sexta-feira, 9 de junho de 2023

OS SINAIS ESTÃO PARA NOSSOS OLHOS COMO A LOUÇA SUJA ESTÁ PARA A PIA

SOBRE O AMOR, A NEGAÇÃO E A SÍNDROME DE SALVADORA

Caro Leitor;

Por que insistimos em ver "potencial" onde só existe desinteresse e como a dissonância cognitiva nos faz lavar a louça que não sujamos. Há uma cena clássica no teatro dos relacionamentos modernos. O sujeito senta à sua frente, olha nos seus olhos e diz, com todas as letras: "Eu não estou pronto para um relacionamento sério agora" ou "Eu sou complicado, melhor você não se envolver".

A pessoa sã, com a autoestima em dia, ouviria isso como uma sentença final: "Ok, tchau." Mas a "Salvadora" (ou o Salvador) ouve algo completamente diferente. O ouvido emocional traduz a frase para: "Eu fui muito ferido no passado e preciso que você, com seu amor sublime e paciência infinita, me cure para que eu possa ser o príncipe que você merece."

Começa aí a tragédia anunciada.

Gosto de usar uma metáfora doméstica que considero irrefutável os comportamentos são como a louça suja na pia.

Imagine que você entra na cozinha. A pia está transbordando: pratos engordurados, copos usados, restos de comida. A visão é clara, o cheiro é evidente. A louça está lá. É um fato material. Você não olha para aquilo e diz: "Nossa, que cozinha limpa e organizada!".

No entanto, nas relações, fazemos exatamente isso. O comportamento dele (ou dela) está ali, empilhado: Ele demora dias para responder? (Prato sujo)/ Ele só te procura em horários convenientes para ele? (Copo engordurado)/ Ele diz que não quer compromisso? (Panela queimada).

Os sinais estão gritando. A "pia" do relacionamento está um caos. Mas nós, movidos pela carência e pelo ego, olhamos para aquela bagunça e dizemos: "Não é sujeira, é só o jeito dele. Com o tempo, ele vai aprender a lavar."

Por que fazemos isso? Por que ignoramos o óbvio? Muitas vezes, não é apenas amor; é vaidade.

É o que chamo de Complexo de Wendy (a menina que queria salvar Peter Pan). No fundo, acreditamos que somos tão especiais, tão incríveis e tão "diferentes das outras", que seremos a exceção à regra. Pensamos: "Ele não quis nada sério com ninguém, mas COMIGO será diferente. Eu tenho o poder de mudá-lo."

Isso é uma arrogância perigosa. Pessoas mudam? Sim. Mas elas mudam por escolha própria, por processos internos de dor e consciência, não porque você se esforçou o triplo para ser a "mulher perfeita". O seu amor não é uma clínica de reabilitação para homens emocionalmente indisponíveis.

Amor não é apenas um sentimento etéreo; amor é Comportamento. Caráter se mede pelo que a pessoa faz quando não tem nada a ganhar ou quando está sob pressão.

Se no início, na fase da conquista, a pessoa já demonstra preguiça afetiva, o que nos faz pensar que, após o compromisso (quando a rotina assentar), a pessoa se tornará dedicada? A regra é clara: 

O comportamento é a única verdade. O discurso é apenas decoração.

Se nos dizem: te amo, mas age como se fossemos um estepe: acredite na ação. Se nos dizem que não quer namorar, mas age como namorado(a), (ciúmes, posse) sem o ônus do compromisso: por que não acreditar na covardia?

A maturidade chega quando paramos de tentar interpretar as entrelinhas e começamos a ler as linhas. Quando alguém te disser quem é, acredite na primeira vez.

Não projetemos o nosso desejo na tela em branco do outro. Olhemos para a pia. Se a louça está suja, não adianta fantasiarmos um banquete. A realidade está ali, diante dos nossos olhos. E merecemos alguém que não apenas ajude a lavar, mas que venha com a "cozinha" da alma limpa, pronta para preparar algo novo conosco.

E, caro leitor, "Da janela do seu olhar" para o espelho da sua consciência:

Você está apaixonada pela pessoa que está à sua frente ou pelo potencial que você inventou que ela tem?

Qual "louça suja" (comportamento óbvio) você tem ignorado ou justificado nas últimas semanas?

Se essa pessoa nunca mudar e continuar sendo exatamente quem é hoje, você ficaria ou partiria?

Até breve..

J.L.I Soáres

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sexta-feira, 2 de junho de 2023

REFLETIR NO OUTRO

EM QUE MEDIDA VOCE NUTRE EM VOCE ESSE SENTIMENTO?


"Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos."

Certa vez, no ambiente corporativo, vivi uma situação que ilustra perfeitamente a cegueira emocional em que, muitas vezes, operamos. Uma pessoa me procurou, visivelmente incomodada, para desabafar: "Nossa, não sei o que faço! Meu sócio está me olhando com inveja. Estou sentindo a inveja nos olhos dele por causa desse novo cliente que consegui."

Eu parei, olhei profundamente para ela e, em vez de oferecer o consolo superficial que o ego adora, devolvi a questão:

"Em que medida você nutre esse sentimento dentro de você para ser capaz de enxergá-lo tão nitidamente no outro?"

A pessoa travou. Ficou com um ponto de interrogação estampado na testa, em silêncio absoluto. A pergunta foi um curto-circuito no sistema de defesa dela. Mais tarde, com a poeira baixa, aprofundamos a conversa e a ficha caiu: ela só conseguiu identificar a "frequência da inveja" no sócio porque aquele dial também estava sintonizado dentro dela.

O Mundo é um Espelho, não uma Janela

Temos o hábito viciado de apontar o dedo para fora. Reclamamos que o mundo é hostil, que as pessoas são falsas, que o parceiro é agressivo ou que o chefe é ingrato. Mas esquecemos uma lei psíquica imutável: Só reconhecemos fora aquilo que já habita dentro.

Para você identificar um sentimento no outro, você precisa ter o "código de barras" desse sentimento no seu inventário interno. Se eu não tenho inveja, ambição desmedida ou insegurança dentro de mim, a atitude do outro passa despercebida ou é interpretada de outra forma. Mas, se aquilo me pica, me atinge e me mobiliza, é porque encontrou ressonância.


Da janela do meu olhar, percebo que somos emissores antes de sermos receptores. Como podemos esperar ser tratados com amor e gentileza se, no segredo dos nossos pensamentos, vibramos julgamento, raiva e competição? É uma conta que não fecha. Queremos a doçura do mel, mas plantamos limão.

O outro, muitas vezes, é apenas o carteiro; a mensagem que ele entrega foi escrita por nós mesmos. O sócio "invejoso" talvez estivesse apenas refletindo a insegurança e a competitividade que aquela pessoa se recusava a admitir que tinha.


Isso não significa que o mal não exista no mundo ou que as pessoas não errem conosco. Significa apenas que a nossa reação e a nossa percepção dizem mais sobre a nossa psique do que sobre a realidade do outro. Ao assumirmos a autorresponsabilidade, paramos de tentar limpar o espelho para mudar a imagem. Entendemos que, para mudar o reflexo, precisamos mudar a nós mesmos.

Limpemos nossas lentes!

Se você quer lealdade, vibre lealdade. Se quer paz, cultive a não-violência interna. Antes de acusar o olhar do outro, investigue o seu próprio coração. Afinal, o que você vê lá fora é, quase sempre, um retrato do que você carrega aqui dentro.

Pense na pessoa que mais te irrita hoje. Qual característica dela te tira do sério? Agora, respire fundo e responda honestamente: em que área da sua vida você age exatamente como ela, mesmo que de forma disfarçada?

Até breve.

J.L.I Soáres

Propósito

A ESCULTURA DO AFETO

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