Somos senhores do nosso silêncio, mas eternos escravos das nossas palavras.
Caríssimo Leitor;
Subestimamos o poder da fala. Tratamos as palavras como se fossem apenas ar vibrando nas cordas vocais, sons que se dissipam no vento sem deixar rastro. Mas, da janela do meu olhar, vejo que as palavras têm densidade, têm peso e, infelizmente, têm a capacidade letal de aniquilar.
Palavras matam.
Elas não perfuram a carne, mas dilaceram a autoestima. Não quebram ossos, mas fraturam sonhos. Não interrompem o batimento cardíaco, mas podem paralisar a vontade de viver de alguém.
Não foi por acaso que Jesus, o maior psicólogo que já pisou na Terra, elevou a barra da moralidade no Sermão da Montanha. Ele sabia que a violência física é apenas a consequência final de uma violência verbal e mental que começou muito antes. Ele disse: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás... Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca (tolo, inútil), será réu diante do sinédrio." (Mateus 5:21-22).
Ao equiparar o insulto ao assassinato, o Mestre nos ensina uma verdade aterrorizante: quando lançamos uma palavra de ódio, desprezo ou maldição sobre alguém, estamos cometendo um homicídio na dimensão do espírito. A língua pode ser um instrumento de bênção ou uma arma de guerra; a escolha do gatilho é sempre nossa.
A filosofia antiga nos entrega uma máxima que deveria estar tatuada na consciência de todos:
"O homem é senhor do que cala e escravo do que fala."
Enquanto a palavra está na sua boca, você é o Rei. Você tem o controle absoluto, a soberania de decidir se ela deve ou não nascer. Mas, no exato segundo em que ela cruza a fronteira dos dentes, a hierarquia se inverte. A palavra dita ganha vida própria. Você não pode mais recolhê-la. Você se torna refém das consequências.
O silêncio é uma arquitetura de proteção. Quem domina a arte de calar no momento da fúria preserva sua liberdade. Quem solta a língua sem filtro assina, muitas vezes, a própria sentença de solidão.
O Exorcismo da Tagarela (Minha Mea Culpa)
E aqui, faço uma pausa dramática para uma autocrítica ácida, antes que pensem que escrevo do alto de um monastério de votos de silêncio. A ironia não me escapa: logo eu, que adoro uma conversa, que tenho a língua solta e o pensamento rápido, estou aqui pregando a contenção. Para mim, a escrita nada mais é do que um sofisticado exorcismo. Eu escrevo justamente para dar vazão ao excesso, para não morrer engasgada com as minhas próprias opiniões e, principalmente, para não matar ninguém com elas na vida real. Sou uma "Senhora do Silêncio" em treinamento, mas confesso que, volta e meia, acordo com a tornozeleira de escrava da própria fala. Escrevo para me curar da minha própria verborragia. Afinal, se a palavra é prata e o silêncio é ouro, eu ainda estou tentando parar de gastar toda a minha prata à toa.
Feita a confissão, volto ao alerta: precisamos fazer uma necrópsia do nosso vocabulário diário. Estamos usando nossa voz (ou nossa escrita) para dar vida ou para espalhar pequenas doses de veneno? Que tenhamos a sabedoria de entender que a boca fala do que o coração está cheio. Se as palavras matam, é porque algo já morreu dentro de quem as profere.
Lembre-se da última vez que você se arrependeu de algo que disse. O silêncio, naquele momento, teria te mantido Rei/Rainha ou você, assim como eu, às vezes, preferiu se tornar escravo do seu impulso?
Reflitamos...
Até breve...
J.L.I Soáres
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