segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A GOTA

e Eu;   

Cá estava, em minha insignificante existência ante aos mais elevados propósitos da vida humana, numa noite linda e após um dia tenso e com o clima do "famigerado final de ano". A data onde por, questão pessoal ou cultural nos vemos nos círculos sociais e interações que nem fazemos questão ou repudiamos ao longo do calendário gregoriano. Mas que, nesta data é imperioso, aos que gostam de cumprir protocolos. 

A noite estrelada e eu, em um diálogo de fuga, através da linguagem do silêncio, nos deparamos entre o vácuo dos ruídos externos, lá estava ela, de forma intermitente, consistente, a mostrar sua existência, e porque não dizer, persistente, no seu ping ...ping...e, confesso, linda melodia! Verdade, já prestou atenção Caro Leitor? Eu até compreendo que às vezes não é tão melodiosa a música do gotejar da água, mas, já observou essa sinfonia? 

É sério, não sou a pessoa mais "zen", na realidade, não sou nada "zen".

Mas eu me permiti ouvir com atenção o grito silencioso mas não mudo daquela gota que de forma consistente, repito, ao meu lado queria de todo modo, ainda que pela insistência, causando certa irritabilidade aos menos pacientes, que

"ALGO DE ERRADO NÃO ESTÁ CERTO".

Sempre que algo não está nos "conformes", seja na casa, na vida, ou na mente, o Universo encontra uma maneira de nos avisar, ele dá seu jeito, eu, a noite estrelada (confesso, nem tanto pois choveu), mas quero florear! Estávamos ali, com uma taça de um líquido que nos remete à um momento de conquista ou finalização de uma trajetória, com vitória, o que é de praxe, e nem é o último dia do ano.

E...Ela ali...com seu ping....ping....ping...ping...ping....ping....ping...ping.... ping...

Persistente igual a postura que os gurus de autodesenvolvimento pregam nas suas palestras, mas ela, no seu ritmo persistente, não me chamou atenção pela irritabilidade costumeira que seria o trivial, mas seu propósito naquele momento, entendi eu, a me mostrar que o vaso estava cheio, cheio de cansaço, emocional, mental, social e, para alguns, físico. E quando chegamos a este ponto, algo transborda: em apatia, isolamento, raiva, irritabilidade, risos e conversas intercorrentes em busca de uma validação que, pode até preencher inicialmente, mas no final, não vale de nada pois o vazio persiste apesar do tampão inserido ainda resta espaço para ser preenchido...

A Goteira que me fazia companhia a cada bebericada introspectiva, levou-me para uma viagem interna de questionamentos e a tecer analogias. Se está pingando, precisa de conserto, é como aqueles pensamentos que de forma insistente povoam nossa cabeça quando sabemos que devemos fazer algo mas procrastinamos. Costumamos represar os sentimentos, inflamando nosso sistema interno com cada contraste que vivenciamos, até que, aos poucos, nos percebemos "vazando", para os mais contidos, ou para os mais intensos, personificando "tsunamis".   

E é justamente aí que mora a dissonância. O mundo lá fora grita por festas e produtividade, mas esse transbordar interno é, na verdade, um pedido de socorro da psique. O Ego está exausto de estar no comando. Essa letargia que sentimos e tentamos combater com espumante e fogos de artifício nada mais é do que a sabedoria do Inconsciente assumindo o controle, como um disjuntor que desarma antes do colapso.

A Gota insistente estava me dizendo exatamente isso: não pathologize seu desejo de descanso. A natureza não floresce o ano inteiro; ela respeita seus invernos. Por que nós, em nossa complexidade humana (e arrogância de acharmos que somos máquinas), deveríamos ser diferentes?

Talvez o "conserto" que a Gota sugeria não fosse uma ação externa, mas uma permissão interna: a permissão para a hibernação sagrada, para ser crisálida enquanto o mundo exige borboletas. 

Não fugindo do clichê da listinha de tarefas das ações, conquistas e derrotas ao longo do ano, nosso implacável Kronos nos chama a atenção a apenas um sinal: Fizemos dele uma boa experiência de Kairós? Quantas fissuras ainda restam em nosso Universo interior, em nossa psique que levaremos como legado do Kronos passado? Não será intempestivo se nos colocarmos a olhar para dentro, limpar e tratar as feridas do atrapalho do tempo somente cronometrado, ou queres, caríssimo leitor, iniciar uma nova contagem com "rachaduras e vazamentos" persistentes e quiçá, até mofos nas paredes da sua psique, uma hora ou outra, a depender do grau de suportabilidade individual, a gota será contínua até se transformar em "tsunami"...


Até breve...

J.L.I Soáres

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domingo, 21 de dezembro de 2025

O CRIME INVISÍVEL COMETIDO PELA LÍNGUA

Somos senhores do nosso silêncio, mas eternos escravos das nossas palavras.

Caríssimo Leitor;

Subestimamos o poder da fala. Tratamos as palavras como se fossem apenas ar vibrando nas cordas vocais, sons que se dissipam no vento sem deixar rastro. Mas, da janela do meu olhar, vejo que as palavras têm densidade, têm peso e, infelizmente, têm a capacidade letal de aniquilar.

Palavras matam. 

Elas não perfuram a carne, mas dilaceram a autoestima. Não quebram ossos, mas fraturam sonhos. Não interrompem o batimento cardíaco, mas podem paralisar a vontade de viver de alguém.


Não foi por acaso que Jesus, o maior psicólogo que já pisou na Terra, elevou a barra da moralidade no Sermão da Montanha. Ele sabia que a violência física é apenas a consequência final de uma violência verbal e mental que começou muito antes. Ele disse: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás... Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca (tolo, inútil), será réu diante do sinédrio." (Mateus 5:21-22).

Ao equiparar o insulto ao assassinato, o Mestre nos ensina uma verdade aterrorizante: quando lançamos uma palavra de ódio, desprezo ou maldição sobre alguém, estamos cometendo um homicídio na dimensão do espírito. A língua pode ser um instrumento de bênção ou uma arma de guerra; a escolha do gatilho é sempre nossa.


A filosofia antiga nos entrega uma máxima que deveria estar tatuada na consciência de todos:

  "O homem é senhor do que cala e escravo do que fala." 

Enquanto a palavra está na sua boca, você é o Rei. Você tem o controle absoluto, a soberania de decidir se ela deve ou não nascer. Mas, no exato segundo em que ela cruza a fronteira dos dentes, a hierarquia se inverte. A palavra dita ganha vida própria. Você não pode mais recolhê-la. Você se torna refém das consequências.

O silêncio é uma arquitetura de proteção. Quem domina a arte de calar no momento da fúria preserva sua liberdade. Quem solta a língua sem filtro assina, muitas vezes, a própria sentença de solidão.

O Exorcismo da Tagarela (Minha Mea Culpa)

E aqui, faço uma pausa dramática para uma autocrítica ácida, antes que pensem que escrevo do alto de um monastério de votos de silêncio. A ironia não me escapa: logo eu, que adoro uma conversa, que tenho a língua solta e o pensamento rápido, estou aqui pregando a contenção. Para mim, a escrita nada mais é do que um sofisticado exorcismo. Eu escrevo justamente para dar vazão ao excesso, para não morrer engasgada com as minhas próprias opiniões e, principalmente, para não matar ninguém com elas na vida real. Sou uma "Senhora do Silêncio" em treinamento, mas confesso que, volta e meia, acordo com a tornozeleira de escrava da própria fala. Escrevo para me curar da minha própria verborragia. Afinal, se a palavra é prata e o silêncio é ouro, eu ainda estou tentando parar de gastar toda a minha prata à toa.


Feita a confissão, volto ao alerta: precisamos fazer uma necrópsia do nosso vocabulário diário. Estamos usando nossa voz (ou nossa escrita) para dar vida ou para espalhar pequenas doses de veneno? Que tenhamos a sabedoria de entender que a boca fala do que o coração está cheio. Se as palavras matam, é porque algo já morreu dentro de quem as profere.

Lembre-se da última vez que você se arrependeu de algo que disse. O silêncio, naquele momento, teria te mantido Rei/Rainha ou você, assim como eu, às vezes, preferiu se tornar escravo do seu impulso?

Reflitamos...

Até breve...

J.L.I Soáres


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