No meu devocional diário, celebro a sacralidade dos sentidos, mas há uma reverência especial que reservo ao milagre da visão. Não falo apenas da biologia perfeita que permite que a luz toque a retina e desenhe o mundo em cores e contornos. Falo de algo mais profundo, mais raro e infinitamente mais precioso: a graça de possuir olhos de ver.
Existe um abismo entre enxergar e ver. Enxergar é uma função mecânica; ver é uma função da alma.
Agradeço, profundamente, por não transitar pela vida na superfície das coisas. Agradeço pela capacidade de ver além da casca, de ler as entrelinhas de um silêncio, de perceber a dor escondida atrás de um sorriso social e de identificar a beleza onde a maioria só vê rotina. Ter olhos de ver é possuir a chave que decodifica o mundo. É olhar para uma árvore e não ver apenas madeira, mas a respiração da terra. É olhar para um desafio e não ver apenas um muro, mas um convite à superação.
Essa consciência do olhar é o que transforma a existência em altar. Quando vemos de verdade, o julgamento perde a força e dá lugar à compreensão. Quando vemos com a lente da essência, o medo do desconhecido se dissipa, pois conseguimos enxergar a mão do Divino orquestrando o caos aparente.
Não é sempre confortável ter essa nitidez. Às vezes, ver demais dói. Ver a verdade nua e crua exige coragem. Mas eu não trocaria essa lucidez por nenhuma cegueira confortável. Hoje, minha prece é simples e visual: Obrigada, Vida, por não me deixar apenas olhar a paisagem, mas por me permitir enxergar o mapa. Obrigada por me dar a visão que não se limita à ótica, mas que se expande na consciência.
Quantas vezes hoje você apenas olhou para as pessoas ao seu redor e quantas vezes você realmente as viu?
Até breve.
J.L.I Soáres
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