quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Onipotência Divina e Existência Do Mal: Uma Crítica à perpetuação Teológica

Caros Leitores,

Este ensaio é parte de uma atividade acadêmica que estou resgatando e publicando aqui no blog. Faz parte de meus estudos em Ciências da Religião, e achei importante compartilhá-lo porque ele toca em uma das questões mais viscerais que cada pessoa de fé enfrenta: por que Deus permite o sofrimento?

Não é resposta. É pensamento em movimento. Reflexão que quer ser honesta, tanto com quem questiona quanto com quem crê. Publico aqui não como verdade última, mas como convite à conversa.

Uma abertura necessária existe uma verdade que precede toda a reflexão sobre Deus: a própria linguagem já o reduz. A tradição apofática da teologia, particularmente a cabala e as correntes contemplativas, reconhecem que falar de Deus é sempre uma corrupção do inefável.

Aquilo que nomeia de forma definitiva não é Deus, mas nossa incapacidade de silenciar. Se isso é verdade, então toda a teodiceia, toda a argumentação racional, toda explicação filosófica, este ensaio já começam vencidos, não porque sejam falsos, mas porque tenta verbalizar o que transcende linguagem. Dito isso, é dentro dessa incompletude necessária que precisamos pensar. Não apesar dela. Por causa dela.

 

O problema que não se resolve

A questão fundamental que estrutura a filosofia da religião permanece intocável há séculos: como é possível um Deus simultaneamente onipotente, onisciente e benevolente numa realidade onde o mal se manifesta de forma incontestável? Este ensaio argumenta que as teodiceias não resolvem o problema do mal mas ao contrário funcionam como dispositivos de autoperpetuação teológica que absorvem contradições para justificar sua própria existência.

Epicuro já havia formulado a questão com precisão lógica: se Deus quer prevenir o mal mas não pode, não é onipotente; se pode, mas não quer, é malévolo; se quer e pode, por que existe o mal? A estrutura é irrefutável. As teodiceias, explicações racionalizadas dessa coexistência, emergiram precisamente para preencher essa lacuna argumentativa.

Mas aqui reside o problema crítico: elas funcionam menos como resoluções e mais como estratégias de perpetuação. Santo Agostinho propôs que o mal é privação do bem, não substância própria. Leibniz mais sofisticado, argumentou ser este “o melhor dos mundos possíveis”. Alvin Plantinga ofereceu a defesa do livre-arbítrio como justificativa suprema.

Todas essas abordagens compartilham uma característica estrutural: diante de cada lacuna explicativa, inserem um Deus, quando a ciência explicava X, a teologia ocupava o espaço do Y ainda desconhecido. Isso não é coincidência é funcionamento sistêmico. A teologia natural dependeu historicamente de ordem observável no universo para funcionar (Paley e o relógio; o argumento cosmológico de Leibniz). A evolução deveria ter sido mortal para esse sistema, e foi, para as suas formas literais. Mas a teologia evolutiva não refutou a teologia natural; a reintegrou. Absorveu. Disse: “A evolução mesma é expressão do Divino”. Salvou-se através da integração do próprio conhecimento que deveria destrui-la.

Essa capacidade de absorção é o que torna a teologia estruturalmente irrefutável, não por ser verdadeira, mas por ser imune à falsificação. Toda crítica, toda lacuna, toda contradição se tornam material para aprofundamento teológico. O “problema do mal” transformou-se em teodiceia. A teodiceia transformou-se em filosofia da religião. Cada etapa integrou o que poderia negá-la.

A crítica contemporânea Dawkins, Hitchens, Russell, reconheceu isso. Não atacam a teologia por ser demonstravelmente falsa (o que seria ingênuo), mas por ser vazia de conteúdo verificável. A noção de “Deus das lacunas” nomeia precisamente esse mecanismo: Deus não é proposição teórica sobre o universo, mas preenchimento perpétuo de espaços onde conhecimento falha.

Para o sofrimento humano, as implicações são profundas. A teodiceia do livre-arbítrio oferece conforto: seu sofrimento resulta de escolhas livres, logo você é responsável, logo mantém a agência. Há dignidade nisso, mas também culpa estruturada. A teodiceia irenaica (Irineu) propõe que o sofrimento amadurece espiritualmente, reconforto que transforma a dor em ferramenta pedagógica divina. Ambas operam não como verdades, mas como narrativas se retornam o sofrimento inteligível sem exigir que Deus se justifique logicamente.

Aqui, o espiritual encontra o psicanalítico. Lakan diria que a teologia funciona como sintoma que permite viver com a falta, não resolvendo-a, mas tornando-a suportável através de significação. O mal permanece incompreensível, mas a teodiceia oferece um quadro onde é parte de um “plano maior”. Psicologicamente funciona. Logicamente não resolve nada.

Na prática religiosa contemporânea, isso manifesta-se como esquizofrenia aceita. Pessoas de fé sofrem, questionam Deus, recebem explicações teodiceicas, aceitam parcialmente, mantêm fé apesar de tudo. Não porque as teodiceias provem algo, mas porque oferecem linguagem para coabitar com o paradoxo. É funcionamento pragmático não epistêmico.

O desenvolvimento espiritual, nesse contexto, torna-se a aceitação da incompreensibilidade. Mística, não teologia racional. A via contemplativa Nouwen, Tillich, reconhece que o problema do mal não se resolve intelectualmente, apenas se transcende experiencialmente. Essa honestidade é mais íntegra que qualquer teodisseia sofisticada.

 

O impasse necessário

A conclusão não é que Deus não existe. É que o problema do mal não pode ser resolvido dentro do paradigma teológico porque a teologia mesma é construída para perpetuar-se absorvendo todas as contradições. Toda a solução gera nova lacuna. Toda a lacuna reafirma a necessidade de Deus. A questão verdadeira não é “Como conciliar Deus com o mal”? mas “Por que a teologia sobrevive mesmo sendo logicamente indefensável”? E a resposta é que ela não sobrevive como o sistema racional, sobrevive como dispositivo de significação que permite o humano viver com o insuportável.

E aqui reside o paradoxo que não se resolve: você pode desmantelar logicamente toda teodiceia, pode apontar suas contradições, pode nomear o mecanismo de “Deus das lacunas”. Você estará correto. Mas então onde você habita? Em que fundamento você repousa sua vida, seu sofrimento, sua morte? A razão humana, robusta como parece, está fadada ao abismo.

Ela explica mecanismos, mas não oferece significado. Ela desconstrói narrativas, mas não gera sentido para viver. Por isso o Salmista persiste: “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5). Não porque a razão seja inútil, (São Tomás de Aquino já a integrou na teologia), mas porque há um limite epistemológico onde ela falha. E nesse limite, a fé não é escape, é a única integridade possível. Aceitar a incompletude. Viver dentro dela.

 

O ciclo que não fecha

Existe um ciclo que permanece aberto e talvez seja virtuoso justamente por isso: a Bíblia foi escrita por homens que dizem ter sido guiados por Deus. Se Deus existe, é Sua palavra através de humanos. Se Deus não existe, é criação puramente humana. Mas até mesmo essa dicotomia pode ser falsa. Porque há uma terceira possibilidade que as teodiceias sempre souberam: que Deus não precisa provar Sua existência para ser real.

Que a fé não é conclusão lógica, mas disposição de habitar a incompletude. E então voltamos ao início: falar de Deus é sempre redução. Criticar a teologia é necessário. Viver sem ela é abismo. A única integridade é estar consciente de estar dentro do jogo, sem pretender tê-lo vencido, sem pretender estar fora dele.


Até breve...

J.L.I Soáres


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