domingo, 8 de fevereiro de 2026

O DIVÃ E O ALTAR: A INFANTILIZAÇÃO DA FÉ E O ADOECIMENTO DO CLERO

Por que confundimos o Tribunal da Misericórdia com colo paterno e como o nosso narcisismo está levando sacerdotes ao burnout.

Caro Leitor;

Ao frequentarmos qualquer paróquia minimamente ativa, presenciaremos a fenomenologia da fila da confissão: dezenas de pessoas aguardando, um silêncio tenso e, lá dentro, um sacerdote que, hora após hora, absorve a miséria humana. Mas há algo de errado nessa equação. Não com a quantidade de pecados, a miséria humana é constante, mas com a natureza da demanda.


Tenho observado, tanto sob a ótica da Psique quanto da Teologia Moral, que transformamos o confessionário em um "Pronto-Socorro Emocional". O fiel moderno não entra ali apenas para acusar seus delitos contra a Lei Divina; ele entra buscando validação, alívio psíquico e, sobretudo, "colo". E é exatamente aqui que reside o perigo: ao confundir o Altar com o Divã, infantilizamos a nossa fé e adoecemos os nossos padres.

Freud explicaria esse fenômeno através do conceito de Transferência. Em uma sociedade de orfandade paterna (real ou simbólica), projetamos na figura do sacerdote a imagem do "Pai Herói" ou do "Pai Acolhedor" que nunca tivemos. O penitente infantilizado não quer um Juiz que o absolva (função ontológica do padre na Confissão); ele quer um Pai que diga: "Está tudo bem, a culpa não foi sua, o mundo é que foi mau com você". Isso não é busca por santidade; é busca por regressão uterina. Queremos voltar a ser crianças irresponsáveis no colo de alguém que representa Deus. 

Mas a Confissão é o Sacramento da maturidade. 

É o local onde você diz: "Eu fiz. Eu sabia. Eu errei. Eu assumo." Quando usamos o padre para validar nossas neuroses, estamos recusando o crescimento. O filósofo Byung-Chul Han descreve a "Sociedade do Cansaço", onde todos somos exploradores de nós mesmos. 

Mas o que dizer do clero?

O sacerdote é um homem que entregou sua vida para ser Alter Christus (Outro Cristo). Sua função primordial é salvar almas, consagrar a Eucaristia e perdoar pecados mortais. No entanto, nós o transformamos em um "terapeuta pro bono". Jogamos sobre ele fofocas paroquiais, angústias matrimoniais que deveriam ser tratadas em terapia de casal, e escrúpulos obsessivos que exigem medicação, não absolvição. O resultado? Sacerdotes exaustos, deprimidos e em burnout. Não porque "trabalham demais" para Deus, mas porque são drenados por demandas humanas que não lhes competem.

Exigimos que eles sejam psicólogos, assistentes sociais e pais substitutos, esquecendo que eles já têm o fardo mais pesado do mundo: a responsabilidade pelas nossas almas diante de Deus. Para estancar essa sangria, precisamos desenhar uma linha clara, fundamentada na Teologia e no bom senso:

Pecado (Matéria de Confissão): É uma escolha livre e consciente de romper com Deus. É um ato de vontade. Requer absolvição.

Angústia/Neurose (Matéria de Terapia): É um sentimento involuntário, um medo, uma tristeza ou uma ansiedade. Não é pecado "sentir" coisas ruins. Requer tratamento, escuta e elaboração.

Praticamos a "Fé Bumerangue" e nos tornamos "Penitentes iô-iô"

O confessionário trata a morte da alma. O consultório trata a dor da psique. Ir ao padre para curar ansiedade é como ir ao cardiologista para curar uma cárie. Você está no lugar errado, pedindo a cura errada, para o profissional errado. Em meus escritos e reflexões, muitas vezes sob a ótica da série "Da Janela do Meu Olhar", observo um subproduto tóxico dessa confusão: o vício na absolvição sem a virtude da contrição. Muitos fiéis vivem o que chamo de "Fé Bumerangue" (ou o fenômeno dos penitentes iô-iô): pecam durante a semana com a tranquilidade presunçosa de quem "zera o jogo" no domingo. Cria-se um ciclo vicioso onde o confessionário deixa de ser um local de conversão (metanoia) e vira apenas um gestor de culpa.

Existe uma armadilha piedosa usada para justificar essa falta de combate: "Eu me confesso toda semana porque sou pequeno, sou miserável e dependo totalmente de Deus." Soa bonito, soa humilde. Mas, muitas vezes, é apenas preguiça espiritual (acídia) disfarçada de piedade. Santo Agostinho, em suas Confissões, foi cirúrgico ao diagnosticar isso. Ele nos ensina que o problema do pecador não é apenas a ignorância, mas a vontade desordenada. Deus não nos dá a Graça para continuarmos rastejando na lama da "pequenez"; Ele nos dá a Graça para nos levantarmos.

A verdadeira humildade não é apenas dizer "eu não consigo"; é dizer "porque Deus está comigo, eu vou lutar para conseguir". A Teologia Clássica chama isso de Virtude da Temperança (o autodomínio).
Pecar contando com o perdão futuro não é confiança na misericórdia; é Pecado de Presunção. É tratar o Sangue de Cristo como detergente barato, ignorando o requisito básico da absolvição: o Firme Propósito de Emenda.

Enquanto usarmos o padre como muleta para nos esquivarmos do esforço real de mudança, nós não estaremos sendo "pequenos diante de Deus"; estaremos sendo infantis diante da vida. O confessionário é lugar de ressurreição, não de manutenção de cadáveres. Ser um fiel adulto significa entender que o padre não é uma muleta. Ele é um dispensador da Graça. Amar o sacerdócio não é apenas beijar a mão do padre ou dar presentes no Natal. Amar o sacerdócio hoje, neste século de narcisismo e carência, é ter a hombridade (e a feminilidade) de poupar o padre das nossas infantilidades.

A regra é simples: Se precisamos de 50 minutos para entender por que sentimos e o que sentimos: paguemos um psicólogo. Se precisamos de 3 minutos para confessar que matamos a Graça de Deus em nossa alma e queremos ressuscitá-la: busquemos um padre.

A fila da confissão diminuiria, a saúde dos padres melhoraria e, paradoxalmente, a nossa santidade aumentaria. Porque santo não é aquele que chora no colo do pai; é aquele que carrega a própria cruz logo atrás Dele. Reflitamos.

Até Breve... 

J.L.I Soáres

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