terça-feira, 17 de março de 2026

A ESCULTURA DO AFETO

A Lucidez 'Per Via Di Levare' e a Nudez da Essência

Vivemos a era do torpor crônico. Na fenomenologia dos encontros contemporâneos, a sociedade tornou-se dependente da embriaguez dionisíaca das paixões. Aplaudimos o caos emocional, a ansiedade vertiginosa e a perda de si mesmo como se fossem os únicos atestados válidos do "amor verdadeiro". Nessa terra de cegos inebriados, aquele que ousa manter os olhos abertos, o sujeito lúcido é frequentemente julgado pelo tribunal das idealizações. Somos chamados de insensíveis, calculistas, estátuas de mármore desprovidas de coração.

Mas há um equívoco ontológico e brutal nesse julgamento: a lucidez não é a morte do afeto; ela é a sua mais alta e rigorosa lapidação.

Para desvendar essa mecânica, é preciso abandonar a superfície e recorrer à estética da Renascença. Michelangelo Buonarroti, ao encarar um bloco de mármore bruto, afirmava que a sua obra não se dava pela adição de materiais, mas sim per via di levare,  pela via da subtração. O mestre florentino não "criava" a figura; ele acreditava que o anjo, a forma perfeita e essencial, já habitava o interior da pedra. O ofício do gênio consistia unicamente em usar o cinzel para golpear e retirar o excesso, libertando a verdade que ali jazia asfixiada.

Se transpusermos essa máxima para a arquitetura da psique humana, o bloco de pedra bruta é a nossa capacidade de amar quando sufocada pelo ego. A paixão desgovernada, essa embriaguez que a modernidade tanto cultua é o mármore em seu estado mais rústico e pesado. Ela é composta pelas nossas carências não curadas, pelo narcisismo de querer dominar o outro, pelas expectativas irreais e pelo medo paralisante do abandono. Quem ama na embriaguez joga sobre o parceiro uma tonelada de pedra, exigindo que o outro carregue o peso de suas próprias fantasias.

É aqui que a lucidez assume o papel do cinzel. E é inevitável traçarmos um paralelo silencioso com os princípios do Estoicismo. Os estóicos da antiguidade buscavam a ataraxia (a imperturbabilidade da alma) não através da supressão robótica dos sentimentos, mas pela capacidade de separar o que é da ordem da ilusão externa daquilo que compõe a nossa virtude interna. Sem defender dogmas ou julgar os excessos alheios, a lucidez toma de empréstimo essa sobriedade estóica para operar o seu corte.

Escolher a lucidez não é esfriar a própria carne. É golpear o mármore. A cada vez que o sujeito lúcido se recusa a entrar em um jogo de manipulação, ele retira uma lasca de idealização. A cada vez que ele não cede ao desespero diante do silêncio do outro, ele subtrai o peso da dependência emocional. Ele não está fugindo do amor; ele está retirando a poeira e o excesso de fantasia para investigar se, debaixo daquela confusão toda, existe realmente alguma essência que valha a pena ser vivida.

Quando me acusam de frieza por não me embriagar no banquete das emoções rasas, mal sabem que estou executando o trabalho mais excruciante do espírito. A lucidez exige a coragem de quebrar a própria ilusão. Dói ver a poeira de mármore caindo e perceber que o outro, muitas vezes, era apenas uma projeção nossa.

Contudo, o prêmio dessa subtração é a Soberania. A lucidez per via di levare nos ensina que o encontro real não precisa de espetáculos e nem de torpor. A verdadeira beleza das relações reside na nudez da essência: dois seres que, após quebrarem as próprias armaduras de pedra, conseguem finalmente enxergar, e sustentar, a humanidade um do outro.

Até breve...
J.L.I Soáres

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