domingo, 23 de agosto de 2026

VER É SAGRADO, SER VISTO É PROFANO: A ILUSÃO DE LIBERDADE NAS PLATAFORMAS

Caro Leitor, 

Eu estava vendo shorts no YouTube. Um atrás do outro. Aquela coisa de scroll infinito que você começa sem intenção e acorda meia hora depois sem saber como chegou ali.

Tinha de tudo: pessoas em situação de extrema vulnerabilidade fazendo lives de desespero, blogueiros milionários mostrando o avesso de vidas impossíveis, casarões alugados, cabines de avião para foto, corpos editados, e, no meio disso tudo, há aqueles que parecem verdadeiramente ricos de berço, flertando com a riqueza como quem respira.

Eu senti várias coisas simultaneamente.

Primeiro, uma rejeição visceral. Aquilo era bizarro, sádico até. Ver pessoas em vulnerabilidade existencial se expondo, enquanto uma multidão observava daquele lado da tela, não para ajudar, não para testemunhar com responsabilidade, mas para ver. Para consumir a miséria como quem assiste a um reality show.

Mas depois veio a admiração. Porque tem coragem nisso. Coragem de se expor quando está caindo. Criatividade de quem precisa inventar formas de sobreviver. Aquelas pessoas não estavam apenas se degradando; estavam sendo criativas com a fragilidade. E isso mexeu comigo.

Então veio o julgamento moral. Olhei para as pessoas nos comentários — algumas incentivando, outras sendo hostis, algumas ignorando (ou fingindo ignorar) que aquela pessoa estava em situação precária. E me julgava por estar ali. Me julgava por ter parado alguns instantes. Por ter sentido aquilo.

Saí da plataforma. Mas a sensação ficou.

 

O ESPELHO E O CRISTAL

Depois comecei a notar um padrão que não consigo mais deixar de ver.

Toda vez que abro redes sociais, YouTube, TikTok, Instagram, estou simultânea e contraditoriamente vendo duas realidades.

Uma realidade de vulnerabilidade exposta: pessoas pobres, fazendo lives em ambientes precários. Um colchão no chão. Uma parede mofada. Um sorriso que custa caro. Elas estão ali porque precisam fazer dinheiro. E o algoritmo as mostra porque aquilo vende. Curiosidade. Piedade. Morbidez.

E uma realidade de riqueza curada: blogueiros que vivem em penthouses, que viajam constantemente, cujos corpos são esculpidos. Mas — e aqui está o ponto que ninguém fala, muitos desses "ricos" são ricos de aluguel. Alugam casas de luxo por um dia, alugam cabines de avião para tirar selfie, usam Photoshop. São atores de suas próprias vidas impossíveis.

E eu —, scroll compulsivo — consumo ambas como se fossem igualmente reais.

A Navalha corta aqui: Entre a democracia das redes sociais (onde qualquer um pode se mostrar) e a oligarquia do algoritmo (que decide quem vê quem), existe um vazio. E naquele vazio, eu fico.

Vejo aquele streamer em situação precária e sinto culpa de não ajudar. Vejo aquele influencer rico e sinto inveja de não ser. Vejo minha própria vida — real, desordenada, frágil — e sinto vontade de sair dela.

Aí eu descubro a Lei da Atração.

 

QUANDO A BÍBLIA VIRA AUTOENGANO

Em casa leio: "Pedir como se já tivesse recebido".

É um versículo famoso. Marcos 11:24. "Portanto, vos digo que tudo quanto orardes pedindo, crede que já o recebestes, e o tereis."

Sinto um alívio estranho ao ler isso.

Porque agora tenho permissão. Permissão teológica de visualizar como se já fosse rica. De imaginar a vida impossível como se fosse minha. De acreditar que já a possuo, no plano mental, no plano energético, no plano de Deus.

Mas aqui está o que me perturbou depois que comecei a estudar isso: A Bíblia dizia aquilo dentro de uma comunidade. Dentro de um sacrifício. Dentro de um testemunho coletivo. Você pedia como se já tivesse recebido, e a comunidade confirmava. "Sim, você recebeu. Cremos com você."

Agora eu peço sozinha no meu quarto, em frente à tela.

E a única coisa que confirma minha crença é... mais tela. Mais algoritmo. Mais influencer dizendo "Você merece!" Mais Lei da Atração me dando a receita: visualize, sinta, acredite, e o universo, que é você, por sinal — vai manifestar.

Eis o perverso: A estrutura é idêntica. "Acredite antes de ter." Mas o contexto é radicalmente diferente.

Antes, você acreditava em algo maior que você. Em Deus. Em comunidade. Em sacrifício, porque fé bíblica incluía morte de si para ressurreição.

Agora, você acredita em si mesmo. E "acreditar em si mesmo" enquanto você fica deitada na cama visualizando riqueza é exatamente a inação perfeita. É a prisão perfeita. Porque você se sente como se estivesse fazendo algo.

Você está rezando, não? Está visualizando, não? Está "manifestando", não?

Não. Você está adormecendo.

 

A HERESIA CONFORTÁVEL

Comecei a notar algo perturbador em mim: eu não sentia culpa de estar nas redes. Pelo contrário, sentia uma virtude estranha.

"Estou me preparando," eu pensava. "Estou me alinhando com o universo." "Estou gerando a vibração correta para atrair riqueza."

Mas o que eu estava realmente fazendo era ficar confortável dentro da ilusão.

Porque tem um nome para isso na psicologia: Delusion Amplification by Social Media. A plataforma não cria o delírio; ela amplifica um delírio que já existe — a aspiração legítima de melhorar de vida. Mas amplifica de tal forma que eu deixo de dizer "quando eu tiver" e começo a dizer "eu tenho" (mentalmente). Acredito parcialmente. Introduzo a vida impossível dentro de mim.

E aqui é onde entra a mitomania, não a patologia clínica, mas a mitomania induzida por plataforma. Eu começo a acreditar na minha própria ficção. Não é loucura. É conforto. É tão confortável acreditar que já sou rica que deixo de agir para ser rica.

A Lei da Atração me oferece a desculpa perfeita: "Se você ainda não tem, é porque sua vibração não está alinhada." Não é culpa do sistema. É culpa da sua fé fraca.

Eis a dialética sagrado-profano aqui: O sagrado (fé, visualização, conexão com o divino) vira profano (consumo de conteúdo, algoritmo, engajamento). E o pior: ninguém percebe a transformação. Porque a estrutura parece a mesma.

 

JOÃO GRILO E A CRIATIVIDADE DO DESESPERO

Tem um momento em Auto da Compadecida que não consigo tirar da cabeça.

João Grilo está sendo julgado. O diabo, a razão pura, a lógica, a justiça — quer condená-lo. Porque João mentiu, enganou, foi criativo demais com a verdade.

Mas aí vem Maria intercedendo. E ela não absolve João da mentira. Ela não nega que ele foi astuto, que ele enganou. Ela diz algo mais profundo:

"As pessoas em vulnerabilidade precisam ser criativas para sobreviver."

Aquelas pessoas nas lives em ambientes precários? Elas estão fazendo exatamente o que João Grilo faz. Estão sendo criativas com o desespero. Estão transformando a fragilidade em moeda. Em contenúdo. Em visualização própria que, se funcionar a Lei da Atração, pode mudar suas vidas.

E eu tinha julgado elas. Tinha julgado quem as assistia.

Mas o que é verdadeiramente criativo? É a pessoa pobre que dança em um cômodo mofado, ou é o blogueiro que aluga um casarão para fingir que vive ali?

A resposta é: ambos são criativos. Mas de formas radicalmente diferentes. Uma criatividade é a de quem não tem escolha. A outra é a de quem escolhe parecer ter.

E eu, naquele meio, estava fazendo o quê? Estava escolhendo acreditar que já tinha — sem a criatividade de quem luta, sem o sacrifício de quem muda, sem a responsabilidade de quem testemunha.

Apenas... permanecendo.


 VISÃO GERAL: AS DUAS MORTES COTIDIANAS

Comecei a entender que estamos morrendo duas vezes.

Primeira morte: Morrer para a vida real. Cada hora que passamos visualizando riqueza é uma hora que não estamos vivendo esta vida. O trabalho real, o corpo real, o dinheiro real, o tempo real — tudo é negligenciado em favor da vida paralela que imaginamos.

Não é negligência inocente. É escolha estruturada. A plataforma nos oferece conforto através da ilusão. Aceitamos. Ninguém nos força. Mas a arquitetura está desenhada para que fiquemos.

Segunda morte: Morrer em vida. Estar biologicamente aqui mas existencialmente ausente. Heidegger chamaria isso de inautenticidade radical. Não estamos confrontando nossa própria morte (a finitude estruturante), portanto não estou vivendo autenticamente. Estamos em limbo. Nem vivos, nem mortos. Apenas... scrollando.

E o pior? Isso é confortável.

Porque a verdade — que se somos pobres, que se as chances são limitadas, que há injustiça estrutural, que vamos morrer um dia — é insuportável. A ilusão é um analgésico. Suave. Gratuito. Ritualístico.

Levinas diria que temos responsabilidade infinita com o Outro. Mas também conosco mesmos. E estamos falhando em ambas. Porque estamos em negação.


POR QUE NÃO CONSEGUIMOS SAIR?

A pergunta que ninguém quer fazer.

Se é tudo tão ruim — a ilusão, a morte-em-vida, a sedação através da Lei da Atração — por que não saímos?

E a resposta é: porque sair custa.

Winnicott falava sobre objetos transicionais, aquele urso de pelúcia que o bebê cria para lidar com ansiedade. Aquele objeto não é real, mas é psiquicamente verdadeiro. E quando você tira o objeto transicional da criança, ela sofre.

A visualização é nosso objeto transicional adulto. Não é real (nem todos são ricos), mas é psiquicamente verdadeira (sinti-mo-nos ricos). E se nós largarmos isso, vamos sofrer. Vamos sentir o luto real. A raiva real. A responsabilidade real de agir — e talvez falhar.

A sedação é preferível à liberdade.

Porque liberdade significa confrontar morte. Significa reconhecer que estamos presos porque escolhemos estar. E isso é mais terrível que qualquer prisão external, porque não podemos culpar ninguém além de nós mesmos.

Então deixo aqui a pergunta que não me larga:

Como é possível estar vivo mas não estar vivendo? E quem lucra com essa morte-em-vida?

Plataforma lucra (dados, engagement, atenção). Influenciador lucra (seguidores, credibilidade, cursos de "manifestação"). Sistema lucra (pessoa aqui é menos perigosa, menos revolucionária, menos ativa).

Mas eu? O que ganho?

Conforto. Ilusão. Esperança sem esforço.

E talvez, só talvez, o direito de chamar isso de .

 

Da Janela do Meu Olhar, vejo duas realidades simultâneas: a vida que estou vivendo e a vida que visualizo. A questão que fica é: qual delas é real? E será que importa?


Até Breve...

J.L.I Soáres


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