Entre uma tarefa e outra
Caro leitor,
Há reflexões que chegam anunciadas, sentamos para pensar, abrimos um caderno,
convocamos a filosofia como quem marca uma visita. E há outras que nos assaltam
de surpresa, no meio de uma tarde qualquer, entre um e-mail e outro, entre uma
tarefa administrativa e a próxima. Foi assim que ela veio até mim hoje: não em
momento solene, mas na fresta entre uma obrigação e a seguinte, quando a mente,
por um instante, parou de administrar o cotidiano e enxergou o que está por
trás dele.
Pensei: cada pessoa carrega dentro de si um universo inteiro. Não apenas vive no
mundo, vive dentro de uma consciência que é, ela mesma, um mundo à parte,
intransponível, incomunicável em sua totalidade. Ninguém experimenta a
existência de dentro do meu universo, exceto eu. E o mesmo vale, invertido,
para cada um de vocês.
Alguns desses universos ganham reconhecimento amplo, quase público. Outros
permanecem restritos a círculos pequenos, íntimos, quase sussurrados. Mas
todos, sem exceção, caminham para o mesmo destino: a finitude. E aqui reside o
que mais me perturbou nesta tarde, quando um desses universos se apaga, o
mundo não pausa para constatar a ausência. Ele segue, indiferente, porque nunca
foi um único mundo compartilhado.
Heidegger chamava essa consciência de Sein-zum-Tode — o ser-para-a-morte. Não como acidente que um dia nos alcança, mas como estrutura que já habita cada instante da existência, desde o primeiro suspiro. Saber disso, verdadeiramente saber, deveria paralisar. E no entanto, não paralisa, ou não deveria.
Porque há também a resposta que Camus ofereceu ao absurdo desta condição: a lucidez sobre a finitude não é convite à imobilidade, é convocação à ação. O sentido não está na garantia de eternidade, está no próprio ato de seguir escrevendo, seguindo, criando, mesmo sabendo que tudo isso um dia se cala.
E talvez seja exatamente isto que a escrita me oferece: não a suspensão da finitude do corpo, nada suspende isso, mas a possibilidade de deixar um rastro que atravesse, ainda que brevemente, o isolamento entre os universos. Cada palavra publicada é uma tentativa, talvez ingênua, talvez necessária, de romper, por um instante, a solidão estrutural de sermos consciências fechadas umas às outras.
Não sei se isso é consolo. Sei que é, ao menos, resposta. E, na falta de garantias maiores, sigo escrevendo.
Até breve...
J.L.I Soáres
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