O Fogo de Aleluia e a Fé Palpável: Quando os Sentidos Despertam a Alma
"Da janela do meu olhar", a fé nunca foi uma linha reta. Confesso que sempre dancei na borda de uma crise existencial, questionando a existência de um Poder Maior ao mesmo tempo em que a vida, ironicamente, não parava de me dar provas de Sua existência. É um paradoxo curioso: a gente duvida com a razão, mas busca o divino justamente quando precisa de potência para continuar vivendo. Afinal, a incredulidade não sustenta ninguém nos dias difíceis.
Desde 2019, eu ensaiava um retorno ao catolicismo, frequentando missas esporadicamente. Mas foi na Quaresma de 2025 que a chave virou.
Sempre carreguei em mim a necessidade do servir. O voluntariado faz parte da minha essência. Já emprestei minha voz para contar histórias em hospitais pelo "Viva e Deixe Viver", já organizei a vida financeira de um instituto para cegos. Mas, naquele início de 2025, sentindo um vazio que pedia ocupação útil, bati à porta da secretaria da minha paróquia. "Gosto de ler, quero ajudar", eu disse.
Fui recrutada para a Liturgia. E ali, mergulhada na disciplina da Quaresma, acompanhando as madrugadas de oração com Frei Gilson e servindo no altar, algo aconteceu. O canal artístico, que muitas vezes ficava represado pelas preocupações mundanas, abriu-se como uma comporta.
Ideias de livros, poemas e a estruturação deste blog começaram a jorrar. Mas o ápice, o grande "insight" místico, estava guardado para a noite mais sagrada do ano: o Sábado de Aleluia.
Eu estava na escadaria da igreja, junto aos outros fiéis, observando o Rito do Fogo Novo. As chamas dançavam na escuridão, rompendo o luto da Sexta-Feira Santa. Dias antes, dentro da Catedral, eu já havia escrito um poema sobre a "Visão", agradecendo simplesmente por ter "olhos de ver". Mas ali, diante do fogo, a intuição desceu completa, como uma ordem suave e inegável.
Olhei ao redor e percebi algo doloroso: as pessoas estavam ali, de corpo presente, mas seus espíritos pareciam anestesiados. Participavam do rito, mas não o sentiam. A religiosidade havia se tornado mecânica, automática.
Foi quando a mensagem veio clara: "Crie mais. Crie um devocional dos sentidos. As pessoas precisam sentir a fé novamente. Traga isso à tona."
Naquele instante, entendi que a fé não pode ser apenas um conceito abstrato; ela precisa ser Fé Palpável. Precisa passar pelo tato, pela visão, pela audição. Aquele fogo na escadaria não era apenas um símbolo litúrgico; era um convite para incendiar a imaginação.
Dessa epifania nasceram os meus manuscritos artesanais e o projeto do "Devocional dos Cinco Sentidos". O que começou com uma busca por voluntariado para preencher o tempo se transformou na minha missão artística: usar a poesia e a estética para acordar quem está dormindo dentro da própria fé.
Se Deus existe? Naquela noite, enquanto o fogo crepitava e a poesia nascia em mim, a dúvida não teve espaço. Só havia a gratidão por ter olhos de ver o que a maioria apenas olhava.
E "Da janela do seu olhar?"
Você sente que vive a sua espiritualidade de olhos abertos ou está apenas seguindo o fluxo, no "automático"?
Já teve algum momento em que um ritual, uma música ou uma paisagem "despertou" você para uma realidade maior, onde tudo parecia fazer sentido?
Até breve...
J.L.I Soáres
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