sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

O CONVITE INSANO DOS AMORES DE "DELIVERY" E A SÍNDROME DE NIKITA

QUANDO A SEDUÇÃO É APENAS RECRUTAMENTO

Caro leitor;

Hoje decidi contar-lhes uma experiência, no mínimo "curiosa" e, com isso alertar sobre os riscos dos relacionamentos digitais, a comoditização do afeto e por que sua intuição (e seu anjo da guarda) valem mais que uma diária em hotel de luxo.

Vivemos a era dos Amores Líquidos e das conexões de bolso. O algoritmo nos promete a alma gêmea, mas, muitas vezes, entrega apenas um espelho das nossas próprias carências ou, pior, um predador disfarçado de oportunidade.

Embora existam belíssimas exceções, casais que se conheceram na rede e construíram impérios de afeto real, há uma dinâmica obscura crescendo nas DMs de mulheres bem-sucedidas, autônomas e solteiras. É o fenômeno do "Delivery Afetivo".

A Economia do "Vem pra Cá"

O cenário é quase um roteiro: o pretendente apresenta-se próspero, articulado, talvez um investidor de "mercados voláteis" ou um funcionário público com ares de magnata. A conversa flui, a química digital explode. E então, com uma rapidez suspeita (duas semanas, um mês), surge o convite: 

"Venha para a minha cidade. O hotel de luxo é por minha conta, você só paga o deslocamento."

Parece generoso, mas, sob a ótica da análise transacional, é uma armadilha. Ele oferece o ativo estático (o hotel, que talvez ele nem pague, usando permutas ou esquemas); ele exige de você o ativo de risco (o deslocamento, a exposição física, o sair da sua zona de segurança).

No popular, gosto de chamar isso de "Pepeka Delivery". Na análise comportamental, chamamos de Desvalorização Prévia. Quem se encomenda como fast-food será consumido como tal. Se o interesse fosse genuíno, a etiqueta da conquista exigiria que ele fosse até a dama, e não que a encomendasse como uma pizza de luxo.

O perigo, contudo, nem sempre é apenas físico (embora o risco de acordar em uma banheira de gelo sem um rim seja uma possibilidade que a mente atenta, ou por demais criativa, jamais deve descartar). Muitas vezes, o roubo não é de órgãos, mas de Capital Social

É tal qual a Síndrome de Nikita: A Mulher como Ferramenta.

Há um perfil de homem que busca mulheres específicas: empreendedoras, bem relacionadas (Clubes, Associações), com boa oratória e imagem respeitável. Ao seduzi-la, ele não busca uma namorada/esposa; ele busca uma "Nikita". Lembra-se do filme? Nikita era uma mulher treinada para ser uma arma, uma ferramenta nas mãos de uma agência.

Ele a chama de "Minha Nikita de São Paulo" não como um elogio à sua força, mas como um ato falho sobre a função que você desempenhará: a de abrir portas, usar seu networking e validar os "negócios" dele perante a sociedade. A sedução, aqui, é apenas uma etapa do recrutamento. Ele não quer seu coração; ele quer sua agenda de contatos.

Por que mulheres inteligentes, "vacinadas" e independentes ainda balançam com essas propostas?

Existe um fenômeno chamado de Transferência: Diante da solidão da mulher moderna, que carrega o mundo nas costas, a figura de um homem "poderoso", que promete resolver, cuidar e prover (mesmo que seja só uma diária de hotel), aciona o registro infantil da busca pelo Pai Protetor.

A carência é uma névoa que cega a intuição. Ela nos faz ver "Cuidado" onde existe apenas "Controle". Ela nos faz ver "Oportunidade" onde existe apenas "Oportunismo". Ignoramos as Red Flags (bandeiras vermelhas): a rapidez excessiva, a ostentação desmedida, o fato de ele seguir centenas de mulheres com o mesmo perfil que o seu (o harém digital de possíveis Nikitas).

Recusar o "delivery" não é conservadorismo; é instinto de sobrevivência. Dizer "não" ao hotel de luxo e responder "Se quiser me conhecer, venha até mim, jantaremos em público e conversaremos" é o filtro definitivo. 

Estejamos dispostas a pagar o "Preço da Intuição".

O predador, o golpista ou o aproveitador não tem paciência para o rito. Ele quer a facilidade. Ao impor uma barreira de dignidade, você repele quem queria te usar e, talvez, apenas talvez, atraia quem realmente queira te conhecer. Não se culpe por ter se encantado. 

A necessidade de criar laços é humana. 

Mas agradeça à sua "mente desconfiada" (ou ao seu anjo da guarda) por ter te mantido em terra firme. No mercado dos afetos, quem se entrega sem contrato de confiança acaba virando ativo na contabilidade de narcisistas. E você, mulher, vale muito mais do que uma passagem aérea e uma promessa vazia.

Estejamos Despertas.

E, "Da Janela do seu olhar"...

Quando alguém te oferece "o mundo" muito rápido, sua intuição grita "Cuidado" ou sua carência grita "Finalmente"?

Você sabe a diferença entre ser cortejada (valorizada) e ser recrutada (usada como ferramenta)?

Até breve...

J.L.I

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sábado, 2 de dezembro de 2023

O CAMINHAR PODE SER JUNTO MAS A JORNADA É INDIVIDUAL

 A ilusão da fusão e a beleza de sermos sós, acompanhados.

    Caro leitor;

    Crescemos ouvindo contos de fadas e canções românticas que nos vendem a ideia da "metade da laranja", do "dois em um", da fusão absoluta de almas. Acreditamos que amar é diluir-se no outro, é sentir o que o outro sente, é viver a vida do outro. Mas, da janela do meu olhar, a realidade se impõe com uma sobriedade necessária: 

Nascemos sós, morremos sós e, no intervalo entre esses dois pontos, evoluímos sós.

    Isso soa frio? Pelo contrário. É a base da verdadeira saúde emocional. O caminhar pode, e deve, ser compartilhado. Ter uma mão para segurar na estrada é uma das maiores delícias da existência. Mas a Jornada, aquilo que acontece dentro da pele, no silêncio dos pensamentos e na digestão das experiências, é intransferível.

    Muitas vezes, sofremos porque queremos viver a lição pelo outro. Queremos poupar quem amamos da dor, queremos injetar a nossa sabedoria na veia deles, queremos que eles vejam o mundo com os nossos óculos. Isso é impossível. A dor de dente do outro, por mais que eu sinta empatia, só dói na boca dele. O despertar espiritual do outro só acontece no tempo dele. Tentar carregar a mochila alheia não alivia o peso dele (pois a lição voltará até ser aprendida) e apenas sobrecarrega as minhas costas, impedindo o meu próprio passo.

Companhia vs. Simbiose

    Aceitar que a jornada é individual exige coragem para encarar a nossa Solidão Fundamental. Existem abismos internos que ninguém, nem o grande amor da sua vida, poderá preencher. Existem respostas que só podem ser encontradas no silêncio do próprio quarto. Quando paramos de exigir que o outro nos "complete" ou nos "salve", nós o libertamos. E, paradoxalmente, o amor flui melhor. Porque nada é mais leve do que caminhar ao lado de alguém que não está pendurado no seu pescoço.

Existe uma diferença abismal entre ser Companheiro e ser Muleta.

    Caminhar junto: É estar lado a lado, como dois trilhos de trem. Olhamos para a mesma direção, compartilhamos a paisagem, trocamos águas e histórias. Mas somos duas linhas paralelas e distintas.

    Jornada misturada (Simbiose): É tentar virar um nó. Um se apoia tanto no outro que, se um cai, os dois desmoronam. Perde-se a identidade. Não se sabe mais onde termina o meu desejo e começa o do outro.

    A beleza de um relacionamento maduro (seja amoroso, filial ou de amizade) está justamente na individualidade preservada. Eu te amo pelo que você é, não pelo pedaço de mim que projetei em você. Eu te acompanho e testemunho a sua evolução, mas não tento ser o roteirista da sua história.

    Caminhemos juntos, sim. De mãos dadas, trocando afeto. Mas lembre-se sempre: os sapatos que calçam os seus pés são apenas seus. E os passos que levarão à sua evolução, só você pode dar.

Você tem procurado parceiros de caminhada ou carregadores de bagagem? As pessoas ao seu lado somam na sua jornada ou você tem tentado viver a jornada delas?

Até breve.

J.L.I Soáres

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