sexta-feira, 21 de abril de 2023

ANCESTRALIDADE - AS CHAGAS QUE CARREGAMOS

 Até onde a sua vida é sua e onde começa a repetição do destino de quem veio antes?

Chegamos ao mundo acreditando que somos páginas em branco, prontas para serem escritas com a tinta da nossa livre escolha. Mas, da janela do meu olhar, percebo que já nascemos com parágrafos inteiros redigidos, com margens definidas e com notas de rodapé que ditam o que é permitido e o que é proibido sentir.

Além da cor dos olhos e do tipo sanguíneo, herdamos de nosso núcleo familiar algo muito mais pesado e invisível: as crenças disfuncionais. São as chagas emocionais que não cicatrizaram nos nossos avós e que foram passadas aos nossos pais, que, por sua vez, as depositaram silenciosamente em nosso berço.


Crescemos ouvindo frases que funcionam como verdadeiros decretos de limitação. "Dinheiro é sujo", "homem não presta", "para ser honesto tem que sofrer", "amor é sacrifício". Essas crenças agem como paredes laterais em nossa psique. Elas estreitam a nossa visão periférica. Passamos a vida caminhando por um corredor estreito, incapazes de ver as infinitas possibilidades que existem à direita ou à esquerda, simplesmente porque o nosso clã nunca olhou para lá. Vivemos com o freio de mão puxado, repetindo padrões de escassez ou de solidão, não porque queremos, mas por uma lealdade invisível e tóxica à dor dos nossos antepassados.

É como se, inconscientemente, disséssemos: "Eu sofro como vocês para pertencer a vocês".

Porém, existe um momento de ruptura. É aquele instante lúcido em que olhamos para essas cicatrizes antigas e percebemos que elas explicam nossa história, mas não precisam determinar nosso destino. Observar a chaga é o primeiro passo para a cura. Quando identificamos que aquele medo de prosperar não é nosso, mas do avô que faliu em 1950, a crença perde força. Quando percebemos que a submissão não é nossa natureza, mas uma herança das mulheres da família que não tinham voz, podemos escolher falar.

Transmutar a vida exige uma certa dose de "traição" às tradições de dor da família. É preciso ter a coragem de ser o primeiro a ser feliz no amor, o primeiro a ter dinheiro sobrando, o primeiro a descansar sem culpa. Podemos olhar para essas crenças arraigadas, agradecer pela proteção que elas tentaram oferecer no passado e, com firmeza, decidir ignorá-las daqui para frente. Ignorar não no sentido de negar, mas de tirar o poder de comando.

Honramos nossa ancestralidade não quando repetimos seus sofrimentos, mas quando temos a ousadia de curar o que eles não conseguiram. A maior vingança contra um passado de dor é um presente de liberdade. As paredes laterais caem e, finalmente, o horizonte se abre.

 Qual 'verdade absoluta' você carrega sobre dinheiro ou amor que, se você investigar bem, vai descobrir que nunca foi sua, mas apenas uma herança que você esqueceu de devolver?


Até Breve.

J.L.I Soáres

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