quarta-feira, 12 de agosto de 2026

SER-PARA-A-MORTE, SER-PARA-A-ESCRITA

 Entre uma tarefa e outra


Caro leitor,

Há reflexões que chegam anunciadas, sentamos para pensar, abrimos um caderno, convocamos a filosofia como quem marca uma visita. E há outras que nos assaltam de surpresa, no meio de uma tarde qualquer, entre um e-mail e outro, entre uma tarefa administrativa e a próxima. Foi assim que ela veio até mim hoje: não em momento solene, mas na fresta entre uma obrigação e a seguinte, quando a mente, por um instante, parou de administrar o cotidiano e enxergou o que está por trás dele.

Pensei: cada pessoa carrega dentro de si um universo inteiro. Não apenas vive no mundo, vive dentro de uma consciência que é, ela mesma, um mundo à parte, intransponível, incomunicável em sua totalidade. Ninguém experimenta a existência de dentro do meu universo, exceto eu. E o mesmo vale, invertido, para cada um de vocês.

Alguns desses universos ganham reconhecimento amplo, quase público. Outros permanecem restritos a círculos pequenos, íntimos, quase sussurrados. Mas todos, sem exceção, caminham para o mesmo destino: a finitude. E aqui reside o que mais me perturbou nesta tarde, quando um desses universos se apaga, o mundo não pausa para constatar a ausência. Ele segue, indiferente, porque nunca foi um único mundo compartilhado. 

Foram sempre bilhões de mundos paralelos, cada um desabando sozinho em seu próprio tempo, sem que os outros sequer notem o baque.

Heidegger chamava essa consciência de Sein-zum-Tode — o ser-para-a-morte. Não como acidente que um dia nos alcança, mas como estrutura que já habita cada instante da existência, desde o primeiro suspiro. Saber disso, verdadeiramente saber, deveria paralisar. E no entanto, não paralisa, ou não deveria.

Porque há também a resposta que Camus ofereceu ao absurdo desta condição: a lucidez sobre a finitude não é convite à imobilidade, é convocação à ação. O sentido não está na garantia de eternidade, está no próprio ato de seguir escrevendo, seguindo, criando, mesmo sabendo que tudo isso um dia se cala.

E talvez seja exatamente isto que a escrita me oferece: não a suspensão da finitude do corpo, nada suspende isso, mas a possibilidade de deixar um rastro que atravesse, ainda que brevemente, o isolamento entre os universos. Cada palavra publicada é uma tentativa, talvez ingênua, talvez necessária, de romper, por um instante, a solidão estrutural de sermos consciências fechadas umas às outras.

Não sei se isso é consolo. Sei que é, ao menos, resposta. E, na falta de garantias maiores, sigo escrevendo.

Até breve...


J.L.I Soáres

LEIA TAMBÉM

A Jornada Intransferível

A Oração como Aplicativo de Relacionamento

A escultura do Afeto

O Nacar e o Delirio



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Propósito

SER-PARA-A-MORTE, SER-PARA-A-ESCRITA

  Entre uma tarefa e outra Caro leitor, Há reflexões que chegam anunciadas, sentamos para pensar, abrimos um caderno, convocamos a filos...