A Lucidez 'Per Via Di Levare' e a Nudez da Essência
Vivemos a
era do torpor crônico. Na fenomenologia dos encontros contemporâneos, a
sociedade tornou-se dependente da embriaguez dionisíaca das paixões. Aplaudimos
o caos emocional, a ansiedade vertiginosa e a perda de si mesmo como se fossem
os únicos atestados válidos do "amor verdadeiro". Nessa terra de
cegos inebriados, aquele que ousa manter os olhos abertos, o sujeito lúcido é frequentemente julgado pelo tribunal das idealizações. Somos chamados de
insensíveis, calculistas, estátuas de mármore desprovidas de coração.
Mas há um
equívoco ontológico e brutal nesse julgamento: a lucidez não é a morte do
afeto; ela é a sua mais alta e rigorosa lapidação.
Para
desvendar essa mecânica, é preciso abandonar a superfície e recorrer à estética
da Renascença. Michelangelo Buonarroti, ao encarar um bloco de mármore bruto,
afirmava que a sua obra não se dava pela adição de materiais, mas sim per
via di levare, pela via da subtração. O mestre florentino não
"criava" a figura; ele acreditava que o anjo, a forma perfeita e
essencial, já habitava o interior da pedra. O ofício do gênio consistia
unicamente em usar o cinzel para golpear e retirar o excesso, libertando a
verdade que ali jazia asfixiada.
Se
transpusermos essa máxima para a arquitetura da psique humana, o bloco de pedra
bruta é a nossa capacidade de amar quando sufocada pelo ego. A paixão
desgovernada, essa embriaguez que a modernidade tanto cultua é o mármore em
seu estado mais rústico e pesado. Ela é composta pelas nossas carências não
curadas, pelo narcisismo de querer dominar o outro, pelas expectativas irreais
e pelo medo paralisante do abandono. Quem ama na embriaguez joga sobre o
parceiro uma tonelada de pedra, exigindo que o outro carregue o peso de suas
próprias fantasias.
É aqui que a
lucidez assume o papel do cinzel. E é inevitável traçarmos um paralelo
silencioso com os princípios do Estoicismo. Os estóicos da antiguidade buscavam
a ataraxia (a imperturbabilidade da alma) não através da supressão
robótica dos sentimentos, mas pela capacidade de separar o que é da ordem da
ilusão externa daquilo que compõe a nossa virtude interna. Sem defender dogmas
ou julgar os excessos alheios, a lucidez toma de empréstimo essa sobriedade
estóica para operar o seu corte.
Escolher a
lucidez não é esfriar a própria carne. É golpear o mármore. A cada vez que o
sujeito lúcido se recusa a entrar em um jogo de manipulação, ele retira uma
lasca de idealização. A cada vez que ele não cede ao desespero diante do
silêncio do outro, ele subtrai o peso da dependência emocional. Ele não está
fugindo do amor; ele está retirando a poeira e o excesso de fantasia para
investigar se, debaixo daquela confusão toda, existe realmente alguma essência
que valha a pena ser vivida.
Quando me
acusam de frieza por não me embriagar no banquete das emoções rasas, mal sabem
que estou executando o trabalho mais excruciante do espírito. A lucidez exige a
coragem de quebrar a própria ilusão. Dói ver a poeira de mármore caindo e
perceber que o outro, muitas vezes, era apenas uma projeção nossa.
Contudo, o
prêmio dessa subtração é a Soberania. A lucidez per via di levare nos
ensina que o encontro real não precisa de espetáculos e nem de torpor. A
verdadeira beleza das relações reside na nudez da essência: dois seres que,
após quebrarem as próprias armaduras de pedra, conseguem finalmente enxergar, e sustentar, a humanidade um do outro.
Até breve...
J.L.I Soáres
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