A Graça Não É Detergente: Lutero, Agostinho e a Psicanálise do Pecado Confortável
Caro Leitor,
No artigo anterior "O Divã e o altar", propus uma distinção que incomoda: o confessionário não é
um pronto-socorro emocional, e o padre não é um terapeuta pro bono. A questão não se exaure em um único olhar, ela revela algo que eu suspeitava: toquei num nervo. E nervos expostos merecem
ser examinados com mais cuidado, não com mais anestesia.
Esta reflexão nasceu da madrugada de hoje (a insônia me fez companhia) com um livro aberto: História das
Religiões, de Karoline Melo, e uma nota garatujada às cinco da manhã que naturalmente se conectou com o post anterior. O
trecho que me deteve foi este:
"As 95 teses luteranas consistiam em criticar algumas práticas
abusivas da Igreja Católica como a cobrança excessiva de indulgências, que eram
tratadas como um pré-requisito para o perdão dos pecados e, portanto, para a
salvação. Além disso, Lutero acreditava que o pecado estava associado às
paixões que acometem o indivíduo, enquanto na doutrina católica os pecados eram
fruto de uma escolha deliberada."
Cinco linhas. E uma tensão que a teologia levou séculos para nomear e que nós,
fiéis do século XXI, reproduzimos com uma fidelidade que envergonharia tanto
Lutero quanto Roma.
Ao afirmar que o pecado é paixão inevitável e não escolha deliberada da
vontade, Lutero construiu, inadvertidamente, uma soteriologia onde a conduta
moral perde urgência estrutural. Se o ser humano nasce e morre no pecado, e
apenas a fé o salva (sola fide), a ética torna-se consequência, nunca
condição. A fé vira salvo-conduto.
A ironia histórica é densa: o católico que peca contando com a confissão
subsequente opera precisamente essa lógica não a lógica oficial de Roma, mas
a luterana. A graça funciona como mecanismo de reset, o sacramento como
cláusula contratual de rescisão automática. É mais mercantil do que as próprias
indulgências que Lutero combateu porque dispensa até o pagamento.
No artigo anterior, chamei esse fenômeno de Fé Bumerangue: pecar durante a
semana com a tranquilidade presunçosa de quem "zera o jogo" no
domingo. Agora preciso nomear sua arquitetura psíquica porque ela é mais
sofisticada, e mais perigosa, do que parece. É a Armadilha Luterana que muitos de nós católicos praticamos.
Freud identificou na transferência o mecanismo pelo qual o sujeito desloca
para uma figura presente os afetos não elaborados dirigidos a figuras passadas, geralmente parentais. No setting clínico, isso é recurso terapêutico: o
analista recebe a projeção e a devolve elaborada. No confessionário, porém, não
há esse manejo, nem pode haver, porque não é essa a função ontológica do
sacramento.
O sacerdote que recebe a transferência paterna sem instrumental clínico para
geri-la (nem todos tem formação extra em psicologia/psicanalise além de filosofia e teologia) e então, não elabora: absorve. E o que se absorve sem elaboração sedimenta como
patologia. O burnout clerical não é apenas sobrecarga de agenda, é
intoxicação transferencial crônica, sem espaço de supervisão, sem
continente institucional, sem nome dado ao que acontece.
Mas há uma camada ainda mais perturbadora. Jacques Lacan identificou no
superego a instância psíquica da Lei e da interdição, uma face obscura:
paradoxalmente, quanto mais o sujeito obedece ao ritual, mais o superego
demanda o gozo que o ritual promete perdoar. O fiel que peca contando com a
absolvição não transgride apesar da lei religiosa; transgride através dela. O Outro, encarnado no padre como representante da Lei divina, é convocado
não para interditar o desejo, mas para legitimá-lo.
É uma formação de compromisso perfeita no sentido freudiano: satisfaz
simultaneamente o id que deseja e o superego que exige a forma ritual do
arrependimento. O pecado é cometido, o ritual é cumprido, a culpa é
administrada e o ciclo recomeça intacto. A confissão, nesse uso pervertido,
não é sacramento de conversão: é gestão periódica da culpa.
Byung-Chul Han, ao descrever a Sociedade do Cansaço, aponta que o sujeito
contemporâneo adoece não por opressão externa, mas pela auto exploração
voluntária, o imperativo interno de rendimento ilimitado. O clero opera essa
lógica de forma invertida e ainda mais perversa: o sacerdote não se auto explora
por ambição, é explorado pela carência alheia, que se apresenta com o rosto da
piedade. A demanda afetiva do fiel infantilizado é tão exigente quanto qualquer
mercado de produtividade, com a agravante de vir revestida de linguagem
sagrada. Essa invisibilização do esgotamento clerical é o que Han chamaria de
violência da positividade: não há algoz visível, apenas uma exaustão que
não encontra nome nem amparo.
Pecado Não É Angústia: A distinção entre pecado e angústia não é apenas operacional, é ontológica.
O pecado pressupõe liberdade: só se peca onde há escolha consciente e
deliberada de romper com o bem conhecido. É um ato da vontade. A angústia, ao
contrário, é anterior à escolha, ela habita o sujeito antes que ele decida
qualquer coisa, emerge do intervalo entre o desejo e a lei, entre o que se é e
o que se deveria ser. Kierkegaard, que inaugurou a análise filosófica da angústia, a definiu como a
vertigem da liberdade, o mal-estar que precede toda escolha, não o remorso
que a sucede. Confessar a angústia é, portanto, um equívoco estrutural: não há
matéria, não há ato, não há vontade implicada. É como acusar-se de ter tido
febre.
O confessionário foi instituído para absolver atos da vontade, não para
acolher os tremores da psique. Essa é a fronteira que o fiel moderno, órfão de
escuta e de autoconhecimento, atravessa sem perceber, transformando o tribunal
da misericórdia numa cama de hospital sem médico.
Agostinho Contra Todos E a Favor da Verdade
Aqui é onde o pensamento ganha sua maior densidade e sua maior consolação. Contra Pelágio, que defendia a capacidade natural da vontade humana de escolher
o bem, Agostinho foi cirúrgico: a vontade corrompida não se disciplina a si
mesma. Ela precisa ser curada de fora. A santidade não é esforço, é reorientação do desejo pela graça.
O "Ama et fac quod vis", "Ama e faz o que quiseres", não é licença
moral. É a descrição de um sujeito cujo querer foi transformado de dentro: se
você ama corretamente, o que você quiser fazer será, por definição, o bem. Não
é repressão do impulso. É transmutação da fonte. Aqui Agostinho antecipa, quinze séculos antes de Freud, uma operação que a
psicanálise chamará de sublimação, mas com uma diferença estrutural
decisiva. Em Freud, a sublimação desvia a energia pulsional para objetos
socialmente aceitos sem eliminar a tensão de base. Em Agostinho, a graça não
desvia: ela transforma a própria estrutura do querer.
O que Lacan leria como a
captura do sujeito pelo Outro absoluto a ponto de a lei interior coincidir com
a lei divina, a resolução que a neurose nunca alcança, porque a neurose vive
exatamente do intervalo entre o desejo e a lei. E o paradoxo final fecha o triângulo com precisão perspicaz: o protestantismo,
ao herdar a antropologia agostiniana da vontade corrompida, guardou Agostinho com
mais fidelidade do que o catolicismo popular que ele teoricamente fundou. Lutero era monge agostiniano. A sola gratia luterana é herança direta da
convicção de Agostinho de que a graça não recompensa o esforço, ela o precede
e o torna possível.
O fiel que conta com a confissão é, sem saber, mais luterano na prática e mais
pelagiano na presunção: acredita ter vontade suficiente para pecar com
consciência, e graça suficiente para ser perdoado sem transformação.
No artigo anterior, propus uma regra simples: cinquenta minutos para entender o
que se sente, pague um psicólogo. Três minutos para confessar que matou a
graça em sua alma e quer ressuscitá-la, busque um padre.
A Regra Permanece Mas Agora Sabemos Por Quê! Agora sabemos a arquitetura que sustenta essa regra. O confessionário não é ineficaz para a angústia porque o padre é incompetente, é ineficaz porque a angústia não tem matéria confessável. Ela exige elaboração,
não absolvição. E a graça não é inerte diante do pecado deliberado, ela é
exigente: requer o Firme Propósito de Emenda, que é, em linguagem
psicanalítica, a disposição real de reorganizar a estrutura do desejo, não
apenas de nomear o ato.
Pecar contando com o perdão futuro não é confiança na misericórdia. É tratar o
Sangue de Cristo como detergente barato e, pior, é usar a linguagem da
humildade para praticar a mais sofisticada forma de presunção. Lutero, Agostinho e o fiel médio contemporâneo formam um triângulo onde cada
vértice acusa os outros dois de incoerência. E os três têm razão, porque o
problema não é doutrinário. É estrutural. É o problema do desejo humano
confrontado com a lei, que a teologia tenta resolver pelo dogma e a psicanálise
pela palavra e nenhuma das duas elimina a tensão. Apenas a nomeiam de formas
distintas.
A fila da confissão diminuiria. A saúde dos padres melhoraria. E,
paradoxalmente, a nossa santidade aumentaria. Porque o confessionário é lugar de ressurreição, não de manutenção de
cadáveres.
E "Da Janela do seu Olhar", caro leitor:
Quando você se ajoelha no confessionário, o que está buscando: absolvição ou
alívio? Conversão ou gerenciamento da culpa?
O Firme Propósito de Emenda que
você declara: é intenção real ou cláusula de estilo?
A resposta honesta a essas perguntas vale mais do que qualquer absolvição
obtida sem ela.
Até Breve...
J.L.I Soáres
LEIA
TAMBÉM:
'O Divã e o Altar — Parte I: A Infantilização da Fé e o Adoecimento do
Clero' : O Divã e o Altar — Parte I