quarta-feira, 30 de abril de 2025

ATÉ NAS ESCADARIAS DO SAGRADO O PROFANO SOBE OS DEGRAUS

 E a miséria a estender a mão

        Há uma cena clássica em qualquer templo do mundo, seja uma catedral gótica ou uma pequena capela de bairro: do lado de fora, a pedra fria, o mármore polido, a promessa da elevação. Mas, invariavelmente, ali mesmo, nos degraus de acesso, a miséria estende a mão.

    Não falo apenas da miséria social, visível e doída, que pede o pão físico. Falo da miséria existencial que nós, "fiéis", carregamos escada acima, escondida sob roupas de domingo e semblantes piedosos.

    Ah... o Ser Humano, tão falível e necessitado por depositar (ou transferir) a autorresponsabilidade no outro através da Fé. E esta que vos fala não só se inclui, mas mergulha nessa prática também! Temos a necessidade atávica de buscar em referências externas, em Divindades, a força necessária para seguirmos em frente e enfrentarmos os nossos desafios. 

Mas, da janela do meu olhar, pergunto-me: até onde isso é Devoção e onde começa a Terceirização?

    O profano sobe os degraus quando transformamos o Sagrado em um "Balcão de Negócios". Subimos as escadas não para nos transformar, mas para pedir que a Divindade resolva o caos que nós mesmos criamos.

Pedimos prosperidade, mas não temos coragem de trabalhar a nossa ambição.

Pedimos amor, mas não limpamos o nosso próprio narcisismo.

Pedimos paz, mas nos recusamos a perdoar o vizinho.

    Essa é a "miséria" que estende a mão dentro de nós. Somos mendigos espirituais querendo que Deus assine a promissória das nossas escolhas malfeitas. Queremos o milagre, mas rejeitamos a disciplina da mudança.

    Reconhecer essa fragilidade não é pecado; é humanidade. Eu também busco o colo do Pai quando o mundo pesa. Eu também quero acreditar que existe uma força maior que vai "dar um jeito" quando perco o controle. Porém, a maturidade espiritual chega quando paramos de subir os degraus para entregar a mochila pesada para Deus carregar, e passamos a subir para pedir ombros mais fortes para carregá-la nós mesmos.

    O Sagrado não existe para nos isentar da vida, mas para nos capacitar a vivê-la. Que possamos subir as escadarias não como crianças mimadas cobrando presentes, mas como aprendizes dispostos a fazer a lição de casa. Afinal, Deus não faz por nós; Ele faz através de nós.

Na sua última oração, você foi ao Sagrado para buscar força para agir, ou foi apenas pedir que Ele agisse no seu lugar? A sua fé é combustível ou muleta?

Reflitamos....Até breve.

J.L.I Soáres

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