sexta-feira, 28 de março de 2025

RECALCULANDO A ROTA

 O Propósito Não é um Contrato Vitalício, é um Organismo Vivo

    Crescemos sob a tirania do "Grande Propósito". A sociedade nos vende a ideia de que a vocação é um contrato assinado aos dezoito anos, válido até o último suspiro, sem cláusula de rescisão. Mas a experiência humana, ah, essa teimosa!, nos revela uma verdade mais orgânica: o propósito não é uma estátua de pedra. Ele respira, amadurece e, muitas vezes, muda de endereço sem aviso prévio.

    "Da janela do meu olhar", confesso: sou uma pessoa "deliciosamente confusa". A minha própria biografia é um mapa cheio de rasuras. Comecei no Direito ("É isso!"), flertei com a Gastronomia (mas desisti pelos sábados ocupados), formei-me advogada e, com a carteira da OAB na mão, lá estava eu sentada nas cadeiras de Nutrição, tentando entender processos biológicos. Tive até um delírio de tentar Medicina, rapidamente curado quando meu intelecto de humanas pediu socorro.

Indecisão? Não. Expansão.

    Aprendi muito sobre essa fluidez observando meu filho. Em uma única semana, ele transitou entre ser dentista e skatista (o que achávamos genial, pois uma profissão consertaria os estragos da outra!). Ele quis ser cientista (analisamos pelos de cachorro no microscópio), quis ser músico, quis ser diplomata. E em cada fase, nós alimentamos essa curiosidade. Hoje, ele cursa Ciências da Computação, buscando uma profissão que "fale o mínimo possível com pessoas", o oposto da diplomacia! 

    Foi tempo perdido? Jamais. Como dizia minha mãe: "Nosso cérebro é um campo fértil". Tudo o que ele aprendeu compõe quem ele é hoje. A vocação não é uma linha reta; é uma colcha de retalhos.

    Vi essa mesma coragem em uma taróloga brilhante que acompanho. Ela largou uma carreira sólida no Marketing para viver na Índia, imersa nos ensinamentos de Osho. Voltou, tornou-se uma referência no Tarot e no Reiki. Parecia o "destino final". Mas a vida, em sua sabedoria mutável, a surpreendeu novamente: recentemente, ela voltou ao mundo corporativo.

    Ela falhou? Regrediu? Pelo contrário. Ela apenas obedeceu ao fluxo da vida. O propósito de servir e aprender continua o mesmo; apenas o cenário mudou.

    Precisamos normalizar a coragem de Recalcular a Rota. Não há vergonha em mudar de ideia, de carreira ou de sonho. O "lugar de paz" de hoje pode não ser o de amanhã, e está tudo bem. A única missão verdadeiramente inegável e vitalícia não é ser advogado, médico ou guru espiritual. A única missão é Viver,  com autenticidade, consciência e a liberdade de ser quem a gente é agora. É a nossa única missão perene...

Você está insistindo em um caminho apenas porque já investiu tempo demais nele, ou tem a coragem de admitir que a sua bússola interna já mudou de direção? Qual rota você precisa recalcular hoje?

Até breve...

J.L.I Soáres

Propósito

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