A Terra como Laboratório
de Rascunhos
Caríssimo leitor;
O mundo é a nossa ostra. A
sabedoria popular nos ensinou a olhar para esta metáfora sob a lente do
sacrifício: o grão de areia invade, fere a carne frágil do molusco e, da dor
purulenta, nasce a pérola. Por séculos, fomos condicionados a um culto ao sofrimento,
acreditando que a elevação do espírito exige o martírio.
Mas e se ousarmos aplicar uma
nova lente fenomenológica a esse evento?
A secreção do nácar não precisa
ser lida exclusivamente como uma agonia interminável. Ela é, em sua essência,
um movimento de envolvimento, de integração. Quando paramos de idolatrar a dor,
percebemos que o burilamento da alma pode ser fluido, feliz e pautado pelo
amor. Envolver os atritos da existência com a suavidade do nosso próprio
"nácar interno" é um ato de profunda dignidade (do latim dignitas, o
valor inerente ao ser), onde a sabedoria substitui a cicatriz.
A Terra, sob essa ótica, não é um
vale de lágrimas punitivo, mas um colossal laboratório alquímico.
Etimologicamente, a palavra laboratório une labor (trabalho) e oratorium (lugar
de concentração e prece). É aqui, no barro da realidade cotidiana, que operamos
nossa transformação.
Somos todos rascunhos
ontológicos, obras in fieri (em processo de vir a ser). Estamos repletos de
rasuras, parágrafos reescritos e bordas mal aparadas, tentando, dia após dia,
polir nossas arestas através das interações humanas.
Contudo, a multiplicidade de
personas que habitam nossa psique torna esse laboratório um lugar, no mínimo,
peculiar. Se observarmos com a devida distância cômica, a Terra é,
inegavelmente, o manicômio do universo.
Somos bilhões de almas
rascunhadas, esbarrando umas nas outras em uma coreografia existencial caótica,
cada qual com suas múltiplas facetas e paradoxos. E qual é a nossa maior e mais
bela loucura? O delírio compartilhado. A palavra delírio vem do latim de-lirare,
que significa literalmente "sair do trilho", desviar-se do sulco do
arado.
E não é exatamente isso que
fazemos quando sonhamos com um mundo ideal?
Somos pacientes deste hospício
cósmico, absolutamente inebriados pela esperança de uma utopia que talvez nem
exista, mas que funciona como a cenoura na frente do burro, nos fazendo
caminhar. E no fim das contas, abraçar esse delírio, rir da nossa própria
condição de rascunhos inacabados e construir nossas pérolas com alegria em vez
de sangue, talvez seja o maior atestado de sanidade que podemos emitir.
Emitir esse atestado de sanidade,
contudo, exige uma transição das ideias para as vísceras da rotina. É
imperativo questionar: como aplicamos essa recusa ao "dolorismo" na
prática crua das relações interpessoais?
A resposta reside em uma mudança
radical de paradigma psíquico e filosófico. Historicamente, fomos sequestrados
pela ideia de que apenas a tristeza ensina. Na psicanálise freudiana,
observamos a "compulsão à repetição", um mecanismo inconsciente onde
o indivíduo recria situações dolorosas na vã esperança de, desta vez,
dominá-las. Transformamos nossas vidas em um fetiche do trauma, buscando
ativamente o "grão de areia" que nos fere para justificar nosso valor
através da cicatrização.
Contrapondo-se a isso, o filósofo
Baruch de Espinosa nos oferece a saída através dos afetos alegres. Para
Espinosa, a alegria é a passagem para uma perfeição maior, o aumento da nossa
potência de agir (conatus). Quando decidimos secretar o nosso nácar interno a
partir de Eros (amor e pulsão de vida) e não de Thanatos (pulsão de morte),
paramos de reagir às ofensas do mundo com espinhos e passamos a reagir com
sabedoria.
Na prática, isso significa que,
quando o atrito humano acontece no trânsito, em uma traição, na decepção com um
colega no nosso grande "manicômio", a Metáfora da Navalha deve ser
acionada. Cortamos a narrativa de que "fomos vítimas de uma injustiça que
nos destruirá" e assumimos a postura soberana de quem observa o fenômeno
(a coisa em si): um evento ocorreu. Ele raspa, incomoda. Mas a decisão de
envolvê-lo em compreensão, impor limites éticos com firmeza e não se deixar
consumir pela amargura é, em si, a própria elevação espiritual acontecendo de
forma lúcida, não sádica.
É exatamente nesta intersecção
que a Dialética Sagrado-Profano se manifesta com maior esplendor. O sagrado não
habita o isolamento asséptico dos monges que fogem do mundo; o sagrado se forja
no profano absoluto das nossas idiossincrasias diárias.
Reconhecer que somos loucos e
falhos não é uma confissão de derrota, mas a alforria definitiva. Ao aceitarmos
a Terra como esse laboratório caótico e maravilhoso, nós nos despimos da
arrogância do perfeccionismo. Perdoamos o rascunho no outro porque reconhecemos
a rasura em nós mesmos.
A verdadeira espiritualidade,
entrelaçada à maturidade psíquica, é profundamente bem-humorada. Ela ri do
próprio tropeço. Ela entende que a ostra não precisa celebrar o corte, mas pode
se orgulhar imensamente da arte de envelopar o caos com beleza. Que o nosso
legado, portanto, não seja o das cicatrizes que acumulamos em batalhas inúteis,
mas a coleção das pérolas que escolhemos forjar enquanto dançávamos, inebriados
de esperança, no grande salão deste manicômio sideral.
Até breve...
J.L.I Soáres
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