O grito de quem diz:
"Eu não entendo o mistério, mas eu confio nele porque não aguento mais segurar esse peso sozinha."
Repetimos frases sagradas no piloto automático. "Seja feita a vossa vontade", "Entrego, confio, aceito e agradeço". Mas, da janela do meu olhar, pergunto-me: quantas vezes paramos para sentir o peso tectônico dessas palavras?
Dizer "Entrego meu espírito a Ti" é, talvez, o ato mais radical que um ser humano pode cometer. Porque entregar não é emprestar. Não é consignar. Entregar é abrir mão da posse. É soltar o volante em uma estrada de curvas sinuosas, confiando que uma inteligência invisível, que sequer conseguimos definir com precisão, assumirá a direção.
E aí reside a beleza aterrorizante dessa frase: "...ainda que eu não tenha ideia do que isso quer dizer."
Fomos ensinados a buscar certezas. Queremos o mapa, o GPS, a garantia de chegada e o seguro-viagem. Mas o Sagrado não trabalha com apólices de seguro; Ele trabalha com Salto de Fé. Quando digo que não tenho ideia do que significa essa entrega, estou admitindo a minha pequenez diante do Universo.
O ego odeia não saber. O ego quer definições: "Quem é esse 'Ti'? O que Ele vai fazer com meu espírito? Vai doer? Vai demorar?".
Mas a alma... ah, a alma suspira aliviada na ignorância.
Para a alma, não saber o que essa entrega significa é a libertação final. Significa que eu não preciso mais carregar o mundo nas costas. Significa que eu posso parar de tentar ser o Deus da minha própria vida — um cargo para o qual, convenhamos, nunca fui qualificada.
É assumir que a minha lógica cartesiana falhou.
É assumir que o meu controle era apenas uma ilusão de ótica.
É admitir que, talvez, o que eu chamo de "perda" seja, na visão Dele, um livramento.
Essa oração é o antídoto para a ansiedade moderna. É o momento em que a mente exausta se cala e diz: "Eu não sei o que vem depois, eu não sei nem quem Você é na totalidade, mas eu sei que não posso mais ficar onde estou. Então, toma. É Teu."
E nesse "não saber", paradoxalmente, encontramos a única paz possível: a paz de quem finalmente aceitou ser apenas humano.
Você tem tentado negociar com o Divino, impondo condições para a sua fé, ou tem a coragem de fazer uma entrega cega, sem garantias de retorno, apenas pela liberdade de soltar o controle?
Até Breve...
J.L.I Soáres
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