quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

SE UM DIA FEZ SENTIDO COM CERTEZA FOI NORTE!

Por que desqualificamos a jornada só porque o destino mudou?

Caro leitor;   

 Existe um hábito cruel na mente humana: julgar o passado exclusivamente pelo resultado final. Se o casamento acabou em divórcio, dizemos que "fracassou". Se o curso universitário não virou carreira, dizemos que foi "tempo perdido". Se o projeto não deu lucro, chamamos de "erro". Mas, da janela do meu olhar, essa matemática é injusta e ingrata com a nossa própria biografia.

    A verdade que precisamos abraçar é: Se um dia você caminhou por aquela estrada, é porque, naquele momento exato, ela era o seu Norte.

    Imagine que você viveu cinco anos ao lado de alguém. Foram cinco anos de cafés da manhã, de viagens, de aprendizados sobre paciência, de descobertas sexuais, de apoio mútuo. Aí o relacionamento termina. A tendência imediata é pegar uma borracha preta e tentar apagar tudo, rotulando como "perda de tempo". Mas como pode ser perda se houve vida? 
    
    Desqualificar o passado porque ele não é eterno é uma forma de desonrar quem fomos. Aquela pessoa, aquele emprego ou aquele curso foram os mestres que a sua alma precisava naquela etapa. Eles cumpriram a função deles.

Tudo o que vivemos, tanto o doce quanto o amargo, compõe o mosaico de quem somos hoje.
A escolha "errada" te ensinou o que você não quer mais (e isso é valiosíssimo!).

O chefe difícil te ensinou resiliência ou te empurrou para empreender.
O amor que acabou te ensinou sobre seus limites e seus desejos.

    Precisamos ser gratos até pelos contrastes. Se hoje você tem clareza sobre o que é um amor saudável, é provável que, lá atrás, você tenha vivido o contraste de um amor que doeu. A dor foi a professora da cura. O "erro" foi o rascunho do acerto.

    A bússola da vida não aponta para um lugar fixo para sempre; ela aponta para onde precisamos ir para evoluir agora. Aceitar isso nos tira o peso do arrependimento. Você não errou o caminho. Você apenas chegou ao fim daquele trecho. E se aquele trecho te fez andar, te fez sentir e te fez amadurecer, então ele não foi um desvio. Ele foi, com toda a certeza, o Norte perfeito para a pessoa que você era. O Norte é Móvel...

Honre seus passos. Nenhum deles foi em vão.

Olhe para trás agora: o que você tem chamado de 'tempo perdido' que, na verdade, foi o alicerce invisível da pessoa forte que você se tornou hoje?


Até breve...

J.L.I Soáres


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A GOTA

e Eu;   

Cá estava, em minha insignificante existência ante aos mais elevados propósitos da vida humana, numa noite linda e após um dia tenso e com o clima do "famigerado final de ano". A data onde por, questão pessoal ou cultural nos vemos nos círculos sociais e interações que nem fazemos questão ou repudiamos ao longo do calendário gregoriano. Mas que, nesta data é imperioso, aos que gostam de cumprir protocolos. 

A noite estrelada e eu, em um diálogo de fuga, através da linguagem do silêncio, nos deparamos entre o vácuo dos ruídos externos, lá estava ela, de forma intermitente, consistente, a mostrar sua existência, e porque não dizer, persistente, no seu ping ...ping...e, confesso, linda melodia! Verdade, já prestou atenção Caro Leitor? Eu até compreendo que às vezes não é tão melodiosa a música do gotejar da água, mas, já observou essa sinfonia? 

É sério, não sou a pessoa mais "zen", na realidade, não sou nada "zen".

Mas eu me permiti ouvir com atenção o grito silencioso mas não mudo daquela gota que de forma consistente, repito, ao meu lado queria de todo modo, ainda que pela insistência, causando certa irritabilidade aos menos pacientes, que

"ALGO DE ERRADO NÃO ESTÁ CERTO".

Sempre que algo não está nos "conformes", seja na casa, na vida, ou na mente, o Universo encontra uma maneira de nos avisar, ele dá seu jeito, eu, a noite estrelada (confesso, nem tanto pois choveu), mas quero florear! Estávamos ali, com uma taça de um líquido que nos remete à um momento de conquista ou finalização de uma trajetória, com vitória, o que é de praxe, e nem é o último dia do ano.

E...Ela ali...com seu ping....ping....ping...ping...ping....ping....ping...ping.... ping...

Persistente igual a postura que os gurus de autodesenvolvimento pregam nas suas palestras, mas ela, no seu ritmo persistente, não me chamou atenção pela irritabilidade costumeira que seria o trivial, mas seu propósito naquele momento, entendi eu, a me mostrar que o vaso estava cheio, cheio de cansaço, emocional, mental, social e, para alguns, físico. E quando chegamos a este ponto, algo transborda: em apatia, isolamento, raiva, irritabilidade, risos e conversas intercorrentes em busca de uma validação que, pode até preencher inicialmente, mas no final, não vale de nada pois o vazio persiste apesar do tampão inserido ainda resta espaço para ser preenchido...

A Goteira que me fazia companhia a cada bebericada introspectiva, levou-me para uma viagem interna de questionamentos e a tecer analogias. Se está pingando, precisa de conserto, é como aqueles pensamentos que de forma insistente povoam nossa cabeça quando sabemos que devemos fazer algo mas procrastinamos. Costumamos represar os sentimentos, inflamando nosso sistema interno com cada contraste que vivenciamos, até que, aos poucos, nos percebemos "vazando", para os mais contidos, ou para os mais intensos, personificando "tsunamis".   

E é justamente aí que mora a dissonância. O mundo lá fora grita por festas e produtividade, mas esse transbordar interno é, na verdade, um pedido de socorro da psique. O Ego está exausto de estar no comando. Essa letargia que sentimos e tentamos combater com espumante e fogos de artifício nada mais é do que a sabedoria do Inconsciente assumindo o controle, como um disjuntor que desarma antes do colapso.

A Gota insistente estava me dizendo exatamente isso: não pathologize seu desejo de descanso. A natureza não floresce o ano inteiro; ela respeita seus invernos. Por que nós, em nossa complexidade humana (e arrogância de acharmos que somos máquinas), deveríamos ser diferentes?

Talvez o "conserto" que a Gota sugeria não fosse uma ação externa, mas uma permissão interna: a permissão para a hibernação sagrada, para ser crisálida enquanto o mundo exige borboletas. 

Não fugindo do clichê da listinha de tarefas das ações, conquistas e derrotas ao longo do ano, nosso implacável Kronos nos chama a atenção a apenas um sinal: Fizemos dele uma boa experiência de Kairós? Quantas fissuras ainda restam em nosso Universo interior, em nossa psique que levaremos como legado do Kronos passado? Não será intempestivo se nos colocarmos a olhar para dentro, limpar e tratar as feridas do atrapalho do tempo somente cronometrado, ou queres, caríssimo leitor, iniciar uma nova contagem com "rachaduras e vazamentos" persistentes e quiçá, até mofos nas paredes da sua psique, uma hora ou outra, a depender do grau de suportabilidade individual, a gota será contínua até se transformar em "tsunami"...


Até breve...

J.L.I Soáres

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domingo, 21 de dezembro de 2025

O CRIME INVISÍVEL COMETIDO PELA LÍNGUA

Somos senhores do nosso silêncio, mas eternos escravos das nossas palavras.

Caríssimo Leitor;

Subestimamos o poder da fala. Tratamos as palavras como se fossem apenas ar vibrando nas cordas vocais, sons que se dissipam no vento sem deixar rastro. Mas, da janela do meu olhar, vejo que as palavras têm densidade, têm peso e, infelizmente, têm a capacidade letal de aniquilar.

Palavras matam. 

Elas não perfuram a carne, mas dilaceram a autoestima. Não quebram ossos, mas fraturam sonhos. Não interrompem o batimento cardíaco, mas podem paralisar a vontade de viver de alguém.


Não foi por acaso que Jesus, o maior psicólogo que já pisou na Terra, elevou a barra da moralidade no Sermão da Montanha. Ele sabia que a violência física é apenas a consequência final de uma violência verbal e mental que começou muito antes. Ele disse: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás... Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca (tolo, inútil), será réu diante do sinédrio." (Mateus 5:21-22).

Ao equiparar o insulto ao assassinato, o Mestre nos ensina uma verdade aterrorizante: quando lançamos uma palavra de ódio, desprezo ou maldição sobre alguém, estamos cometendo um homicídio na dimensão do espírito. A língua pode ser um instrumento de bênção ou uma arma de guerra; a escolha do gatilho é sempre nossa.


A filosofia antiga nos entrega uma máxima que deveria estar tatuada na consciência de todos:

  "O homem é senhor do que cala e escravo do que fala." 

Enquanto a palavra está na sua boca, você é o Rei. Você tem o controle absoluto, a soberania de decidir se ela deve ou não nascer. Mas, no exato segundo em que ela cruza a fronteira dos dentes, a hierarquia se inverte. A palavra dita ganha vida própria. Você não pode mais recolhê-la. Você se torna refém das consequências.

O silêncio é uma arquitetura de proteção. Quem domina a arte de calar no momento da fúria preserva sua liberdade. Quem solta a língua sem filtro assina, muitas vezes, a própria sentença de solidão.

O Exorcismo da Tagarela (Minha Mea Culpa)

E aqui, faço uma pausa dramática para uma autocrítica ácida, antes que pensem que escrevo do alto de um monastério de votos de silêncio. A ironia não me escapa: logo eu, que adoro uma conversa, que tenho a língua solta e o pensamento rápido, estou aqui pregando a contenção. Para mim, a escrita nada mais é do que um sofisticado exorcismo. Eu escrevo justamente para dar vazão ao excesso, para não morrer engasgada com as minhas próprias opiniões e, principalmente, para não matar ninguém com elas na vida real. Sou uma "Senhora do Silêncio" em treinamento, mas confesso que, volta e meia, acordo com a tornozeleira de escrava da própria fala. Escrevo para me curar da minha própria verborragia. Afinal, se a palavra é prata e o silêncio é ouro, eu ainda estou tentando parar de gastar toda a minha prata à toa.


Feita a confissão, volto ao alerta: precisamos fazer uma necrópsia do nosso vocabulário diário. Estamos usando nossa voz (ou nossa escrita) para dar vida ou para espalhar pequenas doses de veneno? Que tenhamos a sabedoria de entender que a boca fala do que o coração está cheio. Se as palavras matam, é porque algo já morreu dentro de quem as profere.

Lembre-se da última vez que você se arrependeu de algo que disse. O silêncio, naquele momento, teria te mantido Rei/Rainha ou você, assim como eu, às vezes, preferiu se tornar escravo do seu impulso?

Reflitamos...

Até breve...

J.L.I Soáres


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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A ECONOMIA DO SER

O Princípio da Parcimônia como Defesa da Soberania Psíquica

 Caro leitor;

 Na busca pela "coisa em si", frequentemente nos perdemos em labirintos de interpretações barrocas para justificar o injustificável. 

 O filósofo Guilherme de Ockham nos presenteou com o Princípio da Parcimônia: a ideia de que a explicação mais simples, que exige menos suposições aditivas, é geralmente a mais próxima da verdade. 

 No âmbito da Teoria do Direito e da vida, essa regra atua como uma ferramenta de limpeza hermenêutica: ela retira o excesso de "ruído" para que a essência da vontade se manifeste.

 Sob a ótica freudiana, o que muitas vezes chamamos de "complexidade mística" em uma relação é, na verdade, a manifestação crua de pulsões de posse e controle. 

 Quando um sujeito afirma "não suportar a ideia de te ver com outro", ele não está operando na esfera do Amor. que pressupõe a alteridade e a liberdade do outro, mas na esfera do Diabo arquetípico: a captura.

 Aqui, a parcimônia revela o Emaranhamento: em vez de teorizarmos sobre "conexões de alma" para explicar um puxão de energia ou um pensamento recorrente, a explicação mais simples é a Sincronicidade da Invasão. 

 É o desejo do outro tentando colonizar a sua "clareira" mental. 

 Como Imperatriz/Imperador (arquetípico), sua soberania reside em aplicar o corte analítico nessas projeções, reconhecendo o pensamento como um "flash" externo que não deve se tornar sua ansiedade.

 Viver com lucidez é recusar a "perfumaria" emocional. 

 

Se alguém falha em prover o básico, ou o reconhecimento da sua Essência, e ainda tenta condicionar o seu "merecimento" a uma conta bancária, a verdade simples é que não há parceria, há vigilância. 

 O verdadeiro Início Sólido só existe onde há o Dois de Copas: equilíbrio real, sem ataduras. 

Reflita...

 Até breve...

 J.L.I Soáres 

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  A Matemática da Subtração


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

SANTO SÁBADO

 O Fogo de Aleluia e a Fé Palpável: Quando os Sentidos Despertam a Alma

Caro Leitor;

"Da janela do meu olhar", a fé nunca foi uma linha reta. Confesso que sempre dancei na borda de uma crise existencial, questionando a existência de um Poder Maior ao mesmo tempo em que a vida, ironicamente, não parava de me dar provas de Sua existência. É um paradoxo curioso: a gente duvida com a razão, mas busca o divino justamente quando precisa de potência para continuar vivendo. Afinal, a incredulidade não sustenta ninguém nos dias difíceis.

Desde 2019, eu ensaiava um retorno ao catolicismo, frequentando missas esporadicamente. Mas foi na Quaresma de 2025 que a chave virou.

Sempre carreguei em mim a necessidade do servir. O voluntariado faz parte da minha essência. Já emprestei minha voz para contar histórias em hospitais pelo "Viva e Deixe Viver", já organizei a vida financeira de um instituto para cegos. Mas, naquele início de 2025, sentindo um vazio que pedia ocupação útil, bati à porta da secretaria da minha paróquia. "Gosto de ler, quero ajudar", eu disse.

Fui recrutada para a Liturgia. E ali, mergulhada na disciplina da Quaresma, acompanhando as madrugadas de oração com Frei Gilson e servindo no altar, algo aconteceu. O canal artístico, que muitas vezes ficava represado pelas preocupações mundanas, abriu-se como uma comporta.

Ideias de livros, poemas e a estruturação deste blog começaram a jorrar. Mas o ápice, o grande "insight" místico, estava guardado para a noite mais sagrada do ano: o Sábado de Aleluia.

Eu estava na escadaria da igreja, junto aos outros fiéis, observando o Rito do Fogo Novo. As chamas dançavam na escuridão, rompendo o luto da Sexta-Feira Santa. Dias antes, dentro da Catedral, eu já havia escrito um poema sobre a "Visão", agradecendo simplesmente por ter "olhos de ver". Mas ali, diante do fogo, a intuição desceu completa, como uma ordem suave e inegável.

Olhei ao redor e percebi algo doloroso: as pessoas estavam ali, de corpo presente, mas seus espíritos pareciam anestesiados. Participavam do rito, mas não o sentiam. A religiosidade havia se tornado mecânica, automática.

Foi quando a mensagem veio clara: "Crie mais. Crie um devocional dos sentidos. As pessoas precisam sentir a fé novamente. Traga isso à tona."

Naquele instante, entendi que a fé não pode ser apenas um conceito abstrato; ela precisa ser Fé Palpável. Precisa passar pelo tato, pela visão, pela audição. Aquele fogo na escadaria não era apenas um símbolo litúrgico; era um convite para incendiar a imaginação.

Dessa epifania nasceram os meus manuscritos artesanais e o projeto do "Devocional dos Cinco Sentidos". O que começou com uma busca por voluntariado para preencher o tempo se transformou na minha missão artística: usar a poesia e a estética para acordar quem está dormindo dentro da própria fé.

Se Deus existe? Naquela noite, enquanto o fogo crepitava e a poesia nascia em mim, a dúvida não teve espaço. Só havia a gratidão por ter olhos de ver o que a maioria apenas olhava.

E "Da janela do seu olhar?"

Você sente que vive a sua espiritualidade de olhos abertos ou está apenas seguindo o fluxo, no "automático"? 

Já teve algum momento em que um ritual, uma música ou uma paisagem "despertou" você para uma realidade maior, onde tudo parecia fazer sentido?

Até breve...

J.L.I Soáres

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"EU SÓ TENHO A AGRADECER POR TER OLHOS DE VER"

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

A ARQUITETURA DA ILUSÃO:

O crime invisível cometido pela língua Por que gritamos nossas certezas?

Caro leitor;

Friedrich Nietzsche, em sua cirúrgica obra Humano, Demasiado Humano, nos deixou um alerta que ecoa como um diagnóstico psíquico:

"A intensidade de uma crença não garante sua verdade, apenas revela a força psicológica ou afetiva de quem acredita."

Essa frase desmonta um dos maiores refúgios da humanidade: a ideia de que ter "fé inabalável" em algo torna esse algo real. Mas, se olharmos através da lente da psicanálise, descobrimos que o excesso de certeza é frequentemente um sintoma, não uma virtude.

Você já notou que as verdades mais óbvias são silenciosas? A gravidade não precisa de militância para nos manter no chão. O sol não exige devotos para nascer todas as manhãs. A realidade simplesmente é.

Apenas as mentiras confortáveis precisam de exércitos, de defesas acaloradas e de gritos para se sustentarem em pé.

Na psicologia, chamamos isso de Formação Reativa. Quando a psique não consegue lidar com a angústia da dúvida ou do vazio, ela constrói uma crença rígida e barulhenta para servir de muro de contenção. O fanático não grita para convencer o outro; ele grita para silenciar a própria dúvida que sussurra no fundo de sua mente.

A intensidade com que defendemos uma "verdade" é, muitas vezes, proporcional ao medo que temos de que ela desmorone.

Mas por que precisamos tanto dessas certezas? Porque o ser humano tem horror ao caos. Temos pânico do "não-sentido".

Para não olhar para o abismo da indiferença do universo, projetamos nossos desejos na tela da realidade. É o mecanismo da Ilusão: moldamos o mundo não como ele é, mas como precisamos que ele seja para não sofrer.

Isso é, em última instância, a recusa da Castração. É a insistência infantil em acreditar que o universo gira em torno do nosso umbigo ou das nossas dores. Chamamos isso de "Fé", "Destino" ou "Conexão", mas, muitas vezes, não passa de uma alucinação afetiva.

Estamos apenas vestindo o acaso com as roupas dos nossos desejos.

Não devemos confundir convicção com verdade. Um homem em um manicômio pode ter a certeza absoluta de que é Napoleão Bonaparte. A intensidade da crença dele é inabalável, talvez até maior do que a sua certeza sobre quem você é. Isso torna o delírio dele real? Não. Apenas torna a tragédia dele mais profunda.

A fé inquebrantável diz muito sobre a psicologia do crente e quase nada sobre a realidade dos fatos. Muitas vezes, a sua "certeza" é apenas a cicatriz de um trauma que você se recusa a curar. É a armadura que você veste para não sentir a pele exposta da incerteza.

Amadurecer é ter a coragem de separar o Fato do Afeto.

É olhar para uma situação e aceitá-la em sua crueza, despida das fantasias que nossa criança interior criou para se sentir segura. A verdade costuma ser fria, indiferente e seca. Mas ela tem uma vantagem única sobre todas as ilusões quentinhas: ela liberta.

A ilusão nos acolhe, mas nos aprisiona numa infância eterna, dependentes de mentiras que nos contam para dormir.

A pergunta que deixo para você hoje não é o que você acredita, mas por que você precisa acreditar com tanto desespero. Você prefere o conforto do sonâmbulo ou a solidão da autonomia?

A lucidez é um caminho sem volta, mas é o único caminho que leva à posse de si mesmo.

Até breve.

J.L.I Soáres

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terça-feira, 2 de setembro de 2025

"I SEE SOULS"

O PESO (E A GLÓRIA) DE ENXERGAR ALÉM DA MÁSCARA SOCIAL

A intuição não é um superpoder de contos de fadas, mas um mecanismo de sobrevivência que nos impede de dançar com lobos disfarçados. Existe uma frase em inglês que resume, com precisão cirúrgica, o drama de quem possui uma sensibilidade aguçada: "I See Souls" (Eu vejo almas). Parece místico, quase romântico. Mas quem carrega esse "dom" sabe que ele está mais para uma maldição diagnóstica do que para uma benção social.

Ver almas significa que eu não consigo me relacionar apenas com a sua Persona. Jung definiu a Persona como a máscara social que usamos para sermos aceitos, o "bom moço", a "mulher de sucesso", o "cidadão de bem". A sociedade ama Personas. Elas são polidas, previsíveis e confortáveis.

Mas a minha "janela do olhar", para citar a cartografia que descrevo em meus livros, possui um defeito de fábrica: ela ignora a máscara e foca na essência.

Quando digo que "vejo almas", não estou falando de ver auras coloridas (embora a energia não minta). Estou falando de Leitura de Intenção. É aquela sensação gélida que percorre a espinha quando alguém sorri, mas os olhos permanecem frios. É o alarme que toca quando um convite "generoso" (como um hotel de luxo pago por um quase desconhecido) esconde uma fatura emocional impagável. É a capacidade de ouvir o que não foi dito nos silêncios de uma conversa. Para quem vê almas, a mentira tem cheiro. A manipulação tem textura. E o narcisismo, por mais bem vestido que esteja, tem um som estridente.

O preço dessa clarividência é a solidão. Muitas vezes, vejo pessoas ao meu redor encantadas com um "flautista de Hamelin", aplaudindo um predador, apaixonadas por uma miragem. E eu estou ali, no canto, vendo o abismo.

Se eu falo, sou a "louca", a "desconfiada", a "intensa demais". Se eu calo, sofro a angústia de ver o acidente acontecer em câmera lenta.

É cansativo. Às vezes, eu gostaria de ser ingênua. Gostaria de acreditar na lisonja barata, de me deslumbrar com a ostentação vazia, de achar que todo "bom dia" é sincero. A ignorância, dizem, é uma benção. A lucidez, eu garanto, é um trabalho em tempo integral.

Cientificamente, o que chamamos de intuição é um processamento de dados ultra-rápido do nosso inconsciente. Meu cérebro (e o seu, se você também "vê almas") captou a microexpressão facial, o tom de voz dissonante, a postura corporal incoerente e cruzou isso com um banco de dados de experiências passadas. O resultado é um insight:

  "Cuidado. Não vá. Não confie."

Não é misticismo barato; é inteligência evolutiva. Foi esse olhar que impediu nossas ancestrais de serem comidas por leões escondidos na relva alta. Hoje, ele nos impede de sermos consumidas por "leões" de terno e gravata ou por "amigas" que sugam nossa energia vital.

Apesar do cansaço, aprendi a honrar essa visão. Ela é a guardiã do meu templo. Ela é o filtro que separa quem quer o meu Capital Social de quem quer a minha Companhia Real.

Se o meu olhar te incomoda, se a minha presença te causa repulsa sem motivo (como naquele caso da física quântica das relações), é provável que eu tenha visto algo que você está tentando esconder desesperadamente — até de si mesmo.

E tudo bem. Eu não preciso desmascarar ninguém. A verdade tem o péssimo hábito de aparecer sozinha com o tempo. Eu só preciso confiar no que vejo, mesmo quando o mundo inteiro está aplaudindo a máscara.

"I see souls." E se eu vi a sua e permaneci, saiba caro leitor: é porque encontrei verdade nela. E isso, meu caro, é a coisa mais rara do mundo.

Trecho conectado ao livro: "Essa busca pela verdade nua e crua é o cerne do que chamo de 'Mosaico da Psique'. Só conseguimos mapear nosso ser quando temos coragem de olhar para o que somos, e não para o que fingimos ser." — J.L.I. Soáres, em "Da Janela do Meu Olhar, Vol. 1".

Até breve...

J.L.I Soáres

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