quinta-feira, 18 de setembro de 2025

SANTO SÁBADO

 O Fogo de Aleluia e a Fé Palpável: Quando os Sentidos Despertam a Alma

Caro Leitor;

"Da janela do meu olhar", a fé nunca foi uma linha reta. Confesso que sempre dancei na borda de uma crise existencial, questionando a existência de um Poder Maior ao mesmo tempo em que a vida, ironicamente, não parava de me dar provas de Sua existência. É um paradoxo curioso: a gente duvida com a razão, mas busca o divino justamente quando precisa de potência para continuar vivendo. Afinal, a incredulidade não sustenta ninguém nos dias difíceis.

Desde 2019, eu ensaiava um retorno ao catolicismo, frequentando missas esporadicamente. Mas foi na Quaresma de 2025 que a chave virou.

Sempre carreguei em mim a necessidade do servir. O voluntariado faz parte da minha essência. Já emprestei minha voz para contar histórias em hospitais pelo "Viva e Deixe Viver", já organizei a vida financeira de um instituto para cegos. Mas, naquele início de 2025, sentindo um vazio que pedia ocupação útil, bati à porta da secretaria da minha paróquia. "Gosto de ler, quero ajudar", eu disse.

Fui recrutada para a Liturgia. E ali, mergulhada na disciplina da Quaresma, acompanhando as madrugadas de oração com Frei Gilson e servindo no altar, algo aconteceu. O canal artístico, que muitas vezes ficava represado pelas preocupações mundanas, abriu-se como uma comporta.

Ideias de livros, poemas e a estruturação deste blog começaram a jorrar. Mas o ápice, o grande "insight" místico, estava guardado para a noite mais sagrada do ano: o Sábado de Aleluia.

Eu estava na escadaria da igreja, junto aos outros fiéis, observando o Rito do Fogo Novo. As chamas dançavam na escuridão, rompendo o luto da Sexta-Feira Santa. Dias antes, dentro da Catedral, eu já havia escrito um poema sobre a "Visão", agradecendo simplesmente por ter "olhos de ver". Mas ali, diante do fogo, a intuição desceu completa, como uma ordem suave e inegável.

Olhei ao redor e percebi algo doloroso: as pessoas estavam ali, de corpo presente, mas seus espíritos pareciam anestesiados. Participavam do rito, mas não o sentiam. A religiosidade havia se tornado mecânica, automática.

Foi quando a mensagem veio clara: "Crie mais. Crie um devocional dos sentidos. As pessoas precisam sentir a fé novamente. Traga isso à tona."

Naquele instante, entendi que a fé não pode ser apenas um conceito abstrato; ela precisa ser Fé Palpável. Precisa passar pelo tato, pela visão, pela audição. Aquele fogo na escadaria não era apenas um símbolo litúrgico; era um convite para incendiar a imaginação.

Dessa epifania nasceram os meus manuscritos artesanais e o projeto do "Devocional dos Cinco Sentidos". O que começou com uma busca por voluntariado para preencher o tempo se transformou na minha missão artística: usar a poesia e a estética para acordar quem está dormindo dentro da própria fé.

Se Deus existe? Naquela noite, enquanto o fogo crepitava e a poesia nascia em mim, a dúvida não teve espaço. Só havia a gratidão por ter olhos de ver o que a maioria apenas olhava.

E "Da janela do seu olhar?"

Você sente que vive a sua espiritualidade de olhos abertos ou está apenas seguindo o fluxo, no "automático"? 

Já teve algum momento em que um ritual, uma música ou uma paisagem "despertou" você para uma realidade maior, onde tudo parecia fazer sentido?

Até breve...

J.L.I Soáres

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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

A ARQUITETURA DA ILUSÃO:

O crime invisível cometido pela língua Por que gritamos nossas certezas?

Caro leitor;

Friedrich Nietzsche, em sua cirúrgica obra Humano, Demasiado Humano, nos deixou um alerta que ecoa como um diagnóstico psíquico:

"A intensidade de uma crença não garante sua verdade, apenas revela a força psicológica ou afetiva de quem acredita."

Essa frase desmonta um dos maiores refúgios da humanidade: a ideia de que ter "fé inabalável" em algo torna esse algo real. Mas, se olharmos através da lente da psicanálise, descobrimos que o excesso de certeza é frequentemente um sintoma, não uma virtude.

Você já notou que as verdades mais óbvias são silenciosas? A gravidade não precisa de militância para nos manter no chão. O sol não exige devotos para nascer todas as manhãs. A realidade simplesmente é.

Apenas as mentiras confortáveis precisam de exércitos, de defesas acaloradas e de gritos para se sustentarem em pé.

Na psicologia, chamamos isso de Formação Reativa. Quando a psique não consegue lidar com a angústia da dúvida ou do vazio, ela constrói uma crença rígida e barulhenta para servir de muro de contenção. O fanático não grita para convencer o outro; ele grita para silenciar a própria dúvida que sussurra no fundo de sua mente.

A intensidade com que defendemos uma "verdade" é, muitas vezes, proporcional ao medo que temos de que ela desmorone.

Mas por que precisamos tanto dessas certezas? Porque o ser humano tem horror ao caos. Temos pânico do "não-sentido".

Para não olhar para o abismo da indiferença do universo, projetamos nossos desejos na tela da realidade. É o mecanismo da Ilusão: moldamos o mundo não como ele é, mas como precisamos que ele seja para não sofrer.

Isso é, em última instância, a recusa da Castração. É a insistência infantil em acreditar que o universo gira em torno do nosso umbigo ou das nossas dores. Chamamos isso de "Fé", "Destino" ou "Conexão", mas, muitas vezes, não passa de uma alucinação afetiva.

Estamos apenas vestindo o acaso com as roupas dos nossos desejos.

Não devemos confundir convicção com verdade. Um homem em um manicômio pode ter a certeza absoluta de que é Napoleão Bonaparte. A intensidade da crença dele é inabalável, talvez até maior do que a sua certeza sobre quem você é. Isso torna o delírio dele real? Não. Apenas torna a tragédia dele mais profunda.

A fé inquebrantável diz muito sobre a psicologia do crente e quase nada sobre a realidade dos fatos. Muitas vezes, a sua "certeza" é apenas a cicatriz de um trauma que você se recusa a curar. É a armadura que você veste para não sentir a pele exposta da incerteza.

Amadurecer é ter a coragem de separar o Fato do Afeto.

É olhar para uma situação e aceitá-la em sua crueza, despida das fantasias que nossa criança interior criou para se sentir segura. A verdade costuma ser fria, indiferente e seca. Mas ela tem uma vantagem única sobre todas as ilusões quentinhas: ela liberta.

A ilusão nos acolhe, mas nos aprisiona numa infância eterna, dependentes de mentiras que nos contam para dormir.

A pergunta que deixo para você hoje não é o que você acredita, mas por que você precisa acreditar com tanto desespero. Você prefere o conforto do sonâmbulo ou a solidão da autonomia?

A lucidez é um caminho sem volta, mas é o único caminho que leva à posse de si mesmo.

Até breve.

J.L.I Soáres

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terça-feira, 2 de setembro de 2025

"I SEE SOULS"

O PESO (E A GLÓRIA) DE ENXERGAR ALÉM DA MÁSCARA SOCIAL

A intuição não é um superpoder de contos de fadas, mas um mecanismo de sobrevivência que nos impede de dançar com lobos disfarçados. Existe uma frase em inglês que resume, com precisão cirúrgica, o drama de quem possui uma sensibilidade aguçada: "I See Souls" (Eu vejo almas). Parece místico, quase romântico. Mas quem carrega esse "dom" sabe que ele está mais para uma maldição diagnóstica do que para uma benção social.

Ver almas significa que eu não consigo me relacionar apenas com a sua Persona. Jung definiu a Persona como a máscara social que usamos para sermos aceitos, o "bom moço", a "mulher de sucesso", o "cidadão de bem". A sociedade ama Personas. Elas são polidas, previsíveis e confortáveis.

Mas a minha "janela do olhar", para citar a cartografia que descrevo em meus livros, possui um defeito de fábrica: ela ignora a máscara e foca na essência.

Quando digo que "vejo almas", não estou falando de ver auras coloridas (embora a energia não minta). Estou falando de Leitura de IntençãoÉ aquela sensação gélida que percorre a espinha quando alguém sorri, mas os olhos permanecem frios. É o alarme que toca quando um convite "generoso" (como um hotel de luxo pago por um quase desconhecido) esconde uma fatura emocional impagável. É a capacidade de ouvir o que não foi dito nos silêncios de uma conversa. Para quem vê almas, a mentira tem cheiro. A manipulação tem textura. E o narcisismo, por mais bem vestido que esteja, tem um som estridente.

O preço dessa clarividência é a solidão. Muitas vezes, vejo pessoas ao meu redor encantadas com um "flautista de Hamelin", aplaudindo um predador, apaixonadas por uma miragem. E eu estou ali, no canto, vendo o abismo.

Se eu falo, sou a "louca", a "desconfiada", a "intensa demais". Se eu calo, sofro a angústia de ver o acidente acontecer em câmera lenta.

É cansativo. Às vezes, eu gostaria de ser ingênua. Gostaria de acreditar na lisonja barata, de me deslumbrar com a ostentação vazia, de achar que todo "bom dia" é sincero. A ignorância, dizem, é uma benção. A lucidez, eu garanto, é um trabalho em tempo integral.

Cientificamente, o que chamamos de intuição é um processamento de dados ultra-rápido do nosso inconsciente. Meu cérebro (e o seu, se você também "vê almas") captou a microexpressão facial, o tom de voz dissonante, a postura corporal incoerente e cruzou isso com um banco de dados de experiências passadas. O resultado é um insight:

  "Cuidado. Não vá. Não confie."

Não é misticismo barato; é inteligência evolutiva. Foi esse olhar que impediu nossas ancestrais de serem comidas por leões escondidos na relva alta. Hoje, ele nos impede de sermos consumidas por "leões" de terno e gravata ou por "amigas" que sugam nossa energia vital.

Apesar do cansaço, aprendi a honrar essa visão. Ela é a guardiã do meu templo. Ela é o filtro que separa quem quer o meu Capital Social de quem quer a minha Companhia Real.

Se o meu olhar te incomoda, se a minha presença te causa repulsa sem motivo (como naquele caso da física quântica das relações), é provável que eu tenha visto algo que você está tentando esconder desesperadamente — até de si mesmo.

E tudo bem. Eu não preciso desmascarar ninguém. A verdade tem o péssimo hábito de aparecer sozinha com o tempo. Eu só preciso confiar no que vejo, mesmo quando o mundo inteiro está aplaudindo a máscara.

"I see souls." E se eu vi a sua e permaneci, saiba caro leitor: é porque encontrei verdade nela. E isso, meu caro, é a coisa mais rara do mundo.

Trecho conectado ao livro: "Essa busca pela verdade nua e crua é o cerne do que chamo de 'Mosaico da Psique'. Só conseguimos mapear nosso ser quando temos coragem de olhar para o que somos, e não para o que fingimos ser."J.L.I. Soáres, em "Da Janela do Meu Olhar, Vol. 1".

Até breve...

J.L.I Soáres

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