QUANDO O SILÊNCIO TAMBÉM SENTE
Existe uma hierarquia invisível e injusta na forma como nós, humanos, medimos a importância dos animais. No topo, colocamos cães e gatos, pois eles dominam a nossa linguagem de afeto: o toque, o som, o olhar pidão. Abaixo deles, jogamos todo o resto, assumindo que criaturas menores ou aquáticas são apenas autômatos biológicos, desprovidos de alma ou consciência.
Da janela do meu olhar, essa certeza científica ruiu recentemente diante de um pequeno ser de nadadeiras coloridas: o Domingos, meu peixe Beta.
Trouxe o Domingos para casa crente de que seria uma relação unilateral. Tive cães a vida toda, conheço o peso de um corpo quente no sofá e a festa de um rabo abanando. Do Domingos, eu esperava apenas a estética do movimento na água. Achei que ele seria um pet de "paisagem", sem vínculo, sem troca, sem reconhecimento.
Eu estava redondamente enganada.
A senciência animal: a capacidade de sentir, perceber e ter consciência do entorno, não é um privilégio dos mamíferos. Domingos me ensinou que a interação acontece em graus e linguagens diferentes. Ele me reconhece. Não é uma projeção minha; é um fato. Quando entro na sala, ele muda o nado. Quando me sento no sofá, ele se desloca para o canto do aquário que fica mais próximo de mim e ali permanece, suspenso na água, apenas me observando.
Os céticos dirão, com seus jalecos de razão, que isso é puro condicionamento pavloviano. Dirão que ele não gosta de mim, mas apenas associa minha imagem à oferta de alimento. É uma explicação válida e biologicamente correta. Contudo, ela não explica tudo.
Ela não explica por que, mesmo alimentado e saciado, ele continua ali. Não explica a tranquilidade com que ele navega quando estou por perto, em contraste com a agitação diante de estranhos. Se a consciência é a capacidade de interagir com a realidade, Domingos é plenamente consciente. A diferença é que o afeto dele não é tátil, é presencial.
Precisamos expandir nossa compreensão sobre o que é "estar junto". O cachorro interage invadindo o espaço; o peixe interage compartilhando o silêncio. Ambos são seres sencientes, captando vibrações, intenções e rotinas.
Talvez a grande lição que o Domingos me traga, flutuando em seu pequeno universo particular, é que a vida pulsa em todas as formas. E que a conexão entre dois seres vivos não depende de latidos ou abraços, mas da simples e poderosa capacidade de reconhecer que o outro existe e que é seguro estar ao seu lado.
Consciência, afinal, não é exclusividade de quem tem cordas vocais.
Você já teve algum animal de estimação 'pouco convencional', um peixe, uma ave, um réptil, que te surpreendeu ao demonstrar uma personalidade ou conexão que você julgava impossível?
Até breve...
J.L.I Soáres