É Caro Leitor...
A vida, por vezes, nos serve um banquete que embrulha o estômago. Desafios financeiros, desencontros afetivos, burocracias infinitas e a sensação de que o relógio corre mais rápido do que as nossas pernas. Diante desse "indigesto menu da existência", espera-se de nós uma reação visceral: choro, grito, luta, desespero. Mas, da janela do meu olhar, tenho observado um fenômeno curioso, quase silencioso, ocorrendo aqui dentro.
Diante do caos, sinto uma estranha neutralidade. Não é a paz iluminada dos monges, nem a felicidade ingênua dos tolos. É algo cinza, morno, estável. E isso me assusta tanto quanto me acalma. Será que estou finalmente aprendendo a fluir, ou estou apenas anestesiada? Será maturidade ou uma autossabotagem disfarçada de calma?
Este texto não traz respostas definitivas, mas um convite para observarmos juntos essa fronteira tênue entre a desistência e a sabedoria.
Recentemente, algo mudou. Diante de situações que antes me fariam perder o sono, a estagnação de um projeto, o silêncio de alguém, a conta que não fecha, percebi que parei de nadar contra. Entendi que o fluxo existe e que ele é soberano. Essa "apatia" aparente talvez seja, na verdade, a rendição do ego que cansou de brincar de Deus. Parei de tentar controlar as marés e decidi apenas boiar. E, por incrível que pareça, nessa ausência de reação histérica, encontrei um silêncio habitável.
A neutralidade que sinto hoje não é falta de emoção; é preservação. É a capacidade de olhar para o problema e dizer: "Isso está acontecendo, é desagradável, mas eu não vou morrer por isso agora". É um desapego ao resultado. Eu faço a minha parte, planto a semente, escrevo o livro, envio a proposta... mas não fico mais sentada na varanda esperando o carteiro, roendo as unhas até a cutícula. Essa postura cria uma película protetora. O caos está lá fora, o "menu indigesto" está na mesa, mas eu escolho não engolir o veneno da ansiedade junto com a refeição.
Essa liberdade interna de encontrar valor no "agora", mesmo quando o "agora" é difícil, é o verdadeiro triunfo. A "apatia" se revela, então, como uma Resiliência Silenciosa. Não preciso estar eufórica para estar bem. Posso estar apenas... neutra. E isso já é uma revolução.
Não, eu não alcancei o Nirvana. Talvez amanhã eu acorde chorando ou gritando com o mundo. Mas hoje, escolho acreditar que essa neutralidade não é doença, é remédio. É a alma aprendendo a economizar combustível para as batalhas que realmente importam. Se é apatia, autossabotagem ou sabedoria, o tempo dirá. Por enquanto, sigo observando, sentada no olho do furacão, estranhamente em paz.
E você, diante do indigesto menu da existência, como sua alma se posiciona? Há neutralidade, apatia ou uma nova forma de resiliência que pulsa em seu Ser?
Até breve...
J.L.I Soáres
Nenhum comentário:
Postar um comentário