, por outro lado, serve para nos mostrar exatamente quem somos, com todas as nossas rugas morais e incoerências. Saber muito não serve de nada se esse saber não descer da cabeça para o coração.

No fim das contas, somos apenas eternos aprendizes nesse teatro da existência. E talvez a maior sabedoria seja olhar para essas nossas desculpas elaboradas, rir da nossa própria astúcia em fugir da raia e, com bom humor, voltar a subir a escada da vida. Com menos teorias e mais pés no chão.

Você tem usado o seu conhecimento para se transformar de verdade ou apenas para criar explicações mais bonitas para continuar sendo exatamente quem você sempre foi?


Até breve...

J.L.I Soáres

Propósito

ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?

Caro Leitor; Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha mem...