sexta-feira, 12 de junho de 2026

A Oração

Como Aplicativo de Relacionamento

 

Caro Leitor,

Existe uma gramática específica para os dias em que a cultura decreta o que você deveria ser. O Dia dos Namorados é um desses dias, e os discursos que o habitam, religiosos ou não, costumam operar com a mesma lógica: primeiro instalam a ausência como problema, depois oferecem a solução. O nome que se dá a esse movimento, no marketing, é funil. Na retórica sagrada, chama-se orientação espiritual.

“Da Janela do meu Olhar”, são mensagens que merecem ser lidas com atenção. Não para serem descartadas, mas para serem pensadas com a seriedade que a fé exige e que o formato das redes raramente permite.

Na tradição da retórica clássica, existe o que Cícero chamava de captatio benevolentiae; a conquista da benevolência do interlocutor como abertura do discurso persuasivo. O que observo é que essa hermenêutica opera com sua inversão: não seduz pela beleza, mas captura pela ferida. Identifica uma vulnerabilidade real, a solidão afetiva, especialmente aguda numa data construída culturalmente para celebrar o par, e a nomeia com aparente acolhimento. Não se preocupe. Só que logo desfaz o conforto prometido: muito pior seria o pecado. A estrutura é cirúrgica: cria a angústia que finge curar. É a manifestação legítima da anatomia de uma Armadilha Retórica.

Isso não é acolhimento. É o que a retórica contemporânea chama de manufactured demand, demanda fabricada pelo próprio ofertante. O mesmo mecanismo que a publicidade secular domina com maestria: primeiro você não sabia que precisava, depois não consegue mais não precisar. A diferença é que a publicidade vende produto. Aqui se vende absolvição de uma culpa que o discurso acabou de instalar.

O Que Peccatum Realmente Significa

A palavra pecado vem do latim peccatum, derivado do verbo peccare, errar, tropeçar, desviar-se. Mas é na raiz grega que a riqueza semântica se revela com mais precisão: o Novo Testamento usa preferencialmente hamartia, que significa literalmente errar o alvo, como o arqueiro que aponta e falha na trajetória. Não há ali nenhuma conotação jurídica originária. Há uma conotação ontológica: o ser humano como ser que erra o alvo de si mesmo.

A criminalização da hamartia, sua transformação de categoria existencial em categoria jurídico-moral de infração, é um processo histórico identificável. Ele se consolida, sobretudo, no Concílio de Trento (1545–1563), convocado em resposta direta à Reforma Protestante. Ali, a Igreja precisou sistematizar e endurecer sua doutrina penitencial como instrumento de coesão institucional. O pecado, que na patrística agostiniana era acima de tudo distância de Deus, uma ferida na relação, não uma ficha criminal; torna-se progressivamente uma transgressão a ser catalogada, confessada em espécie e número, e juridicamente absolvida.

O leigo que hoje recebe a mensagem "você está no pecado" não recebe a profundidade agostiniana. Recebe o peso tridentino. E há uma diferença abissal entre os dois.

O que me inquieta de forma mais visceral não é a menção ao pecado. É a premissa que afirma: para quem tem vida de oração, a solidão não existe.

Mestre Eckhart, no século XIII, diria exatamente o oposto, e diria com alegria. A Abgeschiedenheit, o desprendimento ou "desapego interior" que ele considerava a virtude mais elevada, era precisamente a capacidade de habitar a solidão como espaço de encontro com o Fundo do Ser (der Grund). João da Cruz chamaria esse mesmo território de noche oscura, a noite escura da alma, não como ausência de Deus, mas como modo mais puro de Sua presença, onde toda imagem, toda companhia, todo conforto sensível é esvaziado para que reste apenas o essencial.

Teresa de Ávila, que sabia o que era solidão, viveu décadas num convento sem a experiência mística que ansiava, nunca prometeu que a oração extinguiria o desejo de companhia humana. Ela prometeu que a oração transformaria a relação do sujeito com esse desejo. Há uma distância enorme entre, a solidão não existe para quem ora e a oração transforma o modo como habitamos a solidão. A primeira é uma promessa que a experiência humana desmente cotidianamente, e que, quando desmentida, produz no crente não fé renovada, mas vergonha: se ainda me sinto só, é porque minha oração é insuficiente. A segunda é teologia honesta. É o que a tradição contemplativa, em sua melhor expressão, sempre soube.

O Dia dos Namorados brasileiro, criado em 1948 pelo publicitário João Dória e fixado em 12 de junho, véspera da festa litúrgica de Santo Antônio, padroeiro dos enamorados, calculadamente aproveitando a devoção popular para ancorar a data comercial; não tem raiz sacramental. É uma data de mercado que a devoção popular abraçou, e que o discurso religioso subsequentemente colonizou.


“Da Janela do meu Olhar”, usar essa data para ativar culpa num público que experimenta a solidão afetiva involuntária como estigma social, numa cultura que, diga-se, romantizou a conjugalidade como prova de valor pessoal muito antes de qualquer influência doutrinária, e então oferecer a oração como solução terapêutica é uma operação que merece ser nomeada com precisão: é a tutela espiritual operando com a lógica do “pain point” do marketing digital.

Não é direção de consciências. É segmentação de audiência.
 

Aqui não se trata de recusar a mensagem em seu núcleo. A convocação à oração é legítima. A afirmação de que a vida espiritual enriquece a vida relacional é verdadeira. O convite a não reduzir a própria existência à ausência de um parceiro é, inclusive, libertador.

O problema não é o quê. É como.

A mesma substância poderia ser transmitida com inteireza intelectual e honestidade teológica: a oração não é um instrumento para obter o que falta, é a prática que expande a capacidade de amar e de ser amado. Não porque extingue a solidão, mas porque a transforma em solo fértil em vez de prisão. Isso seria teologia contemplativa. Isso seria magistério informal, que respeita a inteligência e a ferida do interlocutor sem instrumentalizar nenhuma das duas.

O que se costuma ver é diferente. Instalação da culpa, oferta de alívio condicional, e chamamos isso de cuidado.

A crítica que aqui se esboça não é contrária à orientação espiritual em nenhuma de suas tradições. É, ao contrário, um ato de amor pela tradição, a recusa de ver reduzida a uma mecânica de culpa e recompensa uma herança espiritual que, em suas expressões mais densas e honestas, sempre soube que o ser humano é, antes de tudo, um ser de desejo irresolúvel, e que a espiritualidade não vem para resolver esse desejo, mas para habitá-lo com dignidade.

A oração não é um aplicativo de relacionamento. É, quando genuína, o lugar onde aprendemos a estar inteiros, com ou sem alguém ao lado.


E “Da Janela do seu Olhar” caro leitor,

Quando alguém nomeia sua ferida com aparente cuidado, você verifica se o remédio já estava pronto antes do diagnóstico?

Você ora para transformar sua relação com o desejo, ou para que o desejo desapareça?

O que seria habitar a solidão com dignidade, em vez de tratá-la como problema a ser resolvido?

Há diferença entre confiar em Deus e terceirizar para Deus a responsabilidade sobre sua própria vida afetiva?


Até breve....

J.L.I Soáres

 

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