POR QUE SE TE CHEGO PERTO, AFASTO-ME DE MIM?
Caro Leitor
Existe uma física cruel em certos tipos de afeto: a Lei da Impenetrabilidade da Alma. Aprendemos na escola que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, mas esquecemos de aprender que, em algumas dinâmicas amorosas, duas identidades não conseguem coexistir no mesmo tempo. Para que o "Nós" exista, o "Eu" precisa, gradativamente, desaparecer.
Tenho me perguntado, diante do espelho silencioso da minha própria companhia: "Por que cada vez que me aproximo de você, me afasto de mim?"
A resposta não está na falta de amor, mas no excesso de demanda. Há parceiros que não buscam uma companheira, buscam um espelho côncavo, aquele que amplia a imagem deles e distorce a nossa.
O Leito de Procusto Amoroso
Na mitologia grega, Procusto convidava viajantes para sua casa e os oferecia uma cama. Se o hóspede fosse grande demais, ele cortava os pés; se fosse pequeno demais, ele o esticava até quebrar os ossos. Tudo para caber na medida exata do seu leito.
Em muitos relacionamentos, percebi que a proximidade cobra um pedágio altíssimo: a amputação das arestas criativas do outo. Para estar perto de você, eu não podia brilhar demais, pois a luz ofuscava a sua insegurança travestida de controle. Para caber no seu abraço, eu precisava encolher a minha intelectualidade, silenciar meus projetos literários e fingir que o mundo se resumia à órbita do seu umbigo.
Cada passo em sua direção exigia que eu deixasse uma mala para trás. Primeiro, deixei minha autonomia. Depois, minha voz. Por fim, estava quase deixando minha alma na portaria, apenas para ter permissão de subir ao seu apartamento emocional.
A psicanálise nos ensina que o desejo é o desejo do Outro. Mas e quando o desejo do Outro é que você não exista plenamente? Percebi que o nosso pacto era silencioso e perverso: você me amava na medida em que eu era um objeto cênico na sua vida. Eu era a "namorada", a "posse", a figura que preenchia o banco do carona. Mas quando eu ousava ser o Sujeito, a escritora, a pensadora, a mulher que questiona e produz, o sistema entrava em colapso. A legitima fagocitose do Eu.
A sua "paz" dependia da minha passividade. A sua "segurança" dependia da minha estagnação.
Aproximar-me de você significava entrar em um campo gravitacional onde a minha essência era sugada para alimentar um buraco negro de carência e controle. Eu me afastava de mim mesma porque, ao seu lado, eu não tinha permissão para ser Eu. Eu precisava ser apenas Sua.
O rompimento, portanto, não é um abandono. É um resgate. O silêncio que hoje passou a imperar entre nós não é vazio; é o som da minha própria voz voltando a ecoar dentro da caixa craniana.
Agora, afastada, percebo a ironia: precisei te perder para me reencontrar. No distanciamento, meus pensamentos voltaram a ser escritos. Na ausência do seu olhar vigilante, meus olhos voltaram a ver a beleza (e as pombas na janela, e a poesia no cotidiano).
Descobri que a solidão não é a ausência de companhia, mas a presença inegociável de si mesmo. E que o preço de estar "junto" não pode ser a aniquilação de quem somos. Se a condição para ter o seu amor é o meu desaparecimento, prefiro a solidão da minha existência plena.
Afinal, de que adianta ganhar o seu coração e perder a minha alma?
E você, caro leitor:
Já sentiu que precisou se subtrair para caber na soma de alguém? Que parte de si mesmo você precisou resgatar depois de um adeus?
Até breve...
J.L.I Soáres
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