O PESO (E A GLÓRIA) DE ENXERGAR ALÉM DA MÁSCARA SOCIAL
A intuição não é um superpoder de contos de fadas, mas um mecanismo de sobrevivência que nos impede de dançar com lobos disfarçados. Existe uma frase em inglês que resume, com precisão cirúrgica, o drama de quem possui uma sensibilidade aguçada: "I See Souls" (Eu vejo almas). Parece místico, quase romântico. Mas quem carrega esse "dom" sabe que ele está mais para uma maldição diagnóstica do que para uma benção social.
Ver almas significa que eu não consigo me relacionar apenas com a sua Persona. Jung definiu a Persona como a máscara social que usamos para sermos aceitos, o "bom moço", a "mulher de sucesso", o "cidadão de bem". A sociedade ama Personas. Elas são polidas, previsíveis e confortáveis.
Mas a minha "janela do olhar", para citar a cartografia que descrevo em meus livros, possui um defeito de fábrica: ela ignora a máscara e foca na essência.
Quando digo que "vejo almas", não estou falando de ver auras coloridas (embora a energia não minta). Estou falando de Leitura de Intenção. É aquela sensação gélida que percorre a espinha quando alguém sorri, mas os olhos permanecem frios. É o alarme que toca quando um convite "generoso" (como um hotel de luxo pago por um quase desconhecido) esconde uma fatura emocional impagável. É a capacidade de ouvir o que não foi dito nos silêncios de uma conversa. Para quem vê almas, a mentira tem cheiro. A manipulação tem textura. E o narcisismo, por mais bem vestido que esteja, tem um som estridente.
O preço dessa clarividência é a solidão. Muitas vezes, vejo pessoas ao meu redor encantadas com um "flautista de Hamelin", aplaudindo um predador, apaixonadas por uma miragem. E eu estou ali, no canto, vendo o abismo.
Se eu falo, sou a "louca", a "desconfiada", a "intensa demais". Se eu calo, sofro a angústia de ver o acidente acontecer em câmera lenta.
É cansativo. Às vezes, eu gostaria de ser ingênua. Gostaria de acreditar na lisonja barata, de me deslumbrar com a ostentação vazia, de achar que todo "bom dia" é sincero. A ignorância, dizem, é uma benção. A lucidez, eu garanto, é um trabalho em tempo integral.
Cientificamente, o que chamamos de intuição é um processamento de dados ultra-rápido do nosso inconsciente. Meu cérebro (e o seu, se você também "vê almas") captou a microexpressão facial, o tom de voz dissonante, a postura corporal incoerente e cruzou isso com um banco de dados de experiências passadas. O resultado é um insight:
"Cuidado. Não vá. Não confie."
Não é misticismo barato; é inteligência evolutiva. Foi esse olhar que impediu nossas ancestrais de serem comidas por leões escondidos na relva alta. Hoje, ele nos impede de sermos consumidas por "leões" de terno e gravata ou por "amigas" que sugam nossa energia vital.
Apesar do cansaço, aprendi a honrar essa visão. Ela é a guardiã do meu templo. Ela é o filtro que separa quem quer o meu Capital Social de quem quer a minha Companhia Real.
Se o meu olhar te incomoda, se a minha presença te causa repulsa sem motivo (como naquele caso da física quântica das relações), é provável que eu tenha visto algo que você está tentando esconder desesperadamente — até de si mesmo.
E tudo bem. Eu não preciso desmascarar ninguém. A verdade tem o péssimo hábito de aparecer sozinha com o tempo. Eu só preciso confiar no que vejo, mesmo quando o mundo inteiro está aplaudindo a máscara.
"I see souls." E se eu vi a sua e permaneci, saiba caro leitor: é porque encontrei verdade nela. E isso, meu caro, é a coisa mais rara do mundo.
Trecho conectado ao livro: "Essa busca pela verdade nua e crua é o cerne do que chamo de 'Mosaico da Psique'. Só conseguimos mapear nosso ser quando temos coragem de olhar para o que somos, e não para o que fingimos ser." — J.L.I. Soáres, em "Da Janela do Meu Olhar, Vol. 1".
Até breve...
J.L.I Soáres
LEIA TAMBÉM
Nenhum comentário:
Postar um comentário