Quando a vida devolve o que tentamos engolir sem digerir.
Fala-se muito sobre a beleza do "Fluxo" soltar, deixar ir, navegar rio abaixo. Mas, da janela do meu olhar, é preciso falar sobre o fenômeno oposto e igualmente humano: o Refluxo. O refluxo existencial é aquilo que volta. É o passado que bate na porta quando achávamos que já tinha ido embora. É a mágoa antiga que sobe queimando a garganta numa terça-feira qualquer. É a lição que jurávamos ter aprendido, mas que a vida coloca de novo na mesa, com um gosto ainda mais amargo.
A Acidez do Não-Dito
Por que o refluxo acontece? Na fisiologia, ele ocorre quando a válvula que deveria conter o alimento falha. Na alma, ele ocorre quando tentamos "engolir a seco" experiências que precisavam ser mastigadas, compreendidas e integradas. Temos o hábito de soterrar emoções. Engolimos o choro, engolimos a raiva, engolimos o "não" que queríamos dizer. Achamos que, ao empurrar para baixo, o problema desaparece. Ledo engano. O inconsciente não tem lixeira; ele tem arquivo vivo. E o que não foi digerido pela consciência acaba retornando como acidez, ansiedade ou repetição de padrão.
O refluxo, embora desagradável, não é um castigo; é um aviso. A queimação no peito é a vida dizendo: "Olhe para isso de novo. Você não resolveu, você apenas escondeu." O fluxo natural da vida só pode ser retomado quando paramos de lutar contra esse retorno. Em vez de tomar um antiácido emocional (distrações, vícios, negações) para silenciar o sintoma, precisamos ter a coragem de sentir o gosto amargo do que voltou. É o incômodo como sinal...
Precisamos perguntar: "Por que isso ainda me fere? O que ficou pendente aqui?"
Aceitar o refluxo é parte da cura. É entender que a digestão da alma é lenta e que, às vezes, precisamos revisitar a mesma dor algumas vezes até que ela finalmente se transforme em nutriente e pare de queimar. Só então, de verdade, o fluxo volta a correr límpido.
E, "Da Janela do seu Olhar";
O que tem voltado repetidamente para a sua vida causando desconforto? Será que não é hora de parar de tentar engolir de novo e finalmente resolver essa pendência?
Até breve...
J.L.I Soáres
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