quarta-feira, 17 de setembro de 2025

A ARQUITETURA DA ILUSÃO:

O crime invisível cometido pela língua Por que gritamos nossas certezas?

Caro leitor;

Friedrich Nietzsche, em sua cirúrgica obra Humano, Demasiado Humano, nos deixou um alerta que ecoa como um diagnóstico psíquico:

"A intensidade de uma crença não garante sua verdade, apenas revela a força psicológica ou afetiva de quem acredita."

Essa frase desmonta um dos maiores refúgios da humanidade: a ideia de que ter "fé inabalável" em algo torna esse algo real. Mas, se olharmos através da lente da psicanálise, descobrimos que o excesso de certeza é frequentemente um sintoma, não uma virtude.

Você já notou que as verdades mais óbvias são silenciosas? A gravidade não precisa de militância para nos manter no chão. O sol não exige devotos para nascer todas as manhãs. A realidade simplesmente é.

Apenas as mentiras confortáveis precisam de exércitos, de defesas acaloradas e de gritos para se sustentarem em pé.

Na psicologia, chamamos isso de Formação Reativa. Quando a psique não consegue lidar com a angústia da dúvida ou do vazio, ela constrói uma crença rígida e barulhenta para servir de muro de contenção. O fanático não grita para convencer o outro; ele grita para silenciar a própria dúvida que sussurra no fundo de sua mente.

A intensidade com que defendemos uma "verdade" é, muitas vezes, proporcional ao medo que temos de que ela desmorone.

Mas por que precisamos tanto dessas certezas? Porque o ser humano tem horror ao caos. Temos pânico do "não-sentido".

Para não olhar para o abismo da indiferença do universo, projetamos nossos desejos na tela da realidade. É o mecanismo da Ilusão: moldamos o mundo não como ele é, mas como precisamos que ele seja para não sofrer.

Isso é, em última instância, a recusa da Castração. É a insistência infantil em acreditar que o universo gira em torno do nosso umbigo ou das nossas dores. Chamamos isso de "Fé", "Destino" ou "Conexão", mas, muitas vezes, não passa de uma alucinação afetiva.

Estamos apenas vestindo o acaso com as roupas dos nossos desejos.

Não devemos confundir convicção com verdade. Um homem em um manicômio pode ter a certeza absoluta de que é Napoleão Bonaparte. A intensidade da crença dele é inabalável, talvez até maior do que a sua certeza sobre quem você é. Isso torna o delírio dele real? Não. Apenas torna a tragédia dele mais profunda.

A fé inquebrantável diz muito sobre a psicologia do crente e quase nada sobre a realidade dos fatos. Muitas vezes, a sua "certeza" é apenas a cicatriz de um trauma que você se recusa a curar. É a armadura que você veste para não sentir a pele exposta da incerteza.

Amadurecer é ter a coragem de separar o Fato do Afeto.

É olhar para uma situação e aceitá-la em sua crueza, despida das fantasias que nossa criança interior criou para se sentir segura. A verdade costuma ser fria, indiferente e seca. Mas ela tem uma vantagem única sobre todas as ilusões quentinhas: ela liberta.

A ilusão nos acolhe, mas nos aprisiona numa infância eterna, dependentes de mentiras que nos contam para dormir.

A pergunta que deixo para você hoje não é o que você acredita, mas por que você precisa acreditar com tanto desespero. Você prefere o conforto do sonâmbulo ou a solidão da autonomia?

A lucidez é um caminho sem volta, mas é o único caminho que leva à posse de si mesmo.

Até breve.

J.L.I Soáres

LEIA TAMBÉM

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Propósito

ONDE ENTERRAMOS A NOSSA HUMANIDADE?

Caro Leitor; Um caso recente fez minha alma sangrar no papel. Não é apenas sobre o agora, é sobre uma porta antiga que se abriu na minha mem...