terça-feira, 7 de janeiro de 2025

QUANDO A FÉ É BENGALA E NÃO BÚSSOLA:

  PODEMOS NOS ESCONDER MAS CONTINUAREMOS PERDIDOS

    Caro Leitor, você conhece a linha tênue, quase invisível, que separa a religiosidade saudável da fuga da realidade? 

    Muitas vezes, enchemos a boca para dizer que temos muita fé, mas, da janela do meu olhar, o que vejo não é uma busca por Deus, é uma busca por anestesia.

    Transformamos a espiritualidade em um esconderijo sofisticado. É mais fácil dizer "foi Deus quem quis" do que admitir "eu não tive coragem de fazer diferente". É mais confortável orar pedindo livramento do que levantar e sair da situação que nos aprisiona.

    Nesse cenário, a fé deixa de ser uma Bússola, aquele instrumento magnífico que aponta o Norte, mas exige que você mova as pernas para chegar lá, e torna-se uma Bengala.

    A bengala serve para apoiar o peso que não suportamos carregar. Ela é útil na convalescença, sim. O problema é quando decidimos viver mancos emocionalmente porque a bengala é confortável. Usamos dogmas, rituais e frases feitas como muletas para não enfrentar nossos abismos. É a Bengala e o Alibi Divino.

"Deus proverá" vira desculpa para a inércia profissional
"Orai pelos que vos perseguem" vira justificativa para aceitar abusos e não impor limites.

    Escondemo-nos atrás do altar, acreditando que a "proteção divina" é uma redoma de vidro que nos isenta da vida real. Mas a verdade é implacável: podemos nos esconder atrás de bíblias, terços ou mantras, mas se não encararmos nossas sombras, continuaremos perdidos dentro da própria casa.

    A fé madura, por outro lado, é Bússola. A bússola não caminha por você. Ela não aplana a montanha, nem seca o pântano. Ela apenas diz: "O sentido é por ali". O resto, o suor, a escalada, o medo e a superação, é com você. Quem usa a fé como bússola não pede para que a tempestade pare; pede sabedoria para navegar o barco. Não usa Deus como escudo para se esconder do mundo, mas como mapa para desbravá-lo.

    A espiritualidade real não serve para nos tirar da realidade, mas para nos dar lucidez dentro dela. Enquanto usarmos o sagrado como bengala para nossa vitimização, continuaremos estagnados no mesmo lugar, apenas recitando orações diferentes. É hora de largar o apoio, olhar para a bússola e, finalmente, dar o primeiro passo. 

Caríssimo leitor;

Agora olhe para a sua vida hoje: a sua fé tem servido para te manter confortável onde você está (bengala) ou tem te desafiado a ir para lugares onde você nunca foi (bússola)?

Até breve...

J.L.I Soáres

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