segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O JARDINEIRO VS. O MINERADOR:

 Por que insistimos na Falácia do Sofrimento Necessário?

Há uma frase repetida à exaustão em palestras motivacionais e posts de redes sociais: “O carvão só vira diamante porque suporta a pressão”. É a imagem perfeita do Minerador. Ela sugere, com uma crueldade velada, que se o indivíduo não estiver sendo esmagado pelas circunstâncias, ele não tem valor. Se não dói, não transforma.

Politicamente e socialmente, este é o discurso da “meritocracia da dor”: sofra agora, trabalhe enquanto eles dormem, abdique da vida, e um dia, talvez, você será recompensado com o brilho eterno.

Mas a natureza, em sua sabedoria silenciosa, nos mostra o contrário através do arquétipo do Jardineiro. Uma flor não precisa ser “esmagada” para florescer; ela precisa ser nutrida. O pássaro não planta a semente com esforço hercúleo; ele apenas a deixa cair, e a terra faz o resto (Wu Wei).

Muitos adoram a metáfora do diamante. Dizem que é preciso suportar pressões insuportáveis para ter valor. Mas é preciso recusar essa lógica mineradora e questionar: a vida precisa ser uma guerra constante para ser grandiosa?

Vamos olhar para a realidade nua e crua, despida dos filtros do Instagram. Pensemos no indivíduo que seguiu a cartilha do sofrimento à risca. Aquele que acordou religiosamente às 5h da manhã, que treinou seu corpo e mente até a exaustão, que abriu sua empresa e depositou nela cada gota de suor e sanidade. Ele suportou a pressão. Ele aceitou a "forja".

E, ainda assim, o negócio faliu. O projeto não vingou. As portas fecharam.

Onde está o diamante prometido? Se a pressão é a única criadora de valor, o que dizer de quem foi esmagado e sobrou apenas como pó? Existe uma crueldade imensa em dizer a essa pessoa que "faltou pressão" ou que ela "não aguentou o suficiente". Às vezes, a pressão não cria joias; ela apenas cria escombros. Que "porcaria de forja" é essa que, muitas vezes, não entrega o guerreiro prometido, mas apenas um ser humano exausto e quebrado?

É necessário questionar se esse esforço desmedido não é, muitas vezes, um desperdício de energia vital em uma direção que não pedia força, mas sim jeito, timing ou, simplesmente, um solo diferente.

Por que, então, essa narrativa cola tanto? Por que tantas pessoas compartilham frases sobre "aguentar firme" como se fossem mantras sagrados?

Aqui entra um viés psicanalítico interessante. Existe uma categoria de pessoas para quem o sofrimento não é um meio, mas um fim inconsciente. Para a psicanálise, há um gozo nesse lugar de vítima heroica. Ao repetir que "a vida é dura", "sem dor não há ganho", o sujeito se exime da responsabilidade de buscar a felicidade genuína, que muitas vezes dá mais trabalho e exige mais coragem do que a tristeza. O Sofrimento como Narcótico.

Essas frases funcionam como anestésicos. Elas validam a estagnação. Para alguns, a dor serve como impulso; mas para outros, serve como um coma induzido. É mais fácil dizer "estou sofrendo porque estou sendo forjado" do que admitir "estou sofrendo porque não sei sair desse ciclo, ou porque escolhi o caminho errado".

O discurso do diamante valida o masoquismo social. Ele permite que a pessoa se sinta nobre enquanto é triturada, evitando o confronto real com a sua própria fluidez e desejo.

Nietzsche diria que a dor nos forja, sim. Há verdade nisso. Mas Lao-Tsé, o sábio do Tao, nos lembra da água.

A floresta não cresce gritando. O diamante é lindo (e adorável), mas é, em última análise, uma pedra morta. Estática. Dura. Já a flor é frágil, não suporta pressão mecânica nenhuma, e ainda assim é viva. Ela se renova. Ela gera frutos.

Disseram-nos que “sem dor, sem ganho”. Essa é a mentira que contam para que aceitemos o insuportável em silêncio. Enquanto um Estoicismo mal compreendido (e "pop") prega aguentar a pressão de dentes cerrados, o Taoísmo ensina a ser como a água. A água não briga com a rocha; ela a contorna. E, com o tempo, é a água que molda o mundo, não a pedra.

Existe valor na resistência, claro. Mas existe um poder ainda maior na fluidez. Não queiramos ser apenas um diamante duro e inquebrável, isolado em sua perfeição fria.

Eu prefiro a correnteza: suave o suficiente para abraçar, forte o suficiente para afogar, se necessário. A fluidez não é fraqueza, é poder de adaptação.

Paremos de romantizar o peso. Aprendamos a arte do fluxo. Tenhamos a coragem de sermos férteis como a terra, onde as coisas florescem porque foram nutridas, e não porque foram esmagadas.

Que possamos olhar para o nosso esforço não como uma dívida de sangue a ser paga ao universo em troca de sucesso, mas como uma dança com a realidade. Às vezes, a melhor resposta à pressão não é endurecer, é escoar por entre as frestas e encontrar um novo caminho.

Até Breve

J.L.I Soáres


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