sexta-feira, 30 de maio de 2025

OS PALCOS DA EVOLUÇÃO

 As performances da iluminação e a autenticidade da fé em nossa jornada de autoconsciência

Como andarilhos curiosos em meio às múltiplas vias de desenvolvimento pessoal e espiritual, temos a oportunidade de observar dinâmicas singulares. É como se a busca pela autoconsciência se desdobrasse em um grande palco, onde a complexidade da psique humana e os desafios do despertar se revelam em atos, por vezes, curiosos e quase teatrais. Nessas arenas, a distinção entre a forma e a essência do processo pode se tornar sutil, mas é crucial para quem busca a verdade.

Em alguns desses ambientes, observamos uma dualidade intrigante nos papéis. De um lado, surgem instrutores e líderes com uma persona que por vezes beira o transcendental. Com um olhar que se pretende 'cristalino', uma postura serena e uma voz que parece embalar a alma, eles se apresentam como faróis de sabedoria, personificando uma compreensão e uma paz quase etérea. É um 'ar' de quem detém o mapa da iluminação, projetando uma imagem de pura 'luz' e compaixão.

Do outro lado do palco, encontramos os alunos, os 'buscadores', que, em uma condição de vulnerabilidade, por vezes se posicionam em um 'jardim de infância' espiritual, na expectativa de serem guiados pela mão rumo a uma verdade absoluta. Há uma entrega, sim, mas também a esperança de que a transformação venha de fora, de que a 'chave da iluminação' lhes seja entregue sem o próprio labor. Essa dicotomia entre o 'mestre' idealizado e o 'aluno' que se infantiliza cria um terreno fértil para projeções e autoengano coletivo. Uma dinâmica que, 'DA JANELA DO MEU OLHAR', nos convida a indagar: será que a busca pela autenticidade se manifesta mais como performance do que como uma transformação profunda e integrada do Ser?

A vivência nos confronta com a distinção entre forma e essência, especialmente no que tange à fé aplicada. Observamos cenas que se repetem e que provocam uma reflexão sobre o sentido que damos ao 'templo' e à 'santidade'. Pessoas em situação de vulnerabilidade buscam auxílio nas escadarias das igrejas, vendo o templo como um ponto estratégico para a subsistência, não um local para a súplica divina. Isso nos lembra que a essência do 'templo' transcende as paredes físicas; ela reside em nós e, em especial, no cuidado com o outro.

A questão da vestimenta é outro exemplo dessa dualidade. Há quem se recuse a adentrar um espaço sagrado por não estar com o traje 'apropriado', perdendo a oportunidade de um momento de prece. Qual fé é mais autêntica: a que se prende à forma ou a que, talvez sem o 'traje ideal', vive a essência da compaixão? A busca por uma 'roupagem teatral' ou uma performance de santidade pode, por vezes, ofuscar a beleza de uma fé mais simples, mais nua, mais real, que se manifesta nos atos de caridade e na compaixão que se estende para além dos rituais. É o reconhecimento de que a verdade se manifesta sem necessidade de exibicionismo.

Como seres sociais, transitamos, sim, pelo 'teatro das máscaras' da vida. Adaptamos nossa 'face' a cada contexto: empresário, advogado, pai, mãe. Essa adaptação é natural e até saudável para navegar o mundo. O desafio, no entanto, surge quando a performance se torna o espetáculo principal, quando as máscaras se fundem com o rosto, e a persona, por mais 'espiritualizada' que pareça, substitui a autenticidade do Ser.

'DA JANELA DO MEU OLHAR', esses 'espetáculos' de uma santidade forçada podem causar desconforto, pois a verdade não exige tal exibicionismo. A energia gasta em sustentar esses véus é imensa e, ironicamente, mina a força que reside na vulnerabilidade autêntica. A busca pela 'miscelânea de saberes' é crucial para discernir o que é genuíno: ela nos convida a ver através das nossas próprias máscaras autoimpostas e das que nos são apresentadas, para reconhecer e valorizar aquelas manifestações simbólicas que buscam revelar uma centelha da verdade maior. A jornada, então, consiste em transitar do uso de máscaras 'para se esconder' para uma existência onde nossas expressões e papéis se tornem cada vez mais transparentes à nossa essência, revelando, em vez de ocultar, a complexidade que nos compõe em nossa humanidade integral.

Em nossa busca contínua por autoconsciência, o convite é para uma observação atenta do palco onde o despertar se encena. Que possamos discernir entre a melodia que embala e a verdade que liberta, cultivando a humildade de reconhecer a própria jornada e as próprias imperfeições. A real sabedoria, afinal, reside na congruência entre o ser e o agir, no desvelamento da alma e na coragem de viver a própria verdade, sem a necessidade de performance ou de aprovações externas.

Nessa complexa jornada de autoconsciência, onde a busca pelo despertar se confronta com as performances e as expectativas, a verdade sobre o que somos e o que aparentamos ser clama por ser desvelada. A distinção entre a forma e a essência, entre o 'mostrar' e o 'ser', torna-se um desafio constante. É nesse ponto que a arte, em sua crueza e beleza, oferece um espelho implacável.

Para uma reflexão ainda mais visceral sobre os véus que vestimos e as verdades que por vezes ocultamos em nossa busca, convido você a mergulhar nos versos de 'Máscara Divina'. Este poema, que também faz parte da minha obra 'Da Janela do Meu Olhar', é uma constatação poética sobre a hipocrisia que, por vezes, se disfarça de santidade, e a forma como a aparência pode reinar sobre a essência, ofuscando o amor e a genuína doação.


Máscara Divina
No altar da fé, a alma se veste,
Em manto de virtude, a voz se ergue em prece,
A mão se estende, a doação se manifesta,
Mas a forma se distorce, a essência se detesta.
 
O verbo divino ecoa em palavras belas,
Mas em si, se fecha em ganância e cautelas.
A caridade se veste de pompa e exibição,
Esmola aos olhos do mundo, jamais ao coração!
 
A fé se torna máscara, a virtude, ilusão,
A doação, é moeda de falsa redenção.
O irmão, semelhante, anseia por compaixão,
Mas recebe migalhas, desprezo e ostentação.
 
A hipocrisia tece um véu de santidade,
Onde a aparência reina, o amor se evade...
A forma não reflete a devoção,
É raso o que professa, transborda em contradição
                                                                            (J.L.I Soáres)

E 'Da Janela do seu Olhar';

Em sua própria jornada de despertar, você tem percebido a 'voz melodiosa' de mestres ou a 'vulnerabilidade infantil' em alunos?

Como você tem discernido a 'forma' da 'essência' em sua fé e em suas práticas de autoconhecimento?

Em que medida as 'máscaras' que você veste no dia a dia revelam ou ocultam a sua mais profunda autenticidade?

Até breve...

J.L.I Soáres

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sábado, 24 de maio de 2025

PERDER O MEDO POTENCIALIZA A QUEDA OU EQUILIBRA O PASSO!

    Existe um momento silencioso e aterrorizante na biografia de toda alma: o instante em que olhamos para baixo e não vemos mais o chão. As redes de segurança se romperam, as garantias evaporaram e o cenário, antes familiar, tornou-se um abismo.

    Muitos chamam isso de "fundo do poço". Da janela do meu olhar, prefiro chamar de Ponto Zero da Liberdade.

    É curioso como o medo opera. Enquanto temos algo a perder um status, um relacionamento morno, uma imagem social, caminhamos trêmulos, agarrados ao corrimão da conveniência. O medo de cair nos paralisa. Mas o que acontece quando já estamos em queda livre? Ou quando percebemos que o "pior" já aconteceu?

Nesse exato milissegundo, ocorre um fenômeno psíquico fascinante: A perda do medo.

    E é aqui que mora o perigo e a glória. Sem o peso do medo na mochila, ficamos leves. E essa leveza nos impõe uma escolha binária e definitiva:

1. Potencializar a Queda: Podemos usar essa ausência de medo para nos entregarmos à destruição total, ao niilismo, deixando que a gravidade nos esmague contra a realidade. É o abandono de si mesmo.

2. Equilibrar o Passo: Ou podemos usar essa mesma leveza para nos tornarmos equilibristas. Observe o funâmbulo: ele só cai se o medo enrijecer seus músculos. Se ele não teme a altura, ele dança sobre o fio. Quando entendemos que não há mais nada a perder, ganhamos uma coragem inabalável para ousar. Para escrever o livro que estava na gaveta, para dizer o "não" que estava na garganta, para ser quem realmente somos, sem as máscaras da conveniência.

    O abismo, caríssimo leitor, não serve apenas para nos engolir. Ele serve para testar se temos asas. Perder o medo é tirar a trava de segurança da existência. Se isso vai te fazer despencar ou voar, depende apenas da direção do seu olhar: para a escuridão lá embaixo ou para o horizonte à frente?

Às vezes, a única saída é para cima.

E você? Diante dos seus abismos pessoais, o medo tem sido sua âncora ou você já descobriu a liberdade de quem não tem mais nada a perder?

Até breve...

J.L.I Soáres

sábado, 17 de maio de 2025

O ETERNO DESAGUAR DE OCEANOS EM PLANÍCIES E MONTANHAS

Sobre a doação que flui, o encontro com o outro e a arte de se doar 

Assim como a água do oceano, a doação de sentimentos, de energia, de tempo, flui de nós para o mundo. Ela busca um lugar para desaguar, para tocar, para se manifestar. Não exige que a montanha se torne oceano em troca; apenas flui. A doação genuína, em sua forma mais pura, 'DA JANELA DO MEU OLHAR', nasce de uma plenitude interior. Ela é um transbordar. O amor  não exige reciprocidade, Se há exigência, há uma "paga", uma "condição", e não o fluir livre do sentimento. Isso é um ato de liberdade e de autenticidade. O oceano não se esgota ao desaguar; ele se renova em seu próprio ciclo. Da mesma forma, quem doa de um lugar de plenitude não se sente esvaziado se não houver um retorno imediato ou esperado. É certo que, cada um vive sua própria jornada e possui seus próprios rios e secas e o encontro com o "Terreno" do Outro, com as Planícies ou Montanhas podem por vezes nos frustrar do que almejamos para nossas expectativas nas trocas amorosas pois nem todo terreno está preparado para absorver a mesma quantidade de água; nem toda pessoa está emocionalmente disponível ou disposta à reciprocidade no mesmo nível ou no mesmo momento.

Da mesma forma como a água do nosso oceano emocional deveria desaguar em terrenos disponíveis, há muitos rios que deságuam em oceanos dispostos à entregas genuínas, e não pode não se tratar de uma questão de ensinar o como, mas sim adequação da fluidez. Entendem a dinâmica? Por vezes tendemos a julgar o quão injusta é a vida ao nosso oceano, mas não cegamos o olhar aos rios que possivelmente estejam dispostos a se unir em nossa correnteza emocional, estarmos atentos a estas nuances é importante, a vida nos mostra através das vivências que à vezes, quer seja oceano, quer seja rio, chegue à determinada planície ou montanha, o solo destas podem não estar precisando deste nutriente no momento, ou até mesmo não esteja preparada para suportar tamanha onda de entrega, até mesmo, se cultivando algum "sistema" específico, para melhor aproveitamento e crescimento, é um solo mais seco que propiciará esse resultado.  Sob os véus da noite, é que estão os "orvalhos" de cada pessoa não sabemos nem das nossas "pororocas" internas, dadas as flutuações emocionais que vivenciamos, o que nos dificulta essa compreensão no outro? Talvez ela não esteja no "ciclo" de doar ou receber da mesma forma. Há quem simplesmente tenha uma forma diferente de expressar afeto ou gratidão. Sem mencionar os ciclos de defesa, ora, o "terreno" do outro pode ter barreiras invisíveis que impedem a água de fluir.

É importante observarmos a sutileza da linha em que a doação se torna uma "troca" seja de afeto, de atenção, de reconhecimento, ela perde sua pureza. Entendo que é deveras desafiador o ato de doar sem esperar e a autonomia da Alma no exercício do ato de desapego  na doação se apresenta como uma virtude quase que transcendental, pois continuar a desaguar sem condicionar o fluxo à forma do terreno exige um profundo autoconhecimento e um desapego do resultado que os corações desejosos de afeto mais que sangue para bombear ao corpo suplicam...Fato é Caríssimo leitor, é que a nossa alma (nosso "oceano") não depende da resposta externa para ser vasta e cheia. A doação é um ato de liberdade pessoal, não de barganha. E essa compreensão nos liberta da frustração e do ressentimento nos permitindo que essa nossa disposição de nos doarmos se mantenha em sua plenitude, sem nos esvairmos na expectativa de um retorno que pode não vir. 

'DA JANELA DO MEU OLHAR' O equilíbrio e a gratidão no desaguar reside na beleza do fluxo contínuo, assimilar essa premissa e nos permitirmos sentir, tão somente sentir, por sermos capazes de sentir amor por si só já seria a paga de existirmos com essa essência tão Sublime quanto opressora, pois a vida é um eterno desaguar e absorver, em diferentes ritmos e formas. A nossa riqueza está em termos um oceano interior capaz de transbordar, independentemente da forma como a água é recebida ou não! E carregar esse entendimento nos fortalece sem a necessidade de afirmarmos, principalmente, a famigerada frase que não faz mais que traduzir uma frustração de um ego não lapidado com o desejo de equivalência que jamais será alcançada: "Foi livramento". PS:  Quem garante que na verdade foram os "astros" livrando aquela planície ou montanha do tsunami devastador que somos nós?


E Da Janela do seu Olhar?

E você, como tem vivenciado o seu próprio desaguar? 

Quais rios e oceanos fluem da sua alma sem exigir que o terreno se transforme em espelho?

Até breve...

J.L.I Soáres

sábado, 10 de maio de 2025

A ETERNA BUSCA DE SENTIDO PARA DAR SENTIDO AO QUE TALVEZ NEM EXISTA SENTIDO

Por que temos tanto medo de apenas Ser

Há uma angústia silenciosa que nos persegue desde o primeiro sopro de vida: a resistência em aceitar que a existência talvez tenha um fim em si mesma. Não nos basta "estar" no mundo; precisamos justificar a nossa estadia.

Desde a decodificação biológica do nosso DNA até a arqueologia das memórias ancestrais, vivemos tateando o escuro em busca de uma resposta universal, de um "porquê" que acalme a nossa inquietude. Buscamos, febrilmente, dar sentido ao que talvez seja apenas mistério. E aqui reside o grande paradoxo humano: essa busca árdua nos traz a dor da incerteza, mas é exatamente ela — a Busca — o único motor capaz de dar movimento à vida. O sentido não está no pote de ouro no fim do arco-íris, mas na caminhada de quem o procura.

O que chamo de "Da janela do meu olhar" não é apenas um ponto de vista, é um método de sobrevivência psíquica. É a coragem de montar um Mosaico com os cacos que a vida nos oferece. 

Não somos feitos de gavetas separadas. Somos filosofia, somos pulsão psicanalítica, somos sede espiritual e somos carne humana vivendo experiências mundanas. 

Paremos de buscar respostas prontas lá fora e comecemos a desenhar o nosso próprio mapa. Transformemos a angústia da falta de sentido na liberdade de criar o nosso próprio significado.

Afinal, se viver é um "Estar para somente Ser", que sejamos, então, inteiros em nossa própria complexidade.

E, "Da Janela do seu Olhar" Caro leitor,

Você tem vivido a angústia de buscar respostas prontas ou já aprendeu a encontrar beleza nas próprias perguntas? Como você desenha o seu mapa?


Até breve...

J.L.I Soáres

Propósito

ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?

Caro Leitor; Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha mem...