sexta-feira, 22 de novembro de 2024

AS MÁSCARAS QUE REVELAM E AS MÁSCARAS QUE ESCONDEM

Caro leitor;

Existe um paradoxo fascinante no teatro da existência. Passamos a vida tentando arrancar as máscaras dos outros em busca da verdade, mas esquecemos que, dependendo de quem a usa, a máscara pode servir para propósitos opostos.

Da janela do meu olhar, ecoa uma máxima que carrego como bússola para entender o sagrado e o profano: 

Jesus usa máscaras para se revelar; o homem, para se esconder.

Quando mergulhamos na mitologia e na própria história das religiões, percebemos que o Infinito é vasto demais para caber na nossa compreensão limitada. O Mistério precisa de um rosto, de uma forma, de uma história. Por isso, o Divino veste "máscaras". Seja através das parábolas de Cristo, dos deuses do Olimpo ou dos arquétipos ancestrais, o Sagrado utiliza essas formas não para nos enganar, mas como pontes pedagógicas. A máscara divina é um ato de amor. É o Infinito traduzindo a si mesmo para a linguagem do finito, permitindo que nós, meros mortais, possamos vislumbrar a verdade sem sermos cegados pela luz absoluta. Nesse caso, a máscara é um portal de revelação.


Em contrapartida, observemos o nosso comportamento cotidiano. Com uma frequência desconcertante, nós fazemos o movimento inverso. Enquanto o Divino se veste para ser visto, nós nos vestimos para desaparecer.

As máscaras que usamos socialmente não são pontes, são barricadas. Criamos personas de força para esconder o medo. Criamos máscaras de intelecto para esconder a insegurança. Usamos o verniz da perfeição para ocultar nossas sombras e vulnerabilidades. O homem veste a máscara porque teme que, se for visto em sua nudez de alma, não será amado. Usamos o disfarce para manipular, para sermos aceitos ou para fugir da responsabilidade intransferível de sermos quem somos.


A grande jornada da consciência talvez seja aprender a diferenciar esses dois tipos de véus. Precisamos da sabedoria para reconhecer as máscaras simbólicas que a vida nos oferece como ensinamento e, ao mesmo tempo, ter a coragem de despir as nossas próprias máscaras defensivas.

Evoluir é transitar do esconderijo para a transparência. É permitir que nossas expressões e papéis no mundo deixem de ser muros e passem a ser vitrais. Quando alcançamos esse estado, nossa máscara não esconde mais a nossa essência; ela a deixa passar através dela. Com o passar dos anos, aprendi que em tudo a vida me inspira, inclusive nas incongruências. E foi ao aceitar olhar para essas máscaras, sem julgamento mas com lucidez, que aprendi a transformar a dureza da existência em poesia. Afinal, a poesia nada mais é do que a alma despida dançando no papel.

As máscaras que você usa hoje servem para traduzir a sua verdade para o mundo ou apenas para proteger você de ser visto como realmente é?

Até breve...

J.L.I Soáres


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Apatia, Autossabotagem ou Anestesia

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

O ETERNO DESAGUAR DE OCEANOS EM PLANÍCIES E MONTANHAS

Sobre a doação que flui, o encontro com o outro e a arte de se doar 

Assim como a água do oceano, a doação de sentimentos, de energia, de tempo, flui de nós para o mundo. Ela busca um lugar para desaguar, para tocar, para se manifestar. Não exige que a montanha se torne oceano em troca; apenas flui. A doação genuína, em sua forma mais pura, 'DA JANELA DO MEU OLHAR', nasce de uma plenitude interior. Ela é um transbordar. O amor  não exige reciprocidade, Se há exigência, há uma "paga", uma "condição", e não o fluir livre do sentimento. Isso é um ato de liberdade e de autenticidade. O oceano não se esgota ao desaguar; ele se renova em seu próprio ciclo. Da mesma forma, quem doa de um lugar de plenitude não se sente esvaziado se não houver um retorno imediato ou esperado. É certo que, cada um vive sua própria jornada e possui seus próprios rios e secas e o encontro com o "Terreno" do Outro, com as Planícies ou Montanhas podem por vezes nos frustrar do que almejamos para nossas expectativas nas trocas amorosas pois nem todo terreno está preparado para absorver a mesma quantidade de água; nem toda pessoa está emocionalmente disponível ou disposta à reciprocidade no mesmo nível ou no mesmo momento.

Da mesma forma como a água do nosso oceano emocional deveria desaguar em terrenos disponíveis, há muitos rios que deságuam em oceanos dispostos à entregas genuínas, e não pode não se tratar de uma questão de ensinar o como, mas sim adequação da fluidez. Entendem a dinâmica? Por vezes tendemos a julgar o quão injusta é a vida ao nosso oceano, mas não cegamos o olhar aos rios que possivelmente estejam dispostos a se unir em nossa correnteza emocional, estarmos atentos a estas nuances é importante, a vida nos mostra através das vivências que à vezes, quer seja oceano, quer seja rio, chegue à determinada planície ou montanha, o solo destas podem não estar precisando deste nutriente no momento, ou até mesmo não esteja preparada para suportar tamanha onda de entrega, até mesmo, se cultivando algum "sistema" específico, para melhor aproveitamento e crescimento, é um solo mais seco que propiciará esse resultado.  Sob os véus da noite, é que estão os "orvalhos" de cada pessoa não sabemos nem das nossas "pororocas" internas, dadas as flutuações emocionais que vivenciamos, o que nos dificulta essa compreensão no outro? Talvez ela não esteja no "ciclo" de doar ou receber da mesma forma. Há quem simplesmente tenha uma forma diferente de expressar afeto ou gratidão. Sem mencionar os ciclos de defesa, ora, o "terreno" do outro pode ter barreiras invisíveis que impedem a água de fluir.

É importante observarmos a sutileza da linha em que a doação se torna uma "troca" seja de afeto, de atenção, de reconhecimento, ela perde sua pureza. Entendo que é deveras desafiador o ato de doar sem esperar e a autonomia da Alma no exercício do ato de desapego  na doação se apresenta como uma virtude quase que transcendental, pois continuar a desaguar sem condicionar o fluxo à forma do terreno exige um profundo autoconhecimento e um desapego do resultado que os corações desejosos de afeto mais que sangue para bombear ao corpo suplicam...Fato é Caríssimo leitor, é que a nossa alma (nosso "oceano") não depende da resposta externa para ser vasta e cheia. A doação é um ato de liberdade pessoal, não de barganha. E essa compreensão nos liberta da frustração e do ressentimento nos permitindo que essa nossa disposição de nos doarmos se mantenha em sua plenitude, sem nos esvairmos na expectativa de um retorno que pode não vir. 

'DA JANELA DO MEU OLHAR' O equilíbrio e a gratidão no desaguar reside na beleza do fluxo contínuo, assimilar essa premissa e nos permitirmos sentir, tão somente sentir, por sermos capazes de sentir amor por si só já seria a paga de existirmos com essa essência tão Sublime quanto opressora, pois a vida é um eterno desaguar e absorver, em diferentes ritmos e formas. A nossa riqueza está em termos um oceano interior capaz de transbordar, independentemente da forma como a água é recebida ou não! E carregar esse entendimento nos fortalece sem a necessidade de afirmarmos, principalmente, a famigerada frase que não faz mais que traduzir uma frustração de um ego não lapidado com o desejo de equivalência que jamais será alcançada: "Foi livramento". PS:  Quem garante que na verdade foram os "astros" livrando aquela planície ou montanha do tsunami devastador que somos nós?


E Da Janela do seu Olhar?

E você, como tem vivenciado o seu próprio desaguar? 

Quais rios e oceanos fluem da sua alma sem exigir que o terreno se transforme em espelho?

Até breve...

J.L.I Soáres

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

APATIA, AUTOSSABOTAGEM OU ANESTESIADA ANTE AO INDIGESTO MENU DA EXISTÊNCIA?

    É Caro Leitor...

    A vida, por vezes, nos serve um banquete que embrulha o estômago. Desafios financeiros, desencontros afetivos, burocracias infinitas e a sensação de que o relógio corre mais rápido do que as nossas pernas. Diante desse "indigesto menu da existência", espera-se de nós uma reação visceral: choro, grito, luta, desespero. Mas, da janela do meu olhar, tenho observado um fenômeno curioso, quase silencioso, ocorrendo aqui dentro.

    Diante do caos, sinto uma estranha neutralidade. Não é a paz iluminada dos monges, nem a felicidade ingênua dos tolos. É algo cinza, morno, estável. E isso me assusta tanto quanto me acalma. Será que estou finalmente aprendendo a fluir, ou estou apenas anestesiada? Será maturidade ou uma autossabotagem disfarçada de calma?

    Este texto não traz respostas definitivas, mas um convite para observarmos juntos essa fronteira tênue entre a desistência e a sabedoria.

    Houve um tempo em que eu era a guerreira que lutava contra a correnteza. Diante de portas fechadas, eu esmurrava. Diante de negativas, eu argumentava. Gastei rios de energia vital tentando dobrar a realidade à minha vontade, acreditando que o esforço hercúleo era a única moeda de troca para o sucesso. O resultado? Exaustão e, muitas vezes, o mesmo "não" estampado na cara.

    Sempre soube, pela minha própria cartografia astral, que tenho desafios com o Elemento Ar, a capacidade de desapego, de racionalidade fria, de voar acima do problema sem se misturar a ele. O que antes eu via como um "bloqueio", hoje sinto que está se transmutando em defesa.

    E aqui reside o maior paradoxo: mesmo com o cenário externo imperfeito, sinto uma gratidão genuína. Como posso estar grata se a conta bancária não é a dos sonhos? Como posso estar em paz se o futuro é incerto? Porque a neutralidade tirou a fumaça da frente dos meus olhos. Ela me permite ver que, apesar do boleto, tenho saúde. Apesar da solidão momentânea, tenho a companhia luxuosa da minha criatividade. Tenho livros, tenho acesso ao mundo, tenho comida na geladeira e tenho a mim mesma.

    Recentemente, algo mudou. Diante de situações que antes me fariam perder o sono, a estagnação de um projeto, o silêncio de alguém, a conta que não fecha, percebi que parei de nadar contra. Entendi que o fluxo existe e que ele é soberano. Essa "apatia" aparente talvez seja, na verdade, a rendição do ego que cansou de brincar de Deus. Parei de tentar controlar as marés e decidi apenas boiar. E, por incrível que pareça, nessa ausência de reação histérica, encontrei um silêncio habitável.

    A neutralidade que sinto hoje não é falta de emoção; é preservação. É a capacidade de olhar para o problema e dizer: "Isso está acontecendo, é desagradável, mas eu não vou morrer por isso agora". É um desapego ao resultado. Eu faço a minha parte, planto a semente, escrevo o livro, envio a proposta... mas não fico mais sentada na varanda esperando o carteiro, roendo as unhas até a cutícula. Essa postura cria uma película protetora. O caos está lá fora, o "menu indigesto" está na mesa, mas eu escolho não engolir o veneno da ansiedade junto com a refeição.

Essa liberdade interna de encontrar valor no "agora", mesmo quando o "agora" é difícil, é o verdadeiro triunfo. A "apatia" se revela, então, como uma Resiliência Silenciosa. Não preciso estar eufórica para estar bem. Posso estar apenas... neutra. E isso já é uma revolução.

Não, eu não alcancei o Nirvana. Talvez amanhã eu acorde chorando ou gritando com o mundo. Mas hoje, escolho acreditar que essa neutralidade não é doença, é remédio. É a alma aprendendo a economizar combustível para as batalhas que realmente importam. Se é apatia, autossabotagem ou sabedoria, o tempo dirá. Por enquanto, sigo observando, sentada no olho do furacão, estranhamente em paz.

E você, diante do indigesto menu da existência, como sua alma se posiciona? Há neutralidade, apatia ou uma nova forma de resiliência que pulsa em seu Ser?

Até breve...

J.L.I Soáres

Propósito

A ESCULTURA DO AFETO

A Lucidez 'Per Via Di Levare' e a Nudez da Essência Vivemos a era do torpor crônico. Na fenomenologia dos encontros contemporâneos, ...