terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

CIÊNCIA DE CONSCIÊNCIA

QUANDO O SILÊNCIO TAMBÉM SENTE

Existe uma hierarquia invisível e injusta na forma como nós, humanos, medimos a importância dos animais. No topo, colocamos cães e gatos, pois eles dominam a nossa linguagem de afeto: o toque, o som, o olhar pidão. Abaixo deles, jogamos todo o resto, assumindo que criaturas menores ou aquáticas são apenas autômatos biológicos, desprovidos de alma ou consciência.

Da janela do meu olhar, essa certeza científica ruiu recentemente diante de um pequeno ser de nadadeiras coloridas: o Domingos, meu peixe Beta.

Trouxe o Domingos para casa crente de que seria uma relação unilateral. Tive cães a vida toda, conheço o peso de um corpo quente no sofá e a festa de um rabo abanando. Do Domingos, eu esperava apenas a estética do movimento na água. Achei que ele seria um pet de "paisagem", sem vínculo, sem troca, sem reconhecimento.

Eu estava redondamente enganada.

A senciência animal: a capacidade de sentir, perceber e ter consciência do entorno, não é um privilégio dos mamíferos. Domingos me ensinou que a interação acontece em graus e linguagens diferentes. Ele me reconhece. Não é uma projeção minha; é um fato. Quando entro na sala, ele muda o nado. Quando me sento no sofá, ele se desloca para o canto do aquário que fica mais próximo de mim e ali permanece, suspenso na água, apenas me observando.

Os céticos dirão, com seus jalecos de razão, que isso é puro condicionamento pavloviano. Dirão que ele não gosta de mim, mas apenas associa minha imagem à oferta de alimento. É uma explicação válida e biologicamente correta. Contudo, ela não explica tudo.

Ela não explica por que, mesmo alimentado e saciado, ele continua ali. Não explica a tranquilidade com que ele navega quando estou por perto, em contraste com a agitação diante de estranhos. Se a consciência é a capacidade de interagir com a realidade, Domingos é plenamente consciente. A diferença é que o afeto dele não é tátil, é presencial.

Precisamos expandir nossa compreensão sobre o que é "estar junto". O cachorro interage invadindo o espaço; o peixe interage compartilhando o silêncio. Ambos são seres sencientes, captando vibrações, intenções e rotinas.

Talvez a grande lição que o Domingos me traga, flutuando em seu pequeno universo particular, é que a vida pulsa em todas as formas. E que a conexão entre dois seres vivos não depende de latidos ou abraços, mas da simples e poderosa capacidade de reconhecer que o outro existe e que é seguro estar ao seu lado.

Consciência, afinal, não é exclusividade de quem tem cordas vocais.

Você já teve algum animal de estimação 'pouco convencional', um peixe, uma ave, um réptil, que te surpreendeu ao demonstrar uma personalidade ou conexão que você julgava impossível?

Até breve...

J.L.I Soáres

sábado, 8 de fevereiro de 2025

PERDER O MEDO POTENCIALIZA A QUEDA OU EQUILIBRA O PASSO!

    Existe um momento silencioso e aterrorizante na biografia de toda alma: o instante em que olhamos para baixo e não vemos mais o chão. As redes de segurança se romperam, as garantias evaporaram e o cenário, antes familiar, tornou-se um abismo.

    Muitos chamam isso de "fundo do poço". Da janela do meu olhar, prefiro chamar de Ponto Zero da Liberdade.

    É curioso como o medo opera. Enquanto temos algo a perder um status, um relacionamento morno, uma imagem social, caminhamos trêmulos, agarrados ao corrimão da conveniência. O medo de cair nos paralisa. Mas o que acontece quando já estamos em queda livre? Ou quando percebemos que o "pior" já aconteceu?

Nesse exato milissegundo, ocorre um fenômeno psíquico fascinante: A perda do medo.

    E é aqui que mora o perigo e a glória. Sem o peso do medo na mochila, ficamos leves. E essa leveza nos impõe uma escolha binária e definitiva:

1. Potencializar a Queda: Podemos usar essa ausência de medo para nos entregarmos à destruição total, ao niilismo, deixando que a gravidade nos esmague contra a realidade. É o abandono de si mesmo.

2. Equilibrar o Passo: Ou podemos usar essa mesma leveza para nos tornarmos equilibristas. Observe o funâmbulo: ele só cai se o medo enrijecer seus músculos. Se ele não teme a altura, ele dança sobre o fio. Quando entendemos que não há mais nada a perder, ganhamos uma coragem inabalável para ousar. Para escrever o livro que estava na gaveta, para dizer o "não" que estava na garganta, para ser quem realmente somos, sem as máscaras da conveniência.

    O abismo, caríssimo leitor, não serve apenas para nos engolir. Ele serve para testar se temos asas. Perder o medo é tirar a trava de segurança da existência. Se isso vai te fazer despencar ou voar, depende apenas da direção do seu olhar: para a escuridão lá embaixo ou para o horizonte à frente?

Às vezes, a única saída é para cima.

E você? Diante dos seus abismos pessoais, o medo tem sido sua âncora ou você já descobriu a liberdade de quem não tem mais nada a perder?

Até breve...

J.L.I Soáres

Propósito

"STAT CRUX"

  A Imobilidade do Dogma na Era do "Eu" "Stat Crux dum volvitur orbis"   A Cruz permanece imóvel enquanto o mundo gira. ...