Quando a Esperteza Engole o Próprio Rabo
"Da janela do meu olhar", tenho observado que a linha entre a ingenuidade e a intuição é tênue, quase invisível. Muitas vezes, o que chamamos de "surpresa" diante da traição alheia nada mais é do que a nossa recusa em aceitar o óbvio: o ser humano, em sua sombra, é previsivelmente egoísta.
Já escrevi aqui anteriormente sobre a transição perigosa "Da Individuação ao Individualismo", onde exploro como a busca pelo "eu" se torna, muitas vezes, apenas uma desculpa para passar por cima do "outro". Hoje, trago essa teoria para o chão frio da realidade, para o asfalto da Avenida Paulista e para os bastidores do mercado imobiliário, onde o caráter, ou a falta dele, se revela na disputa por uma comissão.
Recordo-me de uma experiência que foi uma verdadeira aula sobre o silêncio. Havia um corretor novo na imobiliária, recém-chegado. Na época, eu precisava de parceria operacional, não tinha carro para os deslocamentos de captação, e ele precisava do know-how. Parecia a troca justa. Passei minhas "dicas de ouro", entreguei estratégias que levei tempo para construir.
A regra era clara: parceria se registra. Mas ele, em sua "esperteza" silenciosa, omitiu meu nome. Registrou tudo como se fosse fruto exclusivo de seu esforço solitário. E eu? Eu calei.
Admito, meu ego gritou. O ego quer o crédito, quer o tapinha nas costas, quer o reconhecimento da autoria. Mas há uma sabedoria mística em apenas observar. Aprendi que,
"enquanto observas, permite deixar as pessoas serem quem elas são".
Não briguei, não cobrei. Apenas assisti, arquivando aquela informação na pasta "não confie" do meu inconsciente.
Mas a cereja do bolo da natureza humana veio em outra ocasião, em uma outra empresa onde eu era a "onipresente". Dedicada, sedenta por aprender. Indiquei uma pessoa para trabalhar conosco. Erro clássico: a gente abre a porta e, às vezes, quem entra a tranca por dentro.
Essa pessoa criou um laço íntimo com o gestor (o broker). Uma "amizade" de conveniência. E eis que surge uma cliente, uma figura conhecida, de alto padrão. A cliente era minha indicação direta, estava sob meu atendimento. Mas, numa manobra de bastidor, o gestor passou a cliente para essa minha "amiga".
Quando questionei, recebi a desculpa burocrática: "Ah, estava na planilha, você não estava mexendo...". Mentira. Era a preferência pessoal atropelando a ética profissional. Eu olhei nos olhos dele e disse apenas: "Tudo bem. Mas toma cuidado, porque outra pessoa pode não entender o seu movimento como eu estou entendendo."
E foi aí que a "Mão de Deus", ou a justiça poética, se preferirem, entrou em cena. A ganância cega.
Eles estavam tão focados em me excluir da jogada, tão focados em fazer o negócio entre "amigos", que o gestor cometeu a burrice do século: convenceu a cliente a alugar primeiro, para "experimentar", em vez de comprar.
O resultado? Trocaram uma comissão gorda de venda de alto padrão por uma migalha de aluguel. A cliente nunca comprou. A "esperteza" deles custou o banquete. Eu perdi a venda, é verdade, mas eles perderam a dignidade e o dinheiro. Ali, vi o plantio e a colheita em tempo real.
Naquele dia, subi a Rua Brigadeiro Luís Antônio chorando, triste. O sentimento de injustiça queimava. Parei, olhei para a imensidão da Avenida Paulista em direção à Consolação, enxuguei as lágrimas e, num misto de ódio e promessa, profetizei para mim mesma: "Um dia, a Paulista vai ser toda minha. Eu vou mandar nessa p***."*
Foi um desabafo? Foi. Mas o universo não entende ironia, ele entende comando. No ano seguinte, abri minha própria imobiliária, ali mesmo, na Paulista.
Hoje, continuo observando. Fechei-me um pouco em copas, é verdade. A confiança agora é artigo de luxo, e meu portfólio na avenida mais famosa da cidade é a prova de que, embora a gente sangre no caminho, a gente conquista o território.
Eles ficaram com as migalhas da própria traição. Eu fiquei com a vista "Da janela do meu olhar".
E "Da janela do seu olhar?"
Você já teve que assistir, em silêncio, a "esperteza" de alguém engolir o próprio sucesso?
Como você lida com a ingratidão profissional: você cobra o reconhecimento ou senta na calçada para ver o karma passar?
Até breve...
J.L.I Soáres
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