segunda-feira, 28 de outubro de 2024

OS ESFORÇOS INÚTEIS POR RESISTIR AO FLUXO

 A arte de perder a guerra contra a realidade para, finalmente, ganhar a paz.


    Fomos educados na "Cultura da Luta". Desde cedo, ouvimos que a vida é uma batalha, que devemos "matar um leão por dia", que desistir é para os fracos e que a persistência tudo vence. Criamos uma musculatura egóica rígida, prontos para dobrar o destino à força, como se a vida fosse um ferro passível de ser moldado apenas pela nossa teimosia.

    Mas, da janela do meu olhar, começo a perceber a exaustão silenciosa que essa postura nos causa. Há uma diferença brutal entre Persistência (manter-se firme em um propósito) e Resistência (lutar contra a natureza das coisas).

A Barragem de Areia

Resistir ao fluxo é como tentar conter um rio com as próprias mãos. Gastamos uma energia vital preciosa construindo diques, levantando muros, gritando contra a correnteza, tentando impedir que as coisas mudem, acabem ou se transformem.

Resistimos ao fim de um relacionamento que já morreu.
Resistimos à mudança de carreira que a alma pede.
Resistimos ao envelhecimento, à perda, ao imprevisível.

    E o que ganhamos com esses esforços hercúleos? Apenas o cansaço. A realidade é soberana. O fluxo da vida é, por definição, mais forte do que a nossa vontade individual. Lutar contra o que É, é a fórmula matemática para o sofrimento. O esforço se torna inútil não porque somos fracos, mas porque a direção que estamos forçando não é a direção para onde a vida quer nos levar.

    A Sabedoria da Folha na Água

Observe a natureza. Uma pedra rígida no meio do rio sofre o impacto constante da água, desgasta-se, quebra. Já uma folha, ao cair na mesma água, não oferece resistência. Ela se entrega. Ela usa a força da correnteza para viajar. Ela chega ao oceano muito antes da pedra, e inteira.

    Aceitar o fluxo não é passividade; é inteligência estratégica. É olhar para uma situação imutável e dizer: "Ok, a correnteza está indo para lá. Não vou nadar contra. Vou boiar e usar essa força para me levar a um novo lugar, mesmo que não seja o lugar que eu planejei inicialmente."

    O maior obstáculo para soltar o fluxo é a nossa arrogância. O Ego adora o drama do "eu tentei de tudo". O Ego quer ser o herói mártir que morreu lutando. Mas a Alma... a Alma quer apenas a leveza de ser. Quando paramos de resistir, acontece um milagre: a tensão nos ombros desaparece. A ansiedade de controlar o incontrolável se dissolve. Descobrimos que não precisamos remar o tempo todo; às vezes, a vida tem seu próprio motor.

    Deixar fluir é um ato de fé. É confiar que, se a porta se fechou, não adianta esmurrá-la. É confiar que, se o rio fez uma curva, a paisagem nova também terá sua beleza.

Analise as suas maiores exaustões hoje: elas vêm do trabalho de construir algo novo ou do esforço inútil de tentar segurar algo que já quer ir embora? Você está remando ou apenas se debatendo?

Até breve...

J.L.I Soáres

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

OS CONHECIDOS DA VIDA PROFISSIONAL - A Anatomia da Ingratidão e a Ironia do Destino

Quando a Esperteza Engole o Próprio Rabo

Caro Leitor;

"Da janela do meu olhar", tenho observado que a linha entre a ingenuidade e a intuição é tênue, quase invisível. Muitas vezes, o que chamamos de "surpresa" diante da traição alheia nada mais é do que a nossa recusa em aceitar o óbvio: o ser humano, em sua sombra, é previsivelmente egoísta.

Já escrevi aqui anteriormente sobre a transição perigosa "Da Individuação ao Individualismo", onde exploro como a busca pelo "eu" se torna, muitas vezes, apenas uma desculpa para passar por cima do "outro". Hoje, trago essa teoria para o chão frio da realidade, para o asfalto da Avenida Paulista e para os bastidores do mercado imobiliário, onde o caráter, ou a falta dele, se revela na disputa por uma comissão.

Recordo-me de uma experiência que foi uma verdadeira aula sobre o silêncio. Havia um corretor novo na imobiliária, recém-chegado. Na época, eu precisava de parceria operacional, não tinha carro para os deslocamentos de captação, e ele precisava do know-how. Parecia a troca justa. Passei minhas "dicas de ouro", entreguei estratégias que levei tempo para construir.

A regra era clara: parceria se registra. Mas ele, em sua "esperteza" silenciosa, omitiu meu nome. Registrou tudo como se fosse fruto exclusivo de seu esforço solitário. E eu? Eu calei.

Admito, meu ego gritou. O ego quer o crédito, quer o tapinha nas costas, quer o reconhecimento da autoria. Mas há uma sabedoria mística em apenas observar. Aprendi que, 

"enquanto observas, permite deixar as pessoas serem quem elas são"

Não briguei, não cobrei. Apenas assisti, arquivando aquela informação na pasta "não confie" do meu inconsciente.

Mas a cereja do bolo da natureza humana veio em outra ocasião, em uma outra empresa onde eu era a "onipresente". Dedicada, sedenta por aprender. Indiquei uma pessoa para trabalhar conosco. Erro clássico: a gente abre a porta e, às vezes, quem entra a tranca por dentro.

Essa pessoa criou um laço íntimo com o gestor (o broker). Uma "amizade" de conveniência. E eis que surge uma cliente, uma figura conhecida, de alto padrão. A cliente era minha indicação direta, estava sob meu atendimento. Mas, numa manobra de bastidor, o gestor passou a cliente para essa minha "amiga".

Quando questionei, recebi a desculpa burocrática: "Ah, estava na planilha, você não estava mexendo...". Mentira. Era a preferência pessoal atropelando a ética profissional. Eu olhei nos olhos dele e disse apenas: "Tudo bem. Mas toma cuidado, porque outra pessoa pode não entender o seu movimento como eu estou entendendo."

E foi aí que a "Mão de Deus", ou a justiça poética, se preferirem, entrou em cena. A ganância cega.

Eles estavam tão focados em me excluir da jogada, tão focados em fazer o negócio entre "amigos", que o gestor cometeu a burrice do século: convenceu a cliente a alugar primeiro, para "experimentar", em vez de comprar.

O resultado? Trocaram uma comissão gorda de venda de alto padrão por uma migalha de aluguel. A cliente nunca comprou. A "esperteza" deles custou o banquete. Eu perdi a venda, é verdade, mas eles perderam a dignidade e o dinheiro. Ali, vi o plantio e a colheita em tempo real.

Naquele dia, subi a Rua Brigadeiro Luís Antônio chorando, triste. O sentimento de injustiça queimava. Parei, olhei para a imensidão da Avenida Paulista em direção à Consolação, enxuguei as lágrimas e, num misto de ódio e promessa, profetizei para mim mesma: "Um dia, a Paulista vai ser toda minha. Eu vou mandar nessa p***."*

Foi um desabafo? Foi. Mas o universo não entende ironia, ele entende comando. No ano seguinte, abri minha própria imobiliária, ali mesmo, na Paulista.

Hoje, continuo observando. Fechei-me um pouco em copas, é verdade. A confiança agora é artigo de luxo, e meu portfólio na avenida mais famosa da cidade é a prova de que, embora a gente sangre no caminho, a gente conquista o território.

Eles ficaram com as migalhas da própria traição. Eu fiquei com a vista "Da janela do meu olhar".

E "Da janela do seu olhar?"

Você já teve que assistir, em silêncio, a "esperteza" de alguém engolir o próprio sucesso? 

Como você lida com a ingratidão profissional: você cobra o reconhecimento ou senta na calçada para ver o karma passar?

Até breve...

J.L.I Soáres

LEIA TAMBÉM

ENQUANTO OBSERVAS DÁS A CHANCE DE AS PESSOAS SEREM QUEM SÃO

DA INDIVIDUAÇÃO AO INDIVIDUALISMO

terça-feira, 15 de outubro de 2024

INSANO ARBÍTRIO A MORRER COM O PIOR VENENO!


Soneto  da IN-Sanidade

O Amor, das doenças o mais destruidor;

Sem remédio ou dose exata, o sentir que mata,

Aos poucos, por querer sem ter ou tendo a prata,

A cada nó que desata, noutro laço há doce sabor.

 

E no silêncio, a baixar o índice glicêmico,

A cada entrega, um fugaz viver, um amputar,

De partes de nós, eterno e intenso experimentar;

O amargo do doce, na bebida de arsênico.


Sentir cruel, tirano na dor, a cor da ida,

Mas sem ele, o existir não é pleno,

Sanidade? Segundo plano, meia vida.

 

Mas ao menor aceno, o vício, o desejo, Benzeno,

Pela louca ânsia, na busca do melhor da vida:

Insano arbítrio a morrer com o pior veneno!


Até Breve...

J.L.I Soáres


LEIA TAMBÉM:

ESSÊNCIA EMOCIONAL

Propósito

A ESCULTURA DO AFETO

A Lucidez 'Per Via Di Levare' e a Nudez da Essência Vivemos a era do torpor crônico. Na fenomenologia dos encontros contemporâneos, ...