SOBRE O AMOR, A NEGAÇÃO E A SÍNDROME DE SALVADORA
Caro Leitor;
Por que insistimos em ver "potencial" onde só existe desinteresse e como a dissonância cognitiva nos faz lavar a louça que não sujamos. Há uma cena clássica no teatro dos relacionamentos modernos. O sujeito senta à sua frente, olha nos seus olhos e diz, com todas as letras: "Eu não estou pronto para um relacionamento sério agora" ou "Eu sou complicado, melhor você não se envolver".
A pessoa sã, com a autoestima em dia, ouviria isso como uma sentença final: "Ok, tchau." Mas a "Salvadora" (ou o Salvador) ouve algo completamente diferente. O ouvido emocional traduz a frase para: "Eu fui muito ferido no passado e preciso que você, com seu amor sublime e paciência infinita, me cure para que eu possa ser o príncipe que você merece."
Começa aí a tragédia anunciada.
Gosto de usar uma metáfora doméstica que considero irrefutável os comportamentos são como a louça suja na pia.
Imagine que você entra na cozinha. A pia está transbordando: pratos engordurados, copos usados, restos de comida. A visão é clara, o cheiro é evidente. A louça está lá. É um fato material. Você não olha para aquilo e diz: "Nossa, que cozinha limpa e organizada!".
No entanto, nas relações, fazemos exatamente isso. O comportamento dele (ou dela) está ali, empilhado: Ele demora dias para responder? (Prato sujo)/ Ele só te procura em horários convenientes para ele? (Copo engordurado)/ Ele diz que não quer compromisso? (Panela queimada).
Os sinais estão gritando. A "pia" do relacionamento está um caos. Mas nós, movidos pela carência e pelo ego, olhamos para aquela bagunça e dizemos: "Não é sujeira, é só o jeito dele. Com o tempo, ele vai aprender a lavar."
Por que fazemos isso? Por que ignoramos o óbvio? Muitas vezes, não é apenas amor; é vaidade.
É o que chamo de Complexo de Wendy (a menina que queria salvar Peter Pan). No fundo, acreditamos que somos tão especiais, tão incríveis e tão "diferentes das outras", que seremos a exceção à regra. Pensamos: "Ele não quis nada sério com ninguém, mas COMIGO será diferente. Eu tenho o poder de mudá-lo."
Isso é uma arrogância perigosa. Pessoas mudam? Sim. Mas elas mudam por escolha própria, por processos internos de dor e consciência, não porque você se esforçou o triplo para ser a "mulher perfeita". O seu amor não é uma clínica de reabilitação para homens emocionalmente indisponíveis.
Amor não é apenas um sentimento etéreo; amor é Comportamento. Caráter se mede pelo que a pessoa faz quando não tem nada a ganhar ou quando está sob pressão.
Se no início, na fase da conquista, a pessoa já demonstra preguiça afetiva, o que nos faz pensar que, após o compromisso (quando a rotina assentar), a pessoa se tornará dedicada? A regra é clara:
O comportamento é a única verdade. O discurso é apenas decoração.
Se nos dizem: te amo, mas age como se fossemos um estepe: acredite na ação. Se nos dizem que não quer namorar, mas age como namorado(a), (ciúmes, posse) sem o ônus do compromisso: por que não acreditar na covardia?
A maturidade chega quando paramos de tentar interpretar as entrelinhas e começamos a ler as linhas. Quando alguém te disser quem é, acredite na primeira vez.
Não projetemos o nosso desejo na tela em branco do outro. Olhemos para a pia. Se a louça está suja, não adianta fantasiarmos um banquete. A realidade está ali, diante dos nossos olhos. E merecemos alguém que não apenas ajude a lavar, mas que venha com a "cozinha" da alma limpa, pronta para preparar algo novo conosco.
E, caro leitor, "Da janela do seu olhar" para o espelho da sua consciência:
Você está apaixonada pela pessoa que está à sua frente ou pelo potencial que você inventou que ela tem?
Qual "louça suja" (comportamento óbvio) você tem ignorado ou justificado nas últimas semanas?
Se essa pessoa nunca mudar e continuar sendo exatamente quem é hoje, você ficaria ou partiria?
Até breve..
J.L.I Soáres
LEIA TAMBÉM