O PERIGO DO "ESCORREGÃO ERUDITO"
Há uma ironia fina na jornada do autoconhecimento. Acreditamos que quanto mais livros lemos, mais cursos fazemos e mais conceitos espirituais dominamos, mais livres seremos. Mas, da janela do meu olhar, percebi que o excesso de conhecimento pode se tornar uma armadilha dourada.
Muitas vezes, a erudição sem honestidade radical não liberta. Ela apenas cria grilhões mais sofisticados.
Observei que o intelecto afiado é um excelente advogado de defesa para o nosso ego. Quando não queremos enfrentar uma mudança dolorosa ou assumir uma responsabilidade chata, nossa mente usa todo o seu repertório culto para construir um álibi perfeito. Em vez de admitirmos "estou com medo", dizemos que "estamos respeitando nosso tempo de maturação kármica". Em vez de dizermos "sou preguiçoso", dizemos que "estamos praticando o Wu Wei e a não-ação". É o que chamo de escorregão erudito. Usamos a verdade para mentir para nós mesmos. Construímos teses brilhantes apenas para justificar nossa estagnação.
Nesse cenário, surge o "falso profeta". Não é alguém lá fora gritando na praça, mas uma voz interna que se veste de sabedoria. Essa voz nos valida, nos conforta e nos diz que somos evoluídos demais para lidar com os problemas mundanos. A sedução dessa voz é perigosa porque ela imita a linguagem da luz, mas sua função é nos manter na sombra do conforto. Ela nos oferece respostas prontas para nos poupar da angústia da dúvida. E a verdadeira evolução, infelizmente, só acontece no desconforto da incerteza.
A grande virada acontece quando decidimos usar todo esse conhecimento acumulado como Espelho, e não como Escudo. O Escudo serve para nos defender da realidade, para rebater críticas e para nos esconder atrás de teorias. O Espelho, por outro lado, serve para nos mostrar exatamente quem somos, com todas as nossas rugas morais e incoerências. Saber muito não serve de nada se esse saber não descer da cabeça para o coração.
No fim das contas, somos apenas eternos aprendizes nesse teatro da existência. E talvez a maior sabedoria seja olhar para essas nossas desculpas elaboradas, rir da nossa própria astúcia em fugir da raia e, com bom humor, voltar a subir a escada da vida. Com menos teorias e mais pés no chão.
Você tem usado o seu conhecimento para se transformar de verdade ou apenas para criar explicações mais bonitas para continuar sendo exatamente quem você sempre foi?
Até breve...
J.L.I Soáres
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