A Dor de Voltar ao Sofá e a Ilusão de Quem Procura Gente Pronta
Quem não tem um móvel preferido na sua casa? Uma poltrona, uma cadeira confortável, um sofá. Aquele móvel que te acolhe durante todo o seu período de solitude, onde você aprende a ser feliz com a sua própria companhia. Mas por vezes, o silêncio desse móvel não soa como paz; soa como eco.
Dizem que projetamos no outro a salvação que não encontramos em nós mesmos. A tal da idealização. Mas, às vezes, não é sobre salvar a si mesmo. Às vezes já estávamos salvos. Já estávamos inteiros. O desejo nem sempre é de completude, mas de transbordo. Às vezes é o desejo genuíno de ter alguém ao lado para partilhar a caminhada, não para nos carregar no colo.
Entramos nos relacionamentos com a guarda baixa, despidos de armaduras, acreditando na promessa implícita da parceria. Acreditamos que, finalmente, encontramos alguém que entende que o amor é uma construção diária, um canteiro de obras onde os dois carregam tijolos.
Mas a realidade, dura e crua, é que o mundo está cheio de pessoas que querem obras prontas.
Existe uma geração de homens e mulheres que buscam o parceiro "chave na mão". Querem alguém que já venha com a estabilidade inabalável, com a alegria constante, com a perfeição estética e emocional. E, ao primeiro sinal de poeira, de vulnerabilidade ou de necessidade de ajuste, eles pulam do barco. Eles não querem construir; eles querem consumir.
E é aí que nos perdemos. Na tentativa desesperada de fazer dar certo, Nos mutilamos. Cortamos pedaços da nossa personalidade, silenciamos nossas dores, escondemos nossa intensidade, tudo para caber na caixa estreita da expectativa do outro.
Deixamos de ser quem somos para tentar ser o que o outro "suporta".
E o resultado? O outro vai embora do mesmo jeito, porque quem não sabe lidar com a complexidade humana não fica com ninguém. E nós? Nós ficamos com o prejuízo de ter que nos remontar.
Por vezes nos vemos chorando não apenas pela perda de um "nós" que nunca existiu de fato, mas pela frustração da expectativa. Chegamos a pensar: "Dessa vez vai ser diferente. Dessa vez terei apoio. Dessa vez, não serei sozinho." A sensação é de voltar ao ponto zero. De olhar para o passado e pensar:
"Eu estava bem sozinho, por que fui tentar?".
Mas, respirando fundo e olhando para o céu, acabamos por entender que não existe ponto zero quando há movimento de alma.
O retorno à solitude dói, mas ele é também um livramento. Deus, em sua infinita sabedoria, às vezes permite que caminhemos até a beira do abismo apenas para nos mostrar que não devemos pular. Se a mão que esperávamos segurar não permaneceu para nos apoiar, então essa mão nunca foi de uma parceria verdadeira, foi apenas de um passageiro.
Amar exige coragem. Mas exige ainda mais coragem admitir que o amor que oferecemos foi grande demais para quem tem a alma pequena.
Voltemos para o móvel preferido. Voltemos para a nossa própria companhia. Mas jamais voltemos vazios. Voltemos cheios da certeza de que nossa individualidade é sagrada e que, se for para ter alguém, que seja alguém que ame o cheiro de terra molhada da construção, ajude a consertar as janelas quebradas, e não apenas a vista da varanda pronta.
Até lá, sigamos com a nossa fé (para os que a tem). Porque se Deus tirou, é porque estava ocupando o espaço de algo verdadeiro que ainda está por vir...
E você, caro leitor,;
Olhe para quem está ao seu lado hoje: é alguém disposto a carregar tijolos e construir junto com você, ou é apenas alguém que quer visitar a obra pronta quando o sol brilha?
Até Breve
J.L.I Soáres
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