quinta-feira, 15 de maio de 2025

MUITO SE VÊ COM OS OLHOS FÍSICOS, POUCO SE COMPREENDE PELO OLHAR DA ALMA

 A ALQUIMIA DA PERCEPÇÃO


Caro leitor;

Vivemos em uma era de paradoxos visuais. Nunca tivemos tanta resolução em nossas telas, tanta nitidez em nossas imagens e tanta exposição em nossas vitrines digitais. No entanto, arrisco dizer que sofremos de uma miopia espiritual coletiva. Estamos vendo tudo, mas não estamos enxergando nada.

A premissa que guia minha escrita e minha vida é uma sentença que ecoa como um aviso antigo: 

"Muito se vê com os olhos físicos, mas pouco se compreende pelo olhar da alma."

Mas qual é, afinal, o abismo que separa o ato de ver do ato de compreender?

O olho físico é, em sua essência, um ditador da superfície. Ele é um órgão biológico de registro, treinado para a sobrevivência e para a identificação rápida. Ele opera no binário: claro ou escuro, perigo ou prazer, belo ou feio.

Essa visão epidérmica é escrava da luz solar e do tempo de Cronos — o tempo que devora, que envelhece, que marca as horas no relógio. Quando olhamos apenas com a física, ficamos presos ao "Fenômeno" (aquilo que aparece). Julgamos o livro pela capa, a pessoa pela roupa, a história pelo título. É uma visão que consome o mundo em imagens rápidas, mas permanece faminta de significado.

O olho físico captura a forma, mas ignora a vibração.

Não existe um olhar inocente. Como Jacques Lacan brilhantemente pontuou, o que eu vejo nunca é exatamente o que eu olho. O olhar é algo que nos atravessa, carregado de tudo aquilo que somos — e, principalmente, daquilo que nos falta.

Muitas vezes, o que chamamos de "ver" é apenas um mecanismo de defesa do Ego. Projetamos no mundo externo as nossas próprias cavernas internas. Vemos no outro os nossos medos, os nossos desejos reprimidos e as nossas luzes não reconhecidas. Sem o filtro da consciência, o mundo vira apenas um espelho distorcido das nossas próprias neuroses.

É aqui que entra a transmutação necessária, o tema central que exploro na minha série "Da Janela do Meu Olhar". Para sair da cegueira da superfície e alcançar a vidência da profundidade, precisamos exercitar o Olhar da Alma.

Diferente da visão física, que é passiva, o olhar da alma é um ato ativo de coragem. Ele exige o que os alquimistas chamavam de Nigredo (a fase negra da putrefação) e Solutio (a dissolução). É preciso dissolver as certezas do Ego e queimar as ilusões da aparência para que a essência — o Noumeno — se revele.

A alma é um órgão de síntese. Ela não lê legendas; ela decifra intenções. Ela não vê apenas a matéria; ela sente a energia. É uma visão que opera no tempo de Kairós — o tempo da graça, do momento oportuno, do eterno que habita o agora.

É preciso dizer a verdade: compreender pelo olhar da alma não é confortável. A lucidez, como diria Cioran, pode ser vertiginosa. Ver a verdade por trás das máscaras sociais exige que suportemos a angústia de enxergar o real sem filtros.

No meu processo de escrita, especialmente agora no volume Alquimia das Almas nas Conexões, percebo que escrever é, antes de tudo, limpar a lente. É retirar a poeira do julgamento para conseguir enxergar o sagrado que habita no profano, a beleza que reside na cicatriz e a conexão que existe além do silêncio.

O mundo está cheio de observadores, mas carente de videntes. A janela está aberta para todos, mas a paisagem que cada um enxerga depende exclusivamente da profundidade de quem olha.

Que possamos, hoje, fechar um pouco os olhos físicos para que a alma possa, finalmente, começar a ver. Afinal, a verdadeira conexão não acontece quando dois olhares se cruzam, mas quando duas almas se reconhecem através da neblina da matéria.

E você? O que tem escolhido enxergar?

Até breve...

J.L.I Soáres

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