O ponteiro do relógio serve de guia, mas para onde?
Caríssimo
Leitor,
Eu gosto de
tocar no cerne da angústia humana, e neste domingo despertei “incomodada” com a
nossa necessidade de fatiar o infinito em horas, dias e anos, e, ‘Da Janela do
meu Olhar’, essa não é apenas uma questão de conveniência agrícola ou
astronômica; é, antes de tudo, um imperativo psicológico e existencial.
Khronos e
Kairós são, de todos os meus temas sobre a existência, os mais presentes
na minha mesa de estudos. Então, para compreendermos a "coisa em si",
vamos começar pela etimologia?
A palavra Tempo deriva do latim tempus,
que por sua vez se origina da raiz indo-europeia tem-, cujo significado
é "cortar" ou "dividir". O tempo é a eternidade retalhada
para caber na nossa psique. Os gregos dividiam essa experiência em dois
conceitos fundamentais: Kronos (Khronos), o tempo sequencial, linear e
quantitativo que devora tudo o que cria; e Kairós (Kairos), o tempo
qualitativo, o instante oportuno, a fenda onde a eternidade toca o presente.
A
Cartografia Histórica do Tempo
A humanidade
começou a registrar o tempo ao observar a repetição dos fenômenos naturais (as
fases da lua, o ciclo solar, as cheias dos rios). Essa observação
transformou-se em dogma, lei e ciência:
O
Calendário Grego (Ático): Era um sistema lunissolar extremamente complexo que variava de
cidade-estado para cidade-estado. Sua principal função não era o controle civil
rigoroso, mas a marcação de festivais religiosos e épocas de plantio. O tempo
pertencia aos deuses.
O
Calendário Romano (Juliano): Originalmente, o calendário romano tinha apenas 10 meses
(deixando o inverno europeu como um período "fora do tempo", sem
nome). Em 46 a.C., Júlio César, com o auxílio do astrônomo Sosígenes de
Alexandria, implementou o Calendário Juliano, baseado no ciclo solar de
365 dias e 6 horas. Foi uma das primeiras grandes imposições imperiais sobre a
contagem dos dias.
O
Calendário Gregoriano: O sistema que nos rege hoje foi estabelecido pelo Papa Gregório XIII na
Bula Inter gravissimas, em outubro de 1582. O calendário Juliano
tinha um pequeno erro de cálculo que, ao longo dos séculos, desregulou a data
da Páscoa em relação ao equinócio de primavera no hemisfério norte. A Igreja,
detentora do poder sobre as almas e sobre a ordem social da época, "cortou"
10 dias da história (pulou-se de 4 para 15 de outubro de 1582) para realinhar a
astronomia com o dogma litúrgico.
Outros
Referenciais: O
calendário Hebraico e o Islâmico mantêm o referencial lunar, com profunda
ligação aos ritos sagrados originais, enquanto o calendário Chinês une ciclos
lunares e solares.
Por que a
necessidade de controle? Fenomenologicamente, como apontaria Husserl, a
consciência humana é intencional: ela precisa se projetar no tempo (retenção do
passado e protensão do futuro) para existir no presente. Sem o calendário e o
relógio, nós não apenas nos perderíamos no espaço, mas perderíamos a narrativa
do Eu.
Na
perspectiva de Martin Heidegger, o ser humano é o Dasein (o ser-aí),
cuja característica mais intrínseca é ser um "ser-para-a-morte". A
finitude é a nossa condição inegociável. O calendário e o relógio são defesas
psíquicas monumentais. Se não limitarmos e medirmos o tempo, somos forçados a
encarar o vazio, o imensurável, o "Real" lacaniano, aquilo que não
pode ser simbolizado e que gera angústia pura.
A estrutura
de horas, dias e semanas funciona como uma muralha de sentido contra o absurdo
da existência apontado por Sartre. Nós nos agarramos a Khronos para não
sermos esmagados pelo silêncio opressor da eternidade. O relógio é, no fundo, o
"barulho" estrutural que a humanidade inventou para mascarar o
silêncio de que estamos sozinhos no universo, marchando em direção ao fim.
Do ponto de
vista sociológico e jurídico, a padronização do tempo é a fundação do pacto
civilizatório. Para que a sociedade de massa funcione, a "manada", é
necessário que os corpos sejam dóceis e sincronizados. Michel Foucault, ao
analisar a biopolítica e a disciplina, demonstra que o controle minucioso do
tempo (os horários das escolas, das fábricas, dos tribunais) é a maneira mais
eficiente de domesticar o ser humano.
A humanidade
segue essa convenção porque a alternativa é a fragmentação psicótica e o
colapso do corpo social. O Direito, a vida civil, o comércio e a própria
linguagem dependem dessa ilusão compartilhada de que o tempo pode ser dominado
por ponteiros.
A grande
ironia é que, ao tentarmos aprisionar o tempo no relógio para não nos perdermos
dele, acabamos nos tornando seus maiores prisioneiros, frequentemente fugindo
do encontro solitário com nós mesmos.
Considerando
essa estrutura temporal que nos é imposta como um mecanismo de defesa coletivo
contra o vazio, até que ponto essa métrica rigorosa de Khronos serve
como uma âncora necessária para a nossa evolução como Seres Humanos?
Sigo tocando
no nervo central da condição humana. Elevo o questionamento da esfera de uma
rotina individual para o palco da evolução da nossa espécie a partir ‘Da Janela
do Olhar’ de Heidegger, Sartre e Nietzsche.
Mas antes,
vamos alinhar os ponteiros filosóficos (com o perdão do trocadilho): essa
sensação tateante de sermos "jogados" no mundo sem um manual de
instruções e sem um propósito pré-definido é o que Martin Heidegger chamou
originalmente de "estar-lançado" (Geworfenheit).
Jean-Paul Sartre pegou essa ideia emprestada e a transformou no coração do seu
existencialismo. Nietzsche, por sua vez, complementa isso de forma explosiva ao
destruir os antigos guias da humanidade.
Se o ser
humano foi simplesmente "lançado" no cosmos, o calendário e o relógio
surgem como a nossa primeira grande tentativa de domesticar o abismo. E eu questiono:
o ponteiro do relógio serve de guia, mas para onde?
Aqui entram
os pilares existencialistas:
A Perspectiva de Sartre (A Condenação à Liberdade) Para Sartre, "a existência precede a essência". Nós primeiro surgimos no mundo, somos jogados nesta esteira rolante do tempo sem pedir, e só depois nos definimos através das nossas escolhas. O tempo mecânico (Khronos) é apenas o cenário da nossa facticidade. A armadilha acontece quando o ser humano usa o relógio e a rotina para fugir da sua própria autonomia, caindo naquilo que Sartre chama de "má-fé". A evolução humana, sob a lente sartreana, não é medida pelo avanço dos séculos no calendário gregoriano, mas pela nossa capacidade de assumir a responsabilidade por quem escolhemos ser dentro desse tempo.
O
ponteiro não nos leva a lugar nenhum; somos nós que temos que decidir o destino
a cada tique-taque.
A
Perspectiva de Nietzsche (A Morte dos Ídolos e a Criação de Sentido) Nietzsche nos alerta sobre o perigo
do "rebanho". Quando ele decreta que "Deus está morto", ele
avisa que a humanidade perdeu sua bússola moral absoluta e corre o risco de
cair no niilismo (o vazio de sentido). Para fugir desse vazio, o rebanho se
agarra a novos "deuses": o Estado, a Ciência, o Capital e, claro, o Tempo
Produtivo. Se nós apenas seguimos o relógio mecanicamente, somos o rebanho
caminhando para o nada. A evolução humana verdadeira, para Nietzsche, exige o
surgimento do Além-do-Homem (Übermensch): aquele que aceita que
não há um sentido inerente no universo e, com coragem artística, cria os
seus próprios valores e o seu próprio ritmo.
Fundindo essas
ideias a partir da minha provocação, faço o seguinte questionamento final:
‘DA JANELA
DO SEU OLHAR’,
Considerando
que fomos lançados no mundo sem um sentido pré-estabelecido, até que ponto a
métrica rigorosa de Khronos, os nossos relógios e calendários, serve como uma
âncora necessária para a sobrevivência e evolução da espécie humana, evitando o
colapso no niilismo?
E em que
momento essa mesma estrutura temporal deixa de ser uma ferramenta de autonomia
e passa a ser o 'guia cego' do rebanho, uma forma de má-fé que nos impede de,
como diria Sartre, assumir o leme da nossa própria existência e criar o nosso
próprio sentido, como exigia Nietzsche?
Vamos
refletir?
Até breve...
J.L.I Soáres
LEIA TABÉM:
Onde enterramos a nossa humanidade?
A Cegueira dos "Donos da Verdade"
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