E a miséria a estender a mão
Não falo apenas da miséria social, visível e doída, que pede o pão físico. Falo da miséria existencial que nós, "fiéis", carregamos escada acima, escondida sob roupas de domingo e semblantes piedosos.
Ah... o Ser Humano, tão falível e necessitado por depositar (ou transferir) a autorresponsabilidade no outro através da Fé. E esta que vos fala não só se inclui, mas mergulha nessa prática também! Temos a necessidade atávica de buscar em referências externas, em Divindades, a força necessária para seguirmos em frente e enfrentarmos os nossos desafios.
Mas, da janela do meu olhar, pergunto-me: até onde isso é Devoção e onde começa a Terceirização?
O profano sobe os degraus quando transformamos o Sagrado em um "Balcão de Negócios". Subimos as escadas não para nos transformar, mas para pedir que a Divindade resolva o caos que nós mesmos criamos.
Pedimos prosperidade, mas não temos coragem de trabalhar a nossa ambição.
Pedimos amor, mas não limpamos o nosso próprio narcisismo.
Pedimos paz, mas nos recusamos a perdoar o vizinho.
Essa é a "miséria" que estende a mão dentro de nós. Somos mendigos espirituais querendo que Deus assine a promissória das nossas escolhas malfeitas. Queremos o milagre, mas rejeitamos a disciplina da mudança.
Reconhecer essa fragilidade não é pecado; é humanidade. Eu também busco o colo do Pai quando o mundo pesa. Eu também quero acreditar que existe uma força maior que vai "dar um jeito" quando perco o controle. Porém, a maturidade espiritual chega quando paramos de subir os degraus para entregar a mochila pesada para Deus carregar, e passamos a subir para pedir ombros mais fortes para carregá-la nós mesmos.
O Sagrado não existe para nos isentar da vida, mas para nos capacitar a vivê-la. Que possamos subir as escadarias não como crianças mimadas cobrando presentes, mas como aprendizes dispostos a fazer a lição de casa. Afinal, Deus não faz por nós; Ele faz através de nós.
Na sua última oração, você foi ao Sagrado para buscar força para agir, ou foi apenas pedir que Ele agisse no seu lugar? A sua fé é combustível ou muleta?
Reflitamos....Até breve.
J.L.I Soáres
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